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Copa do Mundo 2014

Uma seleção em busca de craques

Campeões mundiais dizem que Felipão está no caminho certo e que não terá dificuldade para convocar seleção porque o país já não tem tantos bons jogadores

A seleção brasileira na final da Copa das Confederações.
A seleção brasileira na final da Copa das Confederações. EFE

Faltam apenas dois meses para a última chamada para o trem brasileiro que parte para a estação Copa do Mundo 2014. Será no dia 7 de maio, quando o técnico Luis Felipe Scolari, o Felipão, fará sua lista definitiva com 23 nomes que defenderão as cores do Brasil no segundo mundial defendido em seu território.

Quem aposta em grandes surpresas na lista de Felipão deverá perder dinheiro, segundo avaliam campeões mundiais pela seleção canarinha consultados pelo EL PAÍS. Para eles, no dia 12 de junho, na estreia contra a Croácia, no Itaquerão, pouco será mudado no time titular que vendo sendo escalado nos últimos meses. Principalmente porque, infelizmente, o Brasil não é mais um celeiro de craques como fora outrora.

“Quem sabe do time mesmo é o Felipão. Eu só posso dizer que estou otimista com essa Copa em casa. Agora, acho que ele não terá dificuldades porque não temos tantos craques hoje como tínhamos antigamente. Não vai ser difícil montar a equipe”, disse o ex-atacante Coutinho, que brilhou durante anos ao lado de Pelé e foi campeão em 1962, na Suécia. A opinião dele é compartilhada por Tostão, campeão em 1970, no México. “Não temos muitos bons jogadores para ter dúvidas”, ponderou.

Entre as dezenas de ex-jogadores procurados, poucos quiseram se manifestar sobre a seleção e a Copa. Os que falaram elogiaram o que chamaram de único craque do Brasil, o atacante Neymar. Eles também demonstraram preocupação com a convocação para duas posições, a de goleiro e a de centro-avante. A primeira, porque Júlio Cesar, que atua no modestíssimo time canadense Toronto, está jogando uma liga fraquíssima e poderá sentir a falta de ritmo de jogo. A outra posição porque o homem de confiança de Felipão, Fred tem enfrentado uma série de lesões no Fluminense e seu substituto imediato, Jô, do Atlético Mineiro, alterna bons e maus períodos.

Comecemos as análises pelos vencedores mais antigos.

Pepe

O ex-jogador Pepe. ampliar foto
O ex-jogador Pepe. Divulgação Santos FC

Vencedor nas Copas de 1958, no Chile, e de 1962, na Suécia, o ex-jogador José Macia, o Pepe, de 79 anos, sente que o time precisava ter mais atletas que atuassem em times brasileiros. “Isso cativaria mais o público. Fica difícil para o brasileiro se aproximar de um jogador que joga na Europa. No meu tempo todo mundo sabia de cor e salteado a escalação do Brasil porque jogávamos nos clubes daqui”, afirmou ele. Chamado de o Canhão da Vila Belmiro, Pepe atuou por 15 anos como em único clube o Santos. Nesse período jogou como ponta-esquerda ao lado do maior jogador de todos os tempos, Pelé e de outros craques, como Zito, Mengálvio, Clodoaldo e Coutinho, que também levantaram a taça de campeão mundial.

Mesmo criticando o “estrangeirismo”, Pepe, que já foi treinador, escalou o seu time ideal com apenas um atleta que atua no Brasil, o centroavante Fred. “É porque exportamos jogadores de uma maneira incrível. Quase não temos craques, e os bons jogadores que temos mandamos para fora”.

Eis o time de Pepe, no esquema 4-4-2, com comentários feitos por ele em relação a alguns jogadores: Goleiro: Júlio César (é seguro, apesar de jogar em um clube que ninguém conhece); Laterais: Daniel Alves e Marcelo (já que não temos Nilson Santos vamos com eles); Zagueiros: Thiago Silva e David Luiz (são seguros); Volantes: Luiz Gustavo, Ramires e Paulinho (esse é titularíssimo); Meia: Oscar (muito valente, apesar de magrinho); Atacantes: Fred e Neymar (vai desequilibrar na Copa, dependemos muito dele que é nosso maior craque).

Tostão

O ex-jogador Tostão. ampliar foto
O ex-jogador Tostão. Hoje em Dia /Ag. Estado

Eduardo Gonçalves de Andrade, 67 anos, é um dos poucos jogadores que não trabalharam exclusivamente com futebol após a aposentadoria. Assim pelo nome é pouco conhecido, mas pelo apelido é tido como um dos principais jogadores brasileiros de todos os tempos: Tostão.

Hoje, ele é médico e escreve sobre futebol na Folha de S. Paulo. Há 44anos ergueu a taça do tricampeonato mundial, no México, ao lado de outros três ídolos nacionais, Pelé, Jairzinho, Rivellino e Gérson. Até os dias atuais esse time é visto como um dos melhores de todos os tempos. Era uma máquina de fazer gols, foram 18 em seis jogos, e principalmente de jogar bonito.

Tido como um dos principais analistas de futebol do país na atualidade, o ex-meia do Cruzeiro, que foi o maior goleador do time celeste de Minas Gerais, apostaria em um time de Felipão mais ousado do que o que venceu a Copa das Confederações. “Vamos jogar em casa e seremos pouco atacados. Eu colocaria o time mais para frente, melhorando a saída de bola, com volantes que chegassem mais ao ataque. E não tenho certeza de que o Fred estaria muito bem, por isso testaria colocar um meia no lugar dele, com o Neymar fazendo o papel de centro-avante que volta para ajudar o time”.

Assim seria o time titular de Tostão: Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Ramires, Paulinho, Oscar e Willian; Hulk e Neymar. Na prática, apenas dois jogadores deixariam o time titular que massacrou a Espanha na Copa das Confederações.

Entre os reservas que não ficariam de fora da lista de Tostão estão o zagueiro do Bayern de Munique Dante, o volante do Wolfsburg Luiz Gustavo (“é uma ótima opção defensiva”, diz) e o volante do Machester City Fernandinho. Além, é claro, de Fred, desde que estivesse em boas condições físicas.

Mauro Silva

Mauro Silva, à direita, durante jogo contra o Barça. ampliar foto
Mauro Silva, à direita, durante jogo contra o Barça.

O volante Mauro Silva que fez uma brilhante carreira no Desportivo La Coruña e participou da vitoriosa equipe de 1994, nos Estados Unidos, parece ser daqueles que preferem não mexer em time que está ganhando. Aos 46 anos, o hoje investidor raramente aparece em programas esportivos ou comenta sobre o futebol. Mas quando o faz, mede as palavras para não desagradar seus colegas que estão em atividade nem seus sabatinadores.

“Precisava me distanciar um pouco do futebol e dedicar mais tempo à família”, diz ele ao ser perguntado por que não seguiu uma carreira de técnico.

Sobre a seleção afirma que a equipe é jovem, competitiva e que o fator casa deve pesar muito nos jogos. “Eu daria uma oportunidade ao Júlio e confiaria no Fred, que jogou muito bem. Por isso, manteria o time que ganhou a Copa das Confederações. Mas é preciso ficar atento a esses dois atletas”. Portanto, sua equipe ideal seria: Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Luiz Gustavo, Paulinho e Oscar; Hulk, Neymar e Fred.

Na equipe reserva, ele diz que com certeza teria o volante do Chelsea Ramires e que excluiria o meia-atacante Lucas Moura, do PSG (“teve muitas oportunidades, e as desperdiçou”).

Em poucos meses saberemos quais desses palpites estarão certos.

Poucos se atrevem a falar

Nas últimas semanas dezenas de ex-jogadores foram procurados para analisar a seleção de Scolari e para apresentar qual seria o seu time ideal. Poucos se atreveram a atender aos pedidos da reportagem. Além de Coutinho, que não quis fazer o “papel” de treinador, outros se negaram a tratar do assunto, alegando questões profissionais. Entre eles estão o ex-lateral Jorginho, o ex-atacante Romário (ambos da Copa de 1994) e o atacante Rivaldo (Copa de 2002).

Jorginho atualmente é treinador e está desempregado. Segundo seus assessores, como ele foi auxiliar-técnico de Dunga no fracasso da seleção na Copa de 2010, não seria ético ele dar pitacos no time de Scolari.

O deputado federal Romário, melhor jogador do mundo em 1994 quando atuava pelo Barcelona, pediu para que a reportagem não o colocasse nessa “saia-justa”. Nos últimos anos, o baixinho teceu dezenas de críticas à Confederação Brasileira de Futebol, mas atuou como comentarista esportivo da TV Record nas Olimpíadas de Londres, em 2012.

Já Rivaldo, que em 1999, também foi eleito melhor do mundo quando jogava pelo Barça, disse por meio de assessores que não dá entrevistas quando o assunto é seleção brasileira. Atualmente, aos 41 anos ele joga no time em que é presidente, o Mogi Mirim (de São Paulo).

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