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A aposta de Santos

O diálogo de paz na Colômbia se fortaleceu, mas agora começa o caminho mais difícil

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, acaba 2013 com ventos favoráveis para a sua candidatura à reeleição, no próximo mês de maio. A economia confirma sua solidez com um crescimento de 5,1% no terceiro trimestre. As pesquisas mostram uma recuperação da sua popularidade, que tinha caído a 29%. E o diálogo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) completa seu primeiro ano com resultados concretos: os acordos sobre terras e desenvolvimento fundiário e sobre participação política, dois dos seis pontos da pauta.

Restritas por critérios muito rigorosos, para evitar que se repitam os fiascos anteriores, as conversas transcorrem com seriedade. Mas agora começa o caminho mais difícil. Quando o Governo e a guerrilha voltarem a se encarar em Havana, no próximo 13 de janeiro, faltarão ainda negociar a questão do narcotráfico (uma das principais fontes de financiamento das Farc), a situação das vítimas, o fim do conflito e a aplicação dos acordos. Fica implícito o assunto mais delicado: o futuro jurídico dos guerrilheiros, particularmente dos seus líderes. As vítimas e a opinião pública, e aí as pesquisa são implacáveis, dificilmente aceitariam uma saída que abra a porta para a impunidade.

Com uma rejeição popular de 93%, as Farc pretendem que os acordos desemboquem em uma Assembleia Constituinte para “refundar o país”. Já previram inclusive a sua composição: 141 representantes, dos quais eles se atribuem uma quota por designação, poupando-se do irritante trâmite de passar pelas urnas. Cabe recordar que a Colômbia adotou em 1991 uma Constituição definida por amplo consenso.

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Está claro que o Governo não deve ceder nisso nem deve se furtar ao seu compromisso de submeter a referendo os acordos que saiam da negociação.

Aproximam-se meses arriscados para o diálogo. Não só porque as Farc continuem ensanguentando o país (neste ano o grupo perpetrou mais de 2.000 ações violentas, uma média semelhante à de 2010), mas também por sua simultaneidade com a campanha eleitoral que agora começa.

Santos apostou forte, e sua audácia merece reconhecimento. Mas misturar objetivos e ceder à tentação de apressar um acordo teriam consequências catastróficas para o futuro do país, além de atrasar o tão necessário processo de reconciliação depois de meio século de confronto.

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