A visita de Vargas Llosa a Bolívia desperta suspeita em Evo Morales

O presidente boliviano acha que o Nobel de Literatura viaja ao país sul-americano sob instruções de um ex-ministro do deposto presidente Gonzalo Sánchez de Lozada

O presidente da Bolívia, Evo Morales, ao lado do vice-presidente, Álvaro García.
O presidente da Bolívia, Evo Morales, ao lado do vice-presidente, Álvaro García. (EFE)

A anunciada visita do prêmio Nobel Mario Vargas Llosa a Santa Cruz e às missões jesuíticas no oriente boliviano, entre os dias 22 e 28 de janeiro, tem despertado suspeitas no presidente Evo Morales, segundo deixou transparecer no encerramento  do congresso dos trabalhadores petroleiros, no distrito de Camiri.

“Tenho informação de que nestes dias chegará o Vargas Llosa, como sempre para falar mal do Evo, do governo, contra nós, contra a Bolívia”, afirmou Morales diante dos petroleiros.

Embora reconheça que o escritor tem direito a visitar o país, Morales acha que Vargas Llosa “vem convocado ou instruído por (Carlos) Sánchez Berzaín”, em alusão ao ex-ministro do deposto presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro de 2003, refugiado nos Estados Unidos.

O escritor peruano foi convidado pela Fundação Nova Democracia para visitar a cidade de Santa Cruz e percorrer a região de Chiquitos, onde se conserva não somente as igrejas construídas pelos jesuítas entre 1691 e 1760, mas também a arte mantida pelos indígenas, como o talhado em madeira, a construção de instrumentos musicais de corda -especialmente violinos-- dos que são virtuosos intérpretes, além de ter conservado partituras de música barroca.

O presidente da fundação anfitriã, o ex-senador Oscar Ortiz, confirmou ao jornal El Deber de Santa Cruz a chegada do escritor, de sua mulher e de um grupo de quatro amigos. Na quinta-feira, dia 23, será recebido pelo governador Rubén Costas e à noite vai dar uma palestra sobre “a liberdade como base do progresso”, segundo a agenda preparada que inclui o percurso pelas missões jesuíticas.

A chegada de Vargas Llosa, no dia 22, coincide com o aniversário da chegada ao poder do presidente Morales e a data em que vai dar um relatório aos bolivianos sobre o gerenciamento de 2013.

A agência oficial de informações coletou as declarações do presidente aos trabalhadores petroleiros, no domingo, quando questionado sobre o conteúdo de um livro que Sánchez Berzaín apresentou em novembro nos Estados Unidos, no que, segundo a versão oficial, exibe “uma agressiva campanha de desprestigio às políticas sociais” que o governo aplica desde 2006 e propõe ainda cinco eixos para atacar sua administração, entre eles, acusa Morales de ditador e pede para que toda a direita boliviana participe de maneira unificada nas eleições gerais de 2014.

O presidente Morales almeja conseguir um terceiro mandato nas eleições com uma maioritária percentagem de votos nas urnas.

Segundo o presidente boliviano, outra das propostas do ex-ministro é a de promover o isolamento internacional de Evo Morales. Para tranquilizar seu auditório, disse que “a Bolívia mantém excelentes relações com as personagens mais influentes do mundo” e citou como exemplo o presidente de Rússia, Vladmir Putin “que tem muita influência no mundo; com seu governo temos excelentes relacionamentos”.

“Evidentemente não temos relacionamentos com os Estados Unidos”, reconheceu Morales ao considerar ao presidente Barack Obama como outro governante muito influente. “Não nos interessa porque daí vem as políticas de saque, intervenções, bases militares e não nos interessa ter bons relacionamentos com o governo dos Estados Unidos, mas sim temos bons relacionamentos com o povo norte-americano”.

Em troca, garante que as relações com o presidente da China, Xi Jinping, são excelentes. “Estivemos mais de três horas, conversando das relações bilaterais, cooperação, investimentos, até comentamos de nossos partidos, as metas que tem China, até 2049, e as nossas até o 2025”.

De acordo com uma pesquisa internacional sobre as figuras mais influentes, citada por Morales, “o quarto com influência era o Papa Francisco. Nos reunimos e ele sabe sobre o tema do mar”. Relatou aos petroleiros que o Papa lhe sugeriu que enviasse maior documentação sobre a demanda boliviana de uma saída ao mar proposta ao Chile.

“Em outras palavras, todo seu apoio da Igreja Católica, após conversar longamente”, afirmou Morales, que ao final do congresso petroleiro foi proclamado candidato presidencial, junto ao vice-presidente Álvaro García Linera.

O Tribunal Supremo Eleitoral resolveu, na passada semana, punir os partidos, servidores públicos e todos aqueles que façam propaganda política antes da convocação oficial das eleições.

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