Putin anuncia que indultará a Jodorkovski “em breve”

O oligarca, em prisão desde outubro de 2003 acusado de fraude, foi o homem mais rico de Rusia

Em sua tradicional coletiva de imprensa anual, Vladímir Putin não ocultou certa simpatia pelo exanalista da NSA Edward Snowden, refugiado em Rusia depois de filtrar segredos de EUA. Putin foi espião do KGB soviético. (reuters_live)
PUTIN SOBRE SNOWDEN: "LHE ENVIDIO"

O presidente russo, Vladimir Putin, anunciou na quinta-feira que está disposto a assinar em breve um decreto que indultará Mikhail Khodorkovski, o magnata fundador do império petroleiro Yukos, atualmente cumprindo pena por roubo na região da Carélia. O indulto a Khodorkovski foi uma verdadeira surpresa, que Putin revelou quando já estava deixando a sala onde concedera sua entrevista coletiva anual, que desta vez foi tediosa e muito centrada em problemas administrativos e sociais de âmbito regional e local.

A notícia foi recebida com satisfação geral, e inclusive fez subir a Bolsa de Moscou. Os detalhes sobre como se chegou a tal decisão são confusos, mas, quaisquer que sejam eles, a imagem de Putin como líder anfitrião da Olimpíada de Inverno de Sochi, a ser realizada em fevereiro, poderá melhorar graças ao indulto a Khodorkovski e à anistia, por ocasião do 20º. aniversário da Constituição, das duas ativistas da banda Pussy Riot e dos membros do Greenpeace detidos no Ártico. A medida talvez interrompa o movimento que já levou uma série de dirigentes internacionais a declinarem o convite para irem a Sochi, citando ou não suas motivações. Na própria quinta-feira foram libertadas quatro pessoas processadas por participarem de distúrbios na praça Bolotnaia, em Moscou, no dia 6 de maio de 2012.

Quando a transmissão televisiva já havia sido interrompida e Putin se dirigia à porta da sala onde acontecia a coletiva, alguns jornalistas conseguiram cercá-lo após driblar o cordão de segurança. Interpelado por um representante do Life.news (pertencente a uma estrutura empresarial muito ligada ao Kremlin), o presidente afirmou que iria atender a um pedido de indulto enviado por Khodorkovski. “No que se refere a Khodorkovski, eu já disse que Mikhail Borisovich deveria, de acordo com a lei, redigir o documento correspondente, e ele não fazia isso, mas agora recentemente escreveu esse documento e me solicitou que o indulte”, afirmou o chefe do Estado. “[Khodorkovski] já passou mais de 10 anos em reclusão, e isso é um castigo sério, ele indicou circunstâncias de caráter humanitário, sua mãe está doente e acredito que será possível que essa decisão seja tomada e que no futuro próximo será assinado o decreto do seu indulto”, declarou.

Na entrevista coletiva, o presidente já havia se mostrado cético quanto à possibilidade de que Khodorkovski seja julgado pela terceira vez, como muitos acreditavam, partindo da premissa de que Khodorkovski jamais seria libertado enquanto Putin estivesse no poder. “No que se refere a um terceiro processo, não quero entrar em detalhes, mas sinceramente, como alguém que olha isso de fora, não vejo muitas perspectivas para essa ideia”, disse Putin.

O presidente e o seu primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, vinham insistindo que o indulto só pode ser concedido se o condenado o solicitar e reconhecer sua culpa. O porta-voz presidencial Dmitri Peskov disse à agência de notícias Itar-Tass que “há uma carta com a assinatura dele [Khodorkovski]” no Kremlin, mas não quis citar uma data concreta de quando o magnata será libertado.

Enquanto Peskov insistia que a solicitação de indulto equivale a um reconhecimento de culpa, o chefe da comissão de Legislação da Duma Estatal, Pavel Krasheninikov, rejeitava essa tese, alegando que a solicitação do indulto não implica tal admissão.

Tanto a mãe de Khodorkovski, Marina, quanto os advogados dele se mostraram desconcertados e inicialmente céticos porque, se existiu a solicitação, eles disseram desconhecê-la. Em seu site na internet, os advogados comunicaram que até se reunirem com seu cliente “todos os comentários feitos em relação à sua solicitação de indulto ficam invalidados”. Marina Khodorkovskaia, que viu seu filho pela última vez em meados do ano, afirmou que ele não lhe comunicou a intenção de solicitar o indulto a Putin. “Apoio qualquer decisão que ele tomar”, disse. “Só quem passou dez anos na cadeia pode julgar suas decisões”, afirmou. O filho do magnata, Pavel, que mora em Nova York, manifestou ter a esperança de que seu pai possa passar o fim de ano em família.

Já Tamara Morschakova, ex-juíza do Tribunal Constitucional, manifestou que Khodorkovski poderia ter apresentado uma solicitação de indulto diretamente à comissão regional de indulto, por intermédio da administração penitenciária, sem passar pelos advogados. Mas a comissão de indulto da Carélia assegurou não ter recebido nenhuma solicitação de indulto do ex-diretor da Yukos, conforme informou a Interfax. Um porta-voz do serviço penitenciário da Carélia afirmou à Interfax que não foram recebidos documentos oficiais procedentes de Khodorkovski. “Tudo isso foi à margem dos órgãos do serviço penitenciário. Não sabemos como”, declarou.

Serguei Guriev, ex-reitor da Escola Econômica da Rússia, exilado em Paris há cerca de seis meses por medo de uma perseguição judicial, diz não ter a intenção de voltar para a Rússia no momento. Guriev afirmou que a notícia do indulto é “muito boa para a Rússia e para o ambiente investidor na Rússia”. “Espero que seja só o primeiro passo, e que no futuro Vladimir Putin dê novos passos para defender os direitos humanos e se aproximar do mundo empresarial e dos investidores”, acrescentou. Para Guriev, Khodorkovski já deveria ter sido solto há muito tempo, porque, afirmou ele, era inocente no segundo processo do qual foi réu.

O oligarca do petróleo que desafiou o Kremlin

O oligarca do petróleo que desafiou o Kremlin

O magnata Mikhail Khodorkovski, fundador da Yukos, primeira companhia petroleira da Rússia, foi condenado em 2005 a nove anos da prisão por fraude e lavagem de dinheiro (pena depois reduzida para oito anos). Ele chegou a ser o dono da maior fortuna da Rússia (8 bilhões de dólares, segundo a Forbes), fazia donativos à Biblioteca do Congresso do EUA, tinha deputados da sua confiança nos diferentes partidos da Duma Estatal e acalentava grandes planos para o transporte de petróleo bruto até os EUA e a China.

Depois daquele julgamento veio outro, por roubo, que o levou a ser condenado a 14 anos em 2010. Àquela altura, o império Yukos já havia sido desmembrado, e seu melhores ativos petroleiros na Sibéria tinham sido fagocitados pela empresa estatal Rosnef. Durante todos esses anos, Khodorkovski passou por prisões em Moscou, na Sibéria Oriental e na Carélia. Nelas, costurou manoplas, escreveu artigos, ensaios e livros e também foi atacado com uma faca por outro detento. Sempre se negou a pedir clemência ou a se declarar culpado.

Formado em química, iniciou-se como empreendedor nas primeiras cooperativas autorizadas a funcionarem durante as reformas empreendidas por Mikhail Gorbachov na União Soviética.

Depois da desintegração da URSS, o magnata se beneficiou dos leilões de privatização nos quais os empresários mais próximos da família do presidente Boris Yeltsin se apossaram das empresas mais substanciais do Estado, em troca de empréstimos que sustentariam o orçamento público.