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Com reforma ministerial, PT tenta avançar em território dos opositores

Ministros de saída do Governo vão disputar eleições estaduais em Estados onde a oposição é mais forte. Novas substituições podem ser feitas com nomes do Nordeste

A ex-ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e a presidente Dilma Rousseff
A ex-ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e a presidente Dilma RousseffRoberto Stuckert/PR

Onze meses, ou 4 anos e 11 meses. O prazo de validade dos novos ministros, que tomam posse a partir desta semana, está ao sabor dos ventos da corrida eleitorial deste ano no Brasil, que promete ser a mais surpreendente da história, segundo a cientista política Fátima Pacheco Jordão. “A sociedade civil está mais atenta do que nunca”, afirma ela. Assim, até mesmo a atuação dos novos ministros já está no radar do eleitor, o que os transforma em peças chaves no tabuleiro da eleição.

Até o momento, Aloizio Mercadante foi confirmado na Casa Civil, Arthur Chioro, na Saúde, José Henrique Paim, na Educação, e Thomas Traumann, na Secretaria de Comunicação. Todos devem manter os programas em vigência de seus antecessores. Já Traumann, apontam os especialistas, deve trabalhar para afinar ainda mais a comunicação da presidenta Dilma Rousseff com a mídia e mantê-la nas redes sociais, canal permanente da juventude, que pode fazer a diferença nas eleições deste ano.

A troca de ministros é motivada pelas pretensões eleitorais dos que estão deixando o cargo. Mas, pelo menos três mudanças têm peso estratégico para o Partido dos Trabalhadores (PT). Alexandre Padilha, que deixa o ministerio agora, e Fernando Pimentel, atual titular do ministério do Desenvolvimento, que deve sair num segundo momento, tentarão ocupar a vaga de governador em dois dos estados mais importantes do País. Padilha, que deixa a Saúde, vai concorrer ao governo de São Paulo, o mais importante parque eleitoral, com mais de 30 milhões de eleitores – são 140 milhões no total – e onde o PSDB tem a hegemonia há duas décadas. Já Pimentel concorrerá por Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral.

A disputa no Estado mineiro é fundamental, uma vez que o principal concorrente da presidenta Dilma Rousseff, Aécio Neves, foi governador do Estado duas vezes consecutivas, e ainda elegeu seu sucessor, Antonio Anastasia, atual governador. Na eleição passada, em 2010, o PT não teve candidato em Minas, apoiando Helio Costa, do PMDB, partido da base aliada de Rousseff. O mesmo vale para o Paraná, outro Estado onde o PT não teve candidato próprio em 2010, e que agora vai tentar a sorte com Gleisi Hoffmann, ministra que acaba de sair da Casa Civil, para tirar outro tucano do páreo, Beto Richa, atual governador.

As chances de Pimentel assumir a dianteira na corrida mineira são reduzidas, afirmam especialistas, pelo peso de Neves no Estado. Porém, ele fará um papel importante de cabo eleitoral para a reeleição da presidenta, que está diante da que pode ser a disputa mais apertada para o PT. O Governo enfrenta o desgaste natural de quem faz o papel de vidraça há 12 anos. Por isso, preencher todas as lacunas é prioridade.

Desta forma, já é dado como certo que a substituição de ao menos outros quatro ministros, que estão prestes a sair, pode beneficiar representantes dos partidos aliados do Nordeste, onde Eduardo Campos, atual governador de Pernambuco, e virtual candidato à vaga no Palácio do Planalto pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), teria mais chances de conquistar o eleitorado. O presidente do PT, Rui Falcão, também está trabalhando para fortalecer as articulações pelo Nordeste. Desde o dia 16 janeiro, tem viajado para estados nordestinos para fechar alianças estaduais.

Mas, assim como Fernando Henrique não conseguiu eleger seu sucessor depois de oito anos de PSDB no poder, o movimento pendular, que costuma acompanhar o eleitor, joga contra o PT e indica que os brasileiros tendem a buscar alternativas aos governantes atuais. “O conceito de continuidade está relativizado neste ano”, diz Pacheco Jordão, lembrando que em 2010 as pesquisas prévias sobre o eleitorado revelavam mais um desejo de extensão do modelo vigente, do que a mudança, como acontece neste ano.

“Pelo histórico da eleição, a preferência pelo PT vem caindo e isso abre chances de uma vitória da oposição”, observa. De fato, em 2002 Lula ganhou com o apoio de 61% do eleitorado, contra 38% do candidato de José Serra, também do PSDB. Em 2006, ele se reelegeu com o apoio de 46,6% dos eleitores, e seu opositor tucano, Geraldo Alckmin, teve 39,9% dos votos. Rousseff, por sua vez, venceu em 2010 com apenas 12 pontos de diferença de José Serra, que tentava novamente ser presidente do Brasil.

Por isso, cada movimento nesta etapa da partida eleitoral está sendo minuciosamente estudada pelos candidatos. O PT, tentando preservar o favoritismo que ainda o premia nas pesquisas, e Neves e Campos tentando furar o bloqueio petista.

A prioridade no momento é acertar as equipes para coordenar as campanhas, fechar acordos com outros partidos para assegurar mais tempo de propaganda eleitoral na TV, e fechar acordos nos Estados. Aécio, por exemplo, tem se consultado com velhos integrantes do ministério do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Um deles, o embaixador Rubens Barbosa, foi convidado para ajudar a montar o seu programa de Governo. O senador tucano intensificou, também, as viagens pelo país, em busca de novas alianças estaduais. Já Eduardo Campos apresenta nesta semana as diretrizes do programa de governo da aliança com o partido Rede, da ex-ministra Marina Silva, que pode ser confirmada como a vice na chapa desta coalizão.

Dos três candidatos, porém, ainda é Rousseff quem detém as melhores cartas no jogo eleitoral, e a troca de ministros se transforma em um instrumento de barganha política. “Ela ainda goza de um favoritismo que faz diferença”, observa o cientista político Flavio Wanderley. Há, ainda, o fator Lula, o ex presidente que elegeu Rousseff, e que fará as vezes de garoto propaganda para a reeleição da presidenta. Natural de Garanhuns, no estado de Pernambuco, o ex-presidente fará do seu Estado uma arena de disputa palmo a palmo com Campos.

Seja como for, o cenário das eleições deste ano depende sim dos conchavos partidários, e do tempo de propaganda na televisão, mas não só. O eleitor de 2014 é muito mais crítico que o de 2010, e perdeu a ingenuidade em relação aos partidos, o que vai exigir programas mais consistentes por parte dos candidatos à vaga  para o Palácio do Planalto. “O eleitor brasileiro mudou muito fortemente”, explica Pacheco Jordão. “Ele não é mais o perfil consumidor de 2010, que estava feliz com a expansão do crédito para comprar de tudo. Hoje ele está mais contribuinte, que paga impostos, e exige os serviços públicos de volta”, avisa.

A expansão do crédito e a formalização do emprego cresceram durante os governos do PT, assim como a consciência política. “Depois das manifestações de junho do ano passado, os brasileiros se sentem autorizados a protestar”, observa Jordão. Prova disso são as diversas manifestações vistas nas grandes cidades, incluindo queima de ônibus e até os rolezinhos. Tudo isso torna a tarefa mais árdua para os candidatos que têm pela frente uma das eleições “mais realistas que o país já teve”, conclui a cientista política.

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