PREVISÕES ECONÔMICAS

O FMI reduz ligeiramente previsão de crescimento para a América Latina

O Fundo diminui em 0,1 ponto porcentual a projeção para 2014, que agora calcula em 3% para o conjunto da região. Brasil deve crescer menos que o previsto anteriormente

O crescimento se acelerará na América Latina durante os próximos dois anos, embora não tanto como se esperava. O Fundo Monetário Internacional reviu para baixo a expansão para 2014, que agora calcula em 3% para o conjunto da região - um décimo abaixo da previsão anterior - frente à expansão de 2,6% do ano passado. O Fundo prevê uma expansão de 3,3% para o próximo ano. O Fundo reviu para baixo a projeção para a economia no Brasil e manteve a do México.

O ajuste contrasta com uma ligeira revisão de um décimo para cima para a economia global, que agora, prevê o FMI, crescerá ao 3,7% neste ano e 3,9% em 2015. Isto quer dizer que a região latino-americana crescerá  abaixo da média. No caso do conjunto dos países emergentes e das economias em desenvolvimento, mantém-se  a expectativa de 5,1% para 2014 e eleva-se a 5,4% para o ano próximo.

Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, assinala que durante os próximos dois anos haverá um maior deslocamento do crescimento das economias emergentes para as avançadas. Uma melhor renda dos países industrializados, explicou, beneficiará a América Latina pelo lado do comércio exterior. Mas. assinala que  a debilidade no preço das matérias-primas vai neutralizar esse efeito.

É o caso do Brasil. O FMI antecipa agora que crescerá um 2,3% neste ano, ao mesmo ritmo que o passado. Isso representa um corte de 0,2 pontos porcentuais no crescimento. Para 2015, haveria um repique para os 2,8%, mas neste caso é 0,4 ponto porcentual menos do que havia sido antecipado em outubro pela instituição. México, outro país analisado, avança  para um crescimento mais normal, a uma taxa de 3% e 3,5%.

Ainda falta avaliar como afetará a região a volta da normalidade monetária. Como assinalou Thomas Helbling, tanto o Brasil como o México se beneficiam da recuperação no crescimento dos EUA. O FMI aponta um ritmo de expansão americana melhor, de 0,2 pontos porcentuais acima, fechando 2014 com um crescimento de 2,8%, saindo de 1,9% em 2013. Para o próximo exercício subiria ao 3%, mas neste caso supõe um revisão para baixo de 0,4 pontos porcentual.

Blanchard não acredita que o início da retirada de estímulos por parte do Federal Reserve esteja tendo um efeito nas economias da América Latina. Ele considera que o plano traçado pelo banco central dos EUA é razoável e não acredita que a instituição se veja forçada a  a abandonar mais cedo que o previsto a injeção de liquidez na economia pela via da compra de bônus.

O que não está muito claro  para o FMI é que o Fed disponha de instrumentos para fazer frente aos efeitos não desejados dessa massa de estímulos, no caso de as taxas de juro se manterem tão baixas por tanto tempo. Mas Blanchard alertou para o fato de a recuperação nas nações mais desenvolvidas poder ser afetada pela deflação, fruto do crescimentor abaixo de seu potencial.

Empurrão espanhol

A Espanha recebeu nesta terça-feira, 21 de janeiro, um pequeno apoio do FMI, que melhorou as perspectivas econômicas dos países da zona euro. O órgão, que acaba de publicar a atualização de seus prognósticos mundiais, calcula um crescimento de 0,6% do PIB para este ano, o que supõe 0,4 pontos porcentuais acima do o que calculou no último mês de outubro (0,2%), depois de uma recessão estimada em 1,3% em 2013. Só a revisão do Reino Unido, de seis décimos, ficou acima, enquanto a do Japão, de 0,4 ponto porcentual, empatou.

"Levantaram-se as travas à recuperação e o lastro da consolidação fiscal está se dissolvendo", resume o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, em uma coletiva de imprensa convocada para apresentar o relatório. Ele também advertiu de que o sul da Europa continua sendo a região "mais preocupante" e alertou que a recuperação continua sendo débil.

O FMI foi até agora o organismo oficial mais pessimista com a economia espanhola. A atividade dos últimos meses de 2013 animou muitas mudanças de perspectiva e, ainda que o cálculo oficial do Governo espanhol se mantenha em 0,7%, o Executivo espera que o PIB cresça 1%. É uma taxa alinhada com o consenso dos analistas, que situam o avanço deste ano em 0,9%.

Mas é difícil comemorar: o crescimento da Espanha, assim como refletem as cifras do FMI, continua no nível mais baixo dentre as grandes potências que tiveram suas expectativas atualizadas pelo Fundo. Só a Itália, que piorou uma décima desde outubro, fica com uma previsão de avanço do PIB tão modesta (0,6%), enquanto a segunda mais baixa, França, se situa em 0,9%. E olhando para 2015, a imagem piora: o crescimento que o Fundo calcula para a Espanha segue abaixo de 1%, em 0,8%, embora melhore em três décimos com relação ao que era previsto no relatório de outubro.

Zona do euro

A taxa de desemprego, de cerca de 25%, também torna impossível falar em uma saída da crise e as expectativas para a zona do euro seguem baixas. Para a economia dos países do euro, o FMI melhorou as previsões em um décimo, até calcular um puxão do PIB de 1% em 2014 e de 1,4% em 2015. “A zona do euro está virando a esquina da recessão para a recuperação”, assinala o organismo internacional em um comunicado, enquanto “a recuperação será mais moderada nos países que atravessaram problemas financeiros (Grécia, Espanha, Chipre, Itália e Portugal)”. Nestas regiões, e Espanha é um claro exemplo disso, o Fundo adverte que “enquanto as exportações impulsionarão o crescimento, o endividamento público e privado e a fragmentação financeira diminuirão a demanda”.

Embora a diretora gerente do FMI, Christine Lagarde, tenha transmitido uma otimista mensagem há alguns dias em Washington ao assegurar que agora começavam sete anos de vacas gordas, depois dos sete anos de vacas magras sofridos, as advertências que lança agora o Fundo deixam claro que a fragilidade dos indicadores globais seguem inquietando. A previsão para os EUA para 2014 melhora em dois décimos em relação ao estimado em outubro (um avanço de 2,8%), mas piora em quatro para 2015 (até 3%).

Os riscos persistem

As potências emergentes da América Latina também acordam desconfiadas. A região viu minguar suas previsões de 3,1% a 3% para 2014 e de 3,3% a 3% para 2015. Os riscos de base persistem, reconhece o FMI, que alerta para que não se “desvalorize a necessidade de um crescimento forte”. Por isso pede que não se levante muito rapidamente o pé do acelerador dos estímulos. "As economias avançadas —incluindo os EUA— não devem responder a esta previsão de melhoria com retiradas prematuras das políticas de estímulos”, aponta o documento de hoje. De fato, esta parece a estratégia adequada dado que a inflação segue baixa e a consolidação fiscal segue em marcha.