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ADEUS A UM GIGANTE DA ÓPERA

Gérard Mortier, ex-diretor do Teatro Real de Madri, morre aos 70 anos

Uma das figuras mais importantes do mundo da ópera, tinha câncer no pâncreas Mesmo com a doença, trabalhou até o seu último suspiro

Daniel Verdú
Gérard Mortier, que morreu em seu apartamento em Bruxelas.
Gérard Mortier, que morreu em seu apartamento em Bruxelas.Javier del Real

“Não peço viver muitos anos, só um tempo mais com lucidez para seguir trabalhando.” Gérard Mortier (Gante, 1943), o filho de um padeiro de Gante que revolucionou a cena operística das últimas décadas com seus distintos projetos, pertencia a uma espécie em extinção. A dos homens que entregam sua vida, literalmente, a uma grande paixão, a seu trabalho. Mesmo com um câncer de pâncreas diagnosticado em maio, continuou trabalhando, lendo e escrevendo artigos até seu último suspiro. O homem que substituiu a Herbert von Karajan à frente de Salzburgo, que transformou um pequeno teatro como La Monnaie de Bruxelas em um foco de inovação internacional, ou deu um ultimato à Ópera de Nova York pouco antes de começar a dirigi-la, morreu neste domingo em seu apartamento de Bruxelas rodeado de sua família e amigos íntimos. Acabava de voltar de Moscou, onde havia sido submetido a um inovador tratamento que lhe dera esperança, mas também um profundo esgotamento.

Todas suas etapas profissionais estiveram guiadas pelo conflito intelectual e pelo debate, assim como pela demolição das convenções clássicas e dos tópicos que cercam o mundo da ópera. Sua carreira foi uma aposta no repertório contemporâneo. Ele abriu as portas dos teatros ao público mais jovem e incorporou à ópera outras disciplinas artísticas, como a videoarte, o cinema e o pop. Rodeou-se de artistas como Michael Haneke, Anselm Kiefer, Peter Sellars, Bob Wilson e Bill Viola. Sempre foi acompanhado pela polêmica. E, em quase todas as ocasiões, também pelo êxito. Mas os últimos tempos foram possivelmente os mais difíceis de sua vida. O Teatro Real, onde foi diretor artístico até setembro do ano passado, destituiu-o depois de uma entrevista que concedeu ao EL PAÍS, na qual anunciava sua enfermidade e ameaçava abandonar seu cargo se não pudesse participar da eleição de seu sucessor. Aceitou assim, em troca da disputa, o cargo de conselheiro artístico, uma degradação evidente, a fim de poder administrar até seu último fôlego uma temporada em andamento na qual ansiava ver o resultado de estreias como Brokeback Mountain ou poder lutar com a polêmica que acreditava que fossem despertar Os Contos de Hoffmann.

O tempo de Mortier no Teatro Real foi um período solitário, de incompreensão – merecida ou não – do setor mais conservador do teatro. Também de escassos amigos. Polemizou com Esperanza Aguirre, com Ana Botella e com Ignacio González. No final de seus dias, distanciou-se inclusive do presidente do Patronato do Teatro Real, Gregorio Marañón, um de seus últimos defensores. Nunca fugiu à troca de golpes. Acreditava que essa agitação permanente manteria viva a ópera. Assim como sua aposta na vertente mais intelectual do teatro e o rechaço ao que considerava as “obviedades” do bel canto e seu entorno de estancados defensores. Sua falta de diplomacia e, possivelmente, a imposição de algumas ideias com as quais estava disposto a morrer – “convicções”, como dizia – atraíram todo tipo de inimigos, mesmo dentro do Teatro Real. Foi atribuído a ele, um tanto arbitrariamente, um desprezo absoluto em relação ao espanhol por causa da evidente falta de vozes pátrias em suas programações. Seu argumento era claro: hoje na Espanha não há vozes como as de outros tempos. Permanecerá sua aposta em artistas como Eduardo Arroio, La Fura Dels Baus, María Bayo, Carlos Álvarez ou Agustín Ibarrola. Ou a recente encomenda de três novas óperas a compositores espanhóis como Mauricio Sotelo, Elena Mendoza e Alberto Posadas.

Gerard Mortier e o diretor Peter Sellars.
Gerard Mortier e o diretor Peter Sellars.marion kalter

Queria um teatro rejuvenescido, agressivo e reflexivo. Desprezava sem dissimulação a concepção da ópera como mero entretenimento. “Aqui não se vem para fazer a digestão ou bocejar”, sustentava frequentemente. O mesmo procurava em seus colaboradores. Também tinha um certo desprezo pelos astros da cena e pelos caprichos dos grandes divos no ocaso de sua carreira. Todos os holofotes apontavam para ele. Suas entrevistas coletivas eram um claro reflexo dessa paixão, algumas vezes um tanto narcisista. Muitas outras, excessivamente pedagógica. Recém-saído de um hospital na Alemanha, viajou no fim de janeiro a Madri para apresentar Brokeback Mountain. Recolhido na casa de uma amiga – após sua destituição, preferiu gastar todo seu dinheiro no tratamento e renunciou a seu apartamento –, saiu da cama com 40 graus de febre para ficar diante da imprensa e explicar a importância daquela estreia mundial.

Sempre recordava sua educação jesuíta. Daí saiu, contava, parte de sua perseverança e rigor no estudo e no trabalho. Sua teimosia intelectual. Filho de uma família humilde, estudou direito e logo forjou uma cultura musical a bordo de um velho carro com o qual percorria, aos 27 anos, os 300 quilômetros que separavam Gante das óperas de Düsseldorf ou Colônia. Aprendeu o meticuloso planejamento dos ensaios com o maestro Christoph von Dohnányi e, pouco a pouco, foi se convertendo no legendário gestor operístico. Principalmente após sua passagem por Salzburgo. Como na maioria de suas etapas, a violenta renovação que empreendeu começou com a rejeição pública de alguns círculos de seu predecessor, Herbert von Karajan, e terminou, depois de dez anos, com uma oferta de renovação por mais cinco (que ele recusou). A revolução começou com a programação e dos artistas – apostou-se num repertório moderno como São Francisco de Assis de Peter Sellars ou Da casa dos mortos, de Janáček, com encenação de Eduardo Arroio e batuta de Claudio Abbado – e incluiu também a redução de preços para atrair o público mais jovem. Provocou polêmica. Enfrentou o ultradireitista Jörg Haider. Mas ainda sentem saudades dele. Assim como em Bruxelas, onde converteu LaMonnaie, um teatro de quinta categoria, em um farol cultural europeu. Até em Paris, onde acabou enfrentando a oposição de um amplo setor dos círculos operísticos, mas também se reconhece que nada voltou a ser o mesmo desde então.

Um de seus fiéis companheiros desde que começaram a colaborar no Festival de Salzburgo, o diretor de cena Bob Wilson, estava muito afetado na manhã deste domingo e descrevia Mortier desta forma: "Tinha um compromisso incrível com seu trabalho. Estava interessado na literatura, no drama, nas artes plásticas, na música. Fez o que ninguém fazia nem tinha feito antes. Assumia riscos. Em Madri, apostou em Vida e morte de Marina Abramovic. Nunca se havia visto algo assim em um teatro de ópera em Madri. Era um grande alto-falante da juventude, sempre estava atento ao que acontecia. Igualmente no teatro, onde solucionava os problemas dos artistas imediatamente. Era um visionário inigualável". Era, como explicava Haneke, um amigo dos artistas. Um deles.

Joan Matabosch, diretor artístico do Liceu de Barcelona, recebeu o difícil encargo de substituir Mortier em outubro. Especialmente complicado pela tensão que se vivia naquele momento e pela enfermidade de que padecia o belga. Mas a transição, nas palavras do próprio Mortier, foi deliciosa e o gestor catalão teve toda a diplomacia do mundo para não irritar ninguém e aproveitar ao máximo o legado de seu antecessor. Na manhã deste domingo, Matabosch se desfez em elogios para ele. "Foi uma das grandes figura da ópera em nível internacional. alguém de quem devemos nos orgulhar de haver desfrutado." Matabosch considerou a perda do Mortier um fato "tremendamente lamentável" e elogiou o trabalho do músico belga, a quem elogiou como “uma das personalidades que contribuiu de maneira fundamental para a renovação da ópera nas últimas décadas”.

As condolências chegaram de figuras relevantes como o presidente da França, François Hollande. "Grande diretor de ópera e possuído pela certeza de que a arte era contemporânea, liderou a Ópera Nacional de Paris até 2009, para onde trouxe os maiores cenógrafos", destacou o Palácio do Eliseu em um comunicado. “(Mortier) continuou lutando até suas últimas forças pela cultura na Europa. Sentiremos falta de sua originalidade e seu talento.”

O Teatro Real decidiu dedicar a Gérard Mortier a apresentação de Alceste, de Gluck, na tarde desta segunda-feira, com um minuto de silêncio em sua memória, e as bandeiras da fachada da Plaza de Oriente tremularão a meio pau em sinal de luto. Dessa forma começará a ser preparada uma homenagem na qual os jovens terão uma presença destacada, recolhendo sua herança como grande impulsor da ópera como arte aberta para o nosso tempo e para os novos públicos.

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