Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

A agricultura salva novamente a economia brasileira

Depois de avançar 2,3% no ano passado, o PIB deve crescer menos em 2014, embora sem o fantasma da recessão

A indústria avança pouco e o consumo das famílias desacelera

Colheita da safra de cana em Goiás.
Colheita da safra de cana em Goiás. ABr

Se há um setor resiliente no Brasil é o agronegócio. Mais uma vez, a produção agrícola serviu de anteparo para o resultado do Produto Interno Bruto, que no terceiro trimestre recuou 0,5%. No acumulado do ano, o país cresceu 2,3%, com um peso importante da expansão de 7% da agricultura e a recuperação dos investimentos. A atividade no campo garantiu um Produto Interno Bruto (PIB) um pouco maior do que as previsões mais pessimistas. A safra prevista de grãos neste ano é recorde e está estimada em 193 milhões de toneladas, o que pode garantir novamente um “seguro verde” para o resultado do PIB deste ano. Apesar da seca em algumas áreas produtoras no começo deste ano, a analista da Agência Rural, Daniele Siqueira, acredita que, como a área plantada também aumentou, isso não vai prejudicar o PIB da agricultura em 2014.

No último trimestre, a economia voltou a crescer, dissipando os fantasmas sobre um possível processo de recessão técnica, quando há expansão negativa por mais de dois trimestres. A melhora das exportações entre outubro e dezembro garantiu o avanço de 0,7% nesse período. Mesmo assim, qualquer avaliação feita sobre o conjunto da obra não é capaz de reverter o pessimismo dos especialistas. “É um resultado medíocre, muito abaixo do potencial da economia brasileira. Para voltarmos a crescer, ter novo ânimo, precisamos de uma mudança de política, de discurso. E não há nada que diga que algo vá mudar antes das eleições", diz Roberto Gianetti da Fonseca, vice-presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

E em 2014, a expectativa se repete. "As previsões entre 1,8% e 2,5% são as mais otimistas possíveis (para 2014). Não dá para ficarmos satisfeitos. É muito triste para o país, enquanto vemos vizinhos crescendo com taxas de 4%, 5%”, completa. O consumo das famílias subiu 2,3% no ano, configurando o décimo crescimento anual consecutivo. Porém, é o menor desde 2003.

O ministro da Economia, Guido Mantega, atribuiu parte da dificuldade em crescer no ano passado ao mercado externo. “Se não houvesse dificuldades na economia internacional seria diferente”, disse Mantega, durante a apresentação dos resultados. Fonseca discorda. “Que ocorreram fatores internacionais é um fato, mas isso não justifica ou explica o desempenho medíocre. Poderíamos tomar medidas compensatórias para mitigar isso. A produção e a demanda no Brasil não sofreram tanta influência do mercado externo, como acontece em outros países, como o México ou a Malásia, por exemplo".

Um dos setores que vêm amargando um desempenho sofrível é a indústria. No ano passado, avançou 1,26%. Para Vagner Alves, economista da Franklin Templeton, esse é o lado negativo do PIB de 2013. “A recuperação do setor não foi boa, e continuará ruim ao longo de 2014”, avalia.

Fonseca, da Fiesp, vai além. Ele lembra que o país vive um processo de desindustrialização –há indústrias migrando para o Paraguai, por exemplo, atrás de custos mais baixos– pressionado pela competição com as importações, que no ano passado cresceram 8,4%. A indústria depende inclusive da importação de insumos, e a variação cambial também afetou o setor. “Em dez anos, o quociente de importação subiu de 16% para 24% de tudo o que se consome de bens e serviços no país", completa Fonseca.

Para o sócio e economista-chefe do Banco Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, o anúncio do resultado não é um pibão nem um pibinho. “Representa um crescimento médio e mostra também que não conseguimos sair muito desses níveis de 2%”, afirma Goldfajn. “O que vemos é que outros países da região, como Colômbia e Peru, não tiveram quedas em seu crescimento tão grandes quanto a brasileira”, completa. Ele, porém, acredita que não é tão difícil o país diminuir a distância com relação aos vizinhos. Para isso, diz ele, deve entregar os resultados de uma política fiscal mais apertada.

Ele ainda cita como exemplo que gostou do anúncio do Governo de atingir uma meta de 1,9% do PIB para o superávit primário neste ano, com um corte de 44 bilhões de reais do orçamento. “Parece que estão entendendo que vão ter de diminuir os gastos governamentais.” Na avaliação atual do departamento de economia do Itaú Unibanco, o Brasil deve crescer 1,4% em 2014.

Já o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, acredita que o resultado do crescimento de 2013 significa uma recuperação em relação a 2012, mas se deve principalmente aos números positivos do primeiro semestre do ano. Não fossem as manifestações e protestos desencadeados em todo o país, ele acredita, o PIB brasileiro poderia ter sido mais robusto. “Não conseguimos chegar a um crescimento de nem sequer 3% nos últimos três anos. O mercado não está vendo as verdadeiras mudanças fiscais e monetárias que deveriam ser feitas, mas apenas pequenos ajustes”, diz ele. “Há um desgaste enorme na confiança e a perspectiva de Dilma governar até 2018, desgastada como já está, sinaliza um cenário complicado.”