Brasil é um dos países da América Latina que menos investem

Entre 30 nações, o país ocupa o 23º lugar em taxa de investimento, atrás de Nicarágua, Jamaica e Bolívia

Máquinas e equipamentos no distrito industrial de Santa Cruz, no Rio.
Máquinas e equipamentos no distrito industrial de Santa Cruz, no Rio.AGÊNCIA PETROBRAS

Apesar de uma ligeira melhora no ano passado, a taxa de investimento no Brasil ainda preocupa, permanecendo entre as menores da América Latina e do Caribe. A relação entre a medida que reflete o uso de capital em meios de produção e a soma de todas as riquezas produzidas no país serve como um instrumento crucial para as ambições de um crescimento sustentável no longo prazo.

O indicador ficou em 18,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013, segundo informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira. O resultado superou os 18,2% registrados no ano anterior. O investimento em si, medido como a formação bruta de capital fixo, foi celebrado pelo Governo, uma vez que houve uma recuperação no ano passado, de 6,3%, depois da queda de 4% em 2012.

Porém, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), entre os 30 países da região da América Latina e o Caribe analisados –Haiti e Suriname não fazem parte da amostra–, a taxa de investimento brasileira ficaria em 23º lugar, à frente apenas de Barbados, Dominica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Paraguai e Trinidad e Tobago. Os números se referem ao levantamento com estimativas do órgão para o ano de 2013. Os países da Aliança do Pacífico, por exemplo, apresentam taxas de investimento acima de 20%: no México é de 24,1%, no Chile, 25,6%, no Peru, 27,8% e na Colômbia, 23,7%.

Na comparação com outros emergentes, o desempenho do Brasil também não é diferente. Fica atrás de Rússia (25,3%), Índia (35%), China (48,8%).

Na apresentação dos resultados da economia brasileira em 2013, nesta quinta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avaliou que a trajetória da taxa de investimento em relação ao PIB tende a aumentar nos próximos anos. “Até 2020 devemos chegar a 24%”, disse. Essa, porém, era a mesma projeção feita pela equipe da presidenta Dilma Rousseff para este ano, em seu primeiro ano de Governo. Ou seja, o plano era que em 2014 a taxa de investimento estivesse em 24% do PIB.

Mantega apontou que as concessões em infraestrutura feitas em 2012 e 2013 – aeroportos e rodovias, principalmente – devem estimular o investimento neste ano. Vagner Alves, economista da Franklin Templeton, porém, acredita que os efeitos desses projetos só devem aparecer em 2015 ou 2016 e que o cenário para 2014 não é nada promissor para que as empresas invistam. “Os juros mais altos devem afetar a taxa de investimento”, diz ele.

Ontem o Banco Central subiu, uma vez mais, a taxa de juros, que passou de 10,25% para 10,75%. Esta é a sétima alta consecutiva, desde abril do ano passado. A alta era esperada, em função da volatilidade da economia internacional e da necessidade de manter a inflação sob controle. O aumento deve encarecer também o crédito, o que desestimula o consumo.

A indústria já vinha sentindo um consumidor mais retraído desde o ano passado e por isso não se ilude com 2014. “Esperamos um empate dos resultados”, diz Armando Valle, vice-presidente de relações institucionais e sustentabilidade da Whirlpool, fabricante de eletrodomésticos que faturou 9,3 bilhões de reais no ano passado, com lucro antes dos impostos de 1 bilhão de reais, em linha com o resultado de 2012. “Não foi um ano exuberante, mas também não foi desastroso”, diz. As vendas de linha branca foram uma das mais beneficiadas pela expansão do crédito dos últimos anos e vinham crescendo a taxas de dois dígitos. No ano passado, porém, viveram queda de 4%.

Os números do PIB divulgados nesta quinta-feira mostram que o consumo das famílias está crescendo menos, o que acaba por desestimular as empresas a empreender grandes projetos de investimentos. “O ideal seria se chegássemos a uma taxa de 25% do PIB, mas o nosso pico foi em 2010, quando atingimos uma taxa de investimento de 19,5%”, diz Sérgio Vale, da MB Associados. Na comparação trimestre com trimestre anterior de 2013, os investimentos do país cresceram mais no primeiro semestre: de 3,9% no primeiro trimestre, e 3,6% no segundo. Já no terceiro trimestre, ela caiu 2% e subiu 0,3% no quarto trimestre.

Roberto Giannetti da Fonseca, vice-presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), afirma que o país só terá um crescimento sustentável se a taxa de investimento brasileira chegar, pelo menos, a 23%, assim como a de poupança.

Mas, além da conjuntura pessimista, outras razões estruturais desestimulam as empresas a injetar capital em novos projetos no país. A burocracia é um entrave constante, assim como a falta de financiamento barato. Nem todas conseguem acessar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que oferece crédito a taxas competitivas.

O economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani, aponta dois grandes desafios do investimento no país. O primeiro reúne os custos de produção (mão de obra, infraestrutura, carga tributária), e o segundo, questões conjunturais, como o cenário internacional e os próprios "ruídos em relação às regras da economia nacionais". Padovani, entretanto, é otimista quanto ao futuro. “Vejo um ambiente global mais saudável e que estamos criando as condições para a redução dos custos por aqui, incluindo mais aportes em infraestrutura”, resume.

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