64º Festival de cinema de Berlim

Clooney, rei de Berlim

O cineasta apresenta ‘Caçadores de obras-primas’ no festival e demonstra seu talento para driblar os encontros com a imprensa

George Clooney durante a apresentação de seu filme, em Berlim.
George Clooney durante a apresentação de seu filme, em Berlim.DANIEL NAUPOLD (EFE)

Procurava uma boa história e encontrou uma para fazer um filme ao estilo The dirty dozen, uma de aventuras bélicas com um pouco de qualidade. “Na verdade não queríamos o tema bélico, apenas uma boa trama”, disse George Clooney hoje. E a conseguiu graças a The monuments men, um dos livros mais fascinantes dos últimos anos, obra de Robert M. Edsel, que em suas primeiras páginas começa assim: “Nos meses seguintes ao dia D, na Normandia, havia sobre o terreno menos de uma dúzia dos homens de monumentos. Outros 25 se somaram a eles gradualmente até o cesse das hostilidades; sobre seus ombros, a sufocante responsabilidade de limpar todo o norte da Europa [em busca de obras de arte roubadas pelos nazistas]. Uma tarefa claramente impossível”.

The monuments men (Caçadores de obras-primas, título em português) é a história de como uma brigada de colecionadores de arte, diretores de museu, arquitetos, escultores e especialistas em patrimônio cultural europeu – participaram mais de 350 de 13 países na seção MFAA (siglas em inglês de Monumentos, Belas Artes e Arquivos)- se jogou pela Europa para recuperar e salvar cinco milhões de obras de arte roubadas e escondidas pelo Terceiro Reich. Foi uma corrida contra o tempo, porque os nazistas começaram a queimar algumas delas em sua fuga, principalmente quadros de arte moderna de artistas como Picasso, porque os soviéticos avançavam desde o leste em busca das mesmas peças, embora não com a mesma intenção de devolvê-las a seus donos originais.

Clooney é hoje o rei de Berlim como diretor, produtor e protagonista do filme do dia. Acompanhado dos atores Matt Damon, Bill Murray, Jean Dujardin, John Goodman, Bob Baliam, Hugh Bonneville, Dimitri Leonidas, Justus von Dohnányi e de seu colega de aventuras na produção e escrita do roteiro, Grant Heslov –ex-ator que no filme faz uma pequena ponta, igual que Nick, o pai de George Clooney, e o compositor Alexandre Desplat. Depois de passar pelos fotógrafos com toda a equipe dançando conga, o cineasta respondeu com seu humor habitual às perguntas da imprensa, em um encontro que começou com atraso por um jornalista polonês que teve um princípio de infarto. “Grant leu o livro há três anos e pensamos que queríamos fazer uma história sem cinismos, sem o cinismo que faz sucesso atualmente, e sim sobre a arte”.

Quando George Clooney aparece em uma coletiva de imprensa, as perguntas automaticamente se banalizan e até alguma jornalista lhe declara seu amor- neste Berlinale a honra foi de uma mexicana. Em qualquer caso, o cineasta sabe dominar o ritmo em seus aparecimentos, e mais se leva como escudeiros Bill Murray e John Goodman. Por exemplo, quando lhe perguntaram pelos problemas de ser famoso, o ator assegurou que o pior “são estes colegas”, e Goodman acrescentou: “Não, o pior é contar o dinheiro”. São elogiados pelo sexy que são como elenco, sobre se se sentem homens monumento eles mesmos, e a questão é respondida com algumas risadas de Clooney. Se alguém faz uma pergunta torcida sobre a música que em um momento dado se ouve no filme, o diretor pede ao elenco que assobie a melodia principal composta por Desplat para seu longa-metragem. Se abordam o tema dos 1.500 quadros encontrados em Munique nas mãos de um idoso, Cornelius Gurlitt, em outubro, que procediam do saqueio nazista, algo que parece uma publicidade para seu filme, Clooney sai pela tangente assegurando que lhe pareceu “uma história assombrosa”.

E assim sucessivamente. Um jornalista belga perguntou por que não rodava em seu país [Clooney: “Porque é complicado transladar de um lado a outro uma produção assim, e filmamos na Alemanha”; Heslov: “Porque as isenções fiscais são melhores na Alemanha”]. Outra francesa pergunta pela secretária real, a personagem de Cate Blanchett [Damon: “Foi uma mulher incrível que se arriscou anotando todos os movimentos das obras. Foi muito valente e trabalhou em segredo, arriscando sua vida”]. Outro recordou Matt Damon sobre declarações feitas aqui mesmo no ano passado, que Hollywood em realidade se movia por dinheiro, e se continuava pensando igual. Goodman começou a gesticular furiosamente, gritando “Não, como?”, e chorando pela descoberta: “A indústria do cinema está manipulada pelo dinheiro! Não!”. Pois sim, e Clooney comentou que recrutou sua equipe falando com cada um individualmente, “lhes explicando a importância de fazer este filme… e pedindo que reduzissem o salário”.

Durante a conversa somente houve dois momentos de seriedade. O primeiro, quando indicou que a graça de The monuments men é que “conta as aventuras de um grupo de gente que faz algo pela primeira vez na história dos conflitos bélicos, isto é, lutar pela arte”. Verdadeiro, porque The monuments men muda os nomes de seus protagonistas, funde alguns dos autênticos heróis, mas mantém bastante a coerência histórica, embora não com meticulosidade - depois da experiência de Boa noite, boa sorte, acabou cansado. E respeita os autênticos heróis como, por exemplo, os trabalhadores da mina de sal de Altaussee, onde em maio de 1945 os monuments men encontraram 7.000 obras de arte de Rubens, Michelangelo, Tintoretto, Rembrandt, Vermeer, Leonardo da Vinci e Goya. Os especialistas as resgataram, embora, como conta o filme, a mina foi fechada pelos habitantes do povoado para que os nazistas não levassem o tesouro. Clooney não adoça.

E o segundo momento veio com os diversos envolvimentos de Clooney em questões políticas e sociais, uma motivação que nos últimos meses lhe levou a realizar numerosas mensagens de apoio a Yulia Timoshenko, ex primeira-ministra da Ucrânia, atualmente presa. “Sim, tem todo meu apoio, e sei que as revoltas [em Kiev] ocorrem em tempos difíceis. Mas é nesses momentos que devemos apoiar aquilo que acreditamos ser importante”. E foram embora, dançando conga a outro lugar.

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