Maduro convoca uma conferência de paz para tentar parar os protestos

A oposição qualifica o ato como sem importância e diz que não irá participar

Protesto contra Maduro nesta terça-feira em Caracas.
Protesto contra Maduro nesta terça-feira em Caracas.JORGE SILVA (REUTERS)

Enquanto o presidente Nicolás Maduro convoca uma conferência nacional pela paz da Venezuela, cresce  no país a incerteza sobre a efetividade dessa iniciativa. Nesta terça-feira a Assembleia Nacional aprovou um acordo respaldando a proposta do governante, que se instalou no Palácio de Miraflores em Caracas. Mas há pouca ou quase nenhuma esperança de que essa proposição possa prosperar e mitigar a atual crise política.

Maduro concebe essa conferência como a oportunidade para que o seu governo e a oposição debatam e elaborem “uma agenda de paz política e social”. É um propósito etéreo só na aparência porque o efeito que ele quer é bem mais concreto: parar os protestos violentos, que já duram quase três semanas na Venezuela, convocando os setores opostos ao regime que não compartilham a tomada das ruas para pressionar uma quebra. “Ninguém pode pretender derrotar violentamente nenhum governo em nosso país", indicou o chefe do Estado na terça-feira ao anunciar a ideia.

Um dos líderes da oposição, o ex candidato presidencial Henrique Capriles, qualificou a conferência como um ato sem importância em entrevista com uma rádio local e anunciou que não participaria, assim como a Mesa de la Unidad, a coalizão de partidos que o respalda. É apenas uma das vozes que assinalam a futilidade destes chamados. O Governo não se mostrou disposto a ceder nos pontos propostos pela oposição para ajudar a mitigar a crise: que se desmonte o controle ferrenho da economia, que acabe a venda do petróleo, especialmente para Cuba, em condições leoninas para o Estado venezuelano e se desarme as brigadas de choque do chavismo.

Esses pedidos foram reiterados ontem durante uma mobilização de mulheres opositoras no Oeste de Caracas. Representam, além disso, uma leve variante no plano de todo ou nada manifestado pela ala dura que tomou a rua desde o começo de fevereiro para pressionar a saída de Maduro, que deixou 14 mortos e dezenas de feridos e presos. Em frente a uma oficial da Guarda Nacional Bolivariana, a deputada María Corina Machado, que encabeçou o protesto junto à esposa do líder opositor Leopoldo López, preso em um presídio da periferia de Caracas assinalado como principal responsável pelas desordens, pediu o fim da intervenção de cidadãos estrangeiros na manipulação de assuntos estratégicos venezuelanos. “Só então poderemos falar de paz”, disse.

O chavismo assume sua precária maioria -que nas eleições presidenciais de abril foi de apenas 1,49%- como um mandato para avançar a qualquer custo na instauração de um modelo de inspiração cubana que coloca obstáculos ao desenvolvimento da iniciativa privada e afaste os investimentos. Até agora o diálogo para eles se reduz ao intercâmbio de opiniões sobre assuntos administrativos. Um maior orçamento para executar obras em regiões opositoras ou melhorar a dotação de seus policiais. O mais destacado das últimas semanas nesse aspecto é a elaboração de um plano de segurança nacional, que divide as comunidades com o objetivo declarado de responder melhor aos ataques da delinquência. Pela primeira vez em muitos anos trabalharam em um mesmo objetivo o ministro do Interior, Justiça e Paz Miguel Rodríguez Torres e vários prefeitos da oposição.

Não é a primeira vez que Maduro convida seus adversários para conversar. Seu breve mandato recorre a essa estratégia a cada vez que se sente sob pressão. Fez isso em abril, quando era muito questionado pela apertada vitória obtida sobre Capriles e o faz agora, quando os protestos que exigem sua saída se espalharam por boa parte do país e por todos os estratos sociais. Há no gesto um recuo tático forçado pelas circunstâncias das últimas semanas. Em dezembro, o governo só estava disposto a conversar sobre a base do último plano de governo escrito por Hugo Chávez, às vésperas de sua morte. Hoje tudo é diferente.

Ao aparente passo para trás do chavismo soma-se a mobilização de seus simpatizantes em todos os setores. Na terça-feira os motoqueiros se reuniram com Maduro. Ontem os camponeses de todo o país que apoiam a autoproclamada revolução bolivariana caminharam até o palácio de Governo em um sinal de rejeição à violência dos últimos dias. Enquanto isso, no leste de Caracas as ruas estavam um pouco mais vazias que no início da semana, embora permanecessem os escombros e o lixo jogado na calçada. Os venezuelanos seguem na rua.