O capricho de Bruce Springsteen

O roqueiro de Nova Jersey reúne versões de canções alheias e faixas esquecidas do seu próprio repertório em seu novo disco, ‘High Hopes’

Bruce Springsteen durante um show no Chile, em setembro de 2013.
Bruce Springsteen durante um show no Chile, em setembro de 2013.FRANCESCO DEGASPERI (AFP)

Em 1988, Bruce Springsteen saiu em turnê com a Anistia Internacional, empunhando a bandeira dos “direitos humanos já”. Foi uma jogada pensada, que o situou na esquerda liberal, depois de rechaçar as melosas tentações de Reagan. Não menos importante, isso também lhe permitiu se distanciar de desgostos domésticos: sua esposa, Julianne Phillips, estava a ponto de pedir o divórcio.

Nem tudo foi política durante o percurso: Bruce precisou aguentar as recomendações condescendentes de alguns colegas britânicos. Sting e Peter Gabriel o tratavam praticamente como um bom selvagem, que precisava se atualizar – “e já!” – a respeito da tecnologia digital. Ele parecia impermeável à tempestade. Entretanto, anos depois, no seu ritmo, aproximou-se das novas técnicas de gravação e elaboração de músicas.

Assim, desde 2007, quando colaborou no terceiro disco da sua atual esposa, Patti Scialfa, Springsteen conta com os serviços de um produtor moderno, Ron Aniello. E isso se nota bem naquele que será seu 18º álbum, High Hopes (Sony). Nele se encontram programações, um solista afundado na mixagem até que passa para o primeiro plano, manipulações no timbre de diferentes instrumentos, efeitos, truques de estúdio...

Nos anos 70 e 80, sob a influência do manager e ideólogo Jon Landau, Springsteen parecia empenhado em construir o equivalente sonoro do grande romance americano, das cúpulas do cinema de Hollywood. Cabe suspeitar que Bruce já não pretenda ser o Steinbeck ou o John Ford do rock. Escutar High Hopes sugere objetivos mais modestos: boa parte das suas canções se encaixaria perfeitamente no clímax de alguma série da HBO.

Quer dizer, classicismo essencial, rock de raízes com produção de alta categoria. O artista ambicioso que pensa em termos de gravações panorâmicas. A exuberância americana manifestada também em exibições de guitarra. Tocada em oito faixas, por – atenção –Tom Morello, do Rage Against the Machine, que substituiu o guitarrista titular, Steve Van Zandt, comprometido – dá para imaginar? – com a gravação de uma série de TV. Esta já não é a Turma dos Sós Contra O Mundo.

De alguma forma, ele parece também ter dessacralizado o processo de elaboração de um disco. Muitas das faixas foram registradas ou concluídas entre shows, inclusive em estúdios australianos. Há improvisação e brincadeiras: Down in the Hole contém coros dos três filhos de Bruce e Patti. Conforme explica Aniello, foram realizados prodígios logísticos: embora estivesse em outro continente, o produtor acompanhava a gravação pela internet. Em lembrança aos caídos, resgatam-se sessões das quais participaram Clarence Clemons e Danny Federici, antigos pilares da E Street Band.

Aniello mandava pré-mixagens a Springsteen durante as turnês. E houve sobressaltos: Bruce se horrorizou com faixas carregadas demais nos graves. O produtor descobriu que ele estava checando o material com o Beats, os famosos (e caros!) fones de Dr. Dre, que potencializam os baixos; um de seus assistentes voou até Milão para que o cantor o escutasse com um reprodutor mais neutro.

Em declarações à Rolling Stone, tanto Morello como Aniello são muito cautelosos quando se caracteriza High Hopes como uma barafunda onde cabem versões, novos takes de canções já lançadas e temas previamente desprezados. Não são descartes, afirmam – tratam-se de peças estacionadas por não se encaixarem no perfil de lançamentos como The Rising e Wrecking Ball.

Com seus alardes de testosterona vocal e instrumental, High Hopes não vai ganhar novos fãs entre os que conhecem essencialmente Springsteen como uma atração de estádios, objeto de uma insólita veneração. Mas o ouvinte sem preconceitos encontrará um artista liberto da obrigação de seguir um relato, nas letras ou no som. Infiltram-se ares de folk irlandês, trompetes pop, ecos gospel.

Certamente, Bruce não ganha muito retomando a incômoda American Skin (41 Shots), uma crítica ao gatilho fácil dos policiais nova-iorquinos, que sofreu oposição de órgãos corporativos que até então consideravam Springsteen como “um dos nossos”. A canção faz parte de seu trabalho cívico contra as armas de fogo: se em 2000 ele denunciava o caso de Amadou Diallo, um vendedor ambulante crivado de balas por fazer “um movimento suspeito”, agora ele rememora Trayvon Martin, um menino negro assassinado na Flórida por um vigia amador.

Não procura acumular pontos como hipster com suas versões. O disco se fecha com uma cálida Dream Baby Dream, balada da dupla Suicide: ela já fazia parte de seu repertório há anos. A faixa-título foi gravada pela The Havalinas, banda fora do radar do cool; Just Like Fire Would pertence, é verdade, a um grupo valorizado, os Saints, memoráveis pioneiros do punk australiano.

Que conste que High Hopes também inclui faixas literariamente densas. E um par de canções solidamente plantadas na sua Nova Jersey natal: os protagonistas de Harry’s Place parecem sócios da família Soprano; The Wall celebra Walter Cichon, músico local que – ao contrário de Bruce – não conseguiu escapar do alistamento e morreu no Vietnã.