O vento vira para o Atlético

O conjunto vermelho e branco é reprovado em Almería na primeira ocasião em que defendia a liderança

Azeez tenta roubar a bola de Diego.
Azeez tenta roubar a bola de Diego.Jorge Guerrero / AFP

Contra o vento, contra a ausência de Courtois, com dores lombares, contra outra lesão preocupante de Tiago, contra um ambiente de mal estar pela derrota no dérbi contra o Real Madrid na Copa do Rei, o Atlético não conseguiu defender a liderança em Almería. Sofreu sua segunda derrota do campeonato e permitiu que o Real o ultrapassasse no topo da tabela, empatados em pontos. Na primeira vez em que jogava como primeira colocada, a equipe de Simeone foi reprovada. Havia dominado o confronto só até a entrada da área dos mandantes, sem gerar oportunidades, e sofreu dois gols no final. Ambos com os holofotes sobre Aranzubía, que voltava ao campo onde, na temporada de 2010/11, se tornou o primeiro goleiro na história da Liga a marcar um gol de cabeça. Mas o ar histórico daquela ocasião não teve nada a ver com o jeito como ele deixou o campo ontem à noite, pelos dois gols que levou. No primeiro, não mediu bem um centro longo, após escanteio batido curto, que Verza aproveitou para encobrir o riojano. A bola foi caindo até entrar junto à trave, em uma parábola que ele não calculou bem. O segundo gol chegou depois de uma confusão que ele aprontou diante da pressão do Jonathan, o que o levou a perder a bola e derrubar o atacante nigeriano. A expulsão, depois de Simeone já ter feito suas três substituições, levou Gabi para o gol, com a missão de tentar conter a cobrança de Verza da marca do pênalti. O capitão alvirrubro foi enganado, e selou-se uma derrota pouco esperada. Quem se consagrou com esses dois tentos foi Verza, uma antiga promessa da fábrica do Villarreal nos tempos de Benito Floro. Talvez no primeiro deles tenha sido ajudado pelo ar, tão presente em toda a partida.

ALMERÍA 2 x 0 ATLÉTICO

Almería: Esteban; Rafita, Trujillo, Torsiglieri, Dubarbier; Azeez, Verza; Aleix Vidal, Soriano (Hélder Barbosa, min. 57), Suso (Coroa, min. 88); e Jonathan Zongo (Oscar Díaz, min. 92). Não utilizados: Julián; M. Silva, H. Martínez e Tébar.

Atlético: Aranzubía; Manquillo, Godín, Miranda, Juanfran; Tiago (Mario Suárez, min. 66), Gabi; Raúl García (Adrián, min. 76), Diego (Sosa, min. 67), Arda Turan; e Diego Costa. Não utilizados: Bono, Insúa, Alderweireld e Cebolla Rodríguez.

Gols: 1 x 0, min. 79, Verza; 2 x 0, min. 85, Verza.

Árbitro: Teixeira Vitienes. Deu cartão vermelho direto para Aranzubía (min. 84) e advertiu Soriano, Dubarbier, Diego e Raúl García.

10.958 espectadores no Estádio dos Jogos Mediterrâneos.

Quando o vento do oeste sopra com força, o estádio dos Jogos Mediterrâneos, ancorado nos subúrbios de Almería, se transforma em um recinto traiçoeiro. Uma panela aberta, onde o ar governa as trajetórias da bola. De todas as incidências meteorológicas que possam interferir num jogo, essa é a mais imprevisível. Trata-se do futebol eólico, por assim dizer, que obriga os jogadores a pensarem e a se educarem, em pleno jogo, quanto às sensibilidades no jeito de bater na bola com os pés ou a cabeça. Não há quem se livre de precisar jogar com a intuição.

O Atlético jogou no primeiro tempo com o vento contra, e assim desestabilizou o Almería. O normal é pensar que foi Gabi quem ganhou no cara o coroa e decidiu jogar a segunda etapa com o ar a favor. Com as sacolas de plástico formando redemoinhos junto ao gramado, o Atlético teve de domar de início as rajadas de ar contra si, tentando assim desmontar o outro rival fornecido pela bola e pelo campo. Parece que esse será o senão do Atlético na maioria de campos que visite e onde sua superioridade seja patente. Poucos atualmente se dispõem a enfrentá-lo, a se abrirem, como já observou Simeone, e muitos também tentam copiar do Atlético a reiteração de faltas táticas para interromper o ritmo de jogo do rival. De alguma forma, estão aplicando ao líder seu principal libreto, e agora cabe ao treinador encontrar um antídoto. Todo um paradoxo propiciado pelo fato de estar metido nesta Liga dos 100 pontos.

Francisco havia anunciado que sua equipe estava preparada para as duas versões que o Atlético pode ter agora, com Diego Ribas, ou seja, com mais ou menos posse de bola, mais direto ou com um ataque mais elaborado. Essa concessão do terreno e da bola fez com que os visitantes precisassem jogar para serem os dominadores, para terem a posse. Uma equipe com Tiago, Gabi, Arda e Diego convida a jogar por dentro e a abrir o campo. Aí o Atlético teve um problema. Juanfran jogou como lateral esquerdo, no que parece uma mensagem definitiva para Insúa, e para Manquillo à direita. Seus companheiros os viram pouco, pois às vezes estavam empenhados demais em jogar pelo meio. Nas poucas vezes em que se desprenderam no primeiro tempo, tanto Juanfran como Manquillo deixaram entrever que havia uma partida a vencer nos flancos da defesa do Almería. Foi Manquillo quem gerou a primeira chance ao encontrar Diego desmarcado na entrada da área. O jogador, egresso das categorias de base, fez um cruzamento em suave cobertura na saída do Esteban, mas Diego Costa não chegou a tempo para o arremate.

Courtois foi um desfalque, Tiago se machucou, Aranzubía foi expulso e Gabi acabou como goleiro

Essa falta de pegada foi a tônica geral da partida. O Atlético morreu em muitas ocasiões na entrada da área do Almería, bem protegida por trás da força física de Azeez e do posicionamento de Verza. Os dois armadores fizeram um tremendo esforço. Também os zagueiros locais contribuíram para tornar espesso o ataque de seu rival. Trujillo e Torsiglieri minaram Diego Costa até esgotá-lo.

Esteban não precisou intervir em toda a partida, exceto em uma cobrança de falta batida por Sosa. O maior perigo que ele enfrentou foi num chute cruzado do Diego, que passou raspando. O Atlético não conseguiu levar risco verdadeiro ao Almería, que cresceu com um contra-ataque que já prenunciava o que viria depois. A essa altura Tiago já havia se machucado, dando lugar a Mario, que escorregou e deixou o campo livre para que Aleix Vidal apresentasse uma fabulosa arrancada diante de Aranzubía. Seu arremate bateu na base da trave esquerda, foi para a direita e saiu com força para fora. Parecia que Aranzubía fazia mágica nesse campo, que o vento lhe era favorável. Mas o futebol é tão volúvel quanto o ar, como demonstraram essas duas jogadas que acabaram com uma liderança efêmera.

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