Pedro explode como líder

O Barça mantém a liderança na tabela graças à exibição do jogador espanhol, que garante a virada após sofrer 2 x 0 em uma grande arrancada do Getafe

Com o Barcelona desfalcado, sem Messi, Neymar, Xavi e Puyol, ou seja, sem os porta-estandartes da identidade de seu jogo, e sem seus dois jogadores que mais desequilibram, Pedro explodiu. Entrou em combustão bem a tempo de resgatar uma equipe irreconhecível, numa primeira hora de jogo em que o time não entrou em campo. Em oito minutos, Pedro virou uma partida que tinha jeito de desembocar em uma catarse por causa desses dois gols sofridos pelo Barça, que resultaram de duas perdas de posse de bola, por esses chutes mal feitos, por essa história de não soltar a bola em poucos toques, marca indiscutível de uma equipe que sofre quando não sabe o que fazer com a bola e a conduz a esmo, e pela confusão em que o clube está envolvido.

Pedro emergiu em velocidade e em linha reta para atuar como falso nove ou um onze em diagonal, e trocando a perna, para romper uma defesa que não soube como parar um jogador inteiriço, que mantém sua equipe na liderança no dia em que ela mais precisava dele, pressionado pelo Atlético de Madri e com a necessidade de vencer. Pedro é um desses jogadores que sabem interpretar a jogada por virtudes próprias, as quais o habilitam a driblar, a marcar três gols, dar o passe para outro e sofrer um pênalti. A magistral atuação o qualifica perante seu treinador, que o havia relegado ao banco com a chegada de Neymar, e por preferir Alexis. A esplendorosa partida que ele fez também parecia esconder uma mensagem para o banco, pela raiva com que comemorou os gols.

GETAFE 2 x 5 BARCELONA

Getafe: Moyá; Valera, Alexis, Lisandro, Escudero; Borja, Mosquera; Pedro León, Diego Castro (Sarabia, min 71), Lafita (Gavilán, min 80); Ciprian (Colunga, min 60). Não utilizados: Codina, Lacen, Rafa e Míchel.

Barcelona: Pinto; Alves, Piqué, Mascherano, Alba; Busquets (Bartra, min 87), Sergi Roberto, Iniesta; Alexis, Cesc (Song, min 85) e Pedro (Tello, min 80). Não utilizados: Oier; Adriano, Montoya e Dongou.

Goles: 1 x 0, min 10, Escudero; 2 x 0, min 15, Lisandro; 2 x 1, min 35, Pedro; 2 x 2, min 42, Pedro; 2 x 3, min 43, Pedro; 2 x 4, min 67, Cesc; 2 x 5, min 71, Cesc, de pênalti.

Árbitro: Undiano Mallenco. Mostrou cartão amarelo para Alves, Piqué, Busquets, Mosquera e Lisandro.

8.000 espectadores no Coliseum Alfonso Pérez.

É evidente que, sem Pedro, o Barcelona hoje não se manteria no topo da tabela. Foi também um sinal de que o melhor Barça aparece quando a bola passa de pé a pé em menos de três toques, mesmo que algum deles seja de recuo. Com essa fórmula, dominou e arrematou a partida no segundo tempo com outros dois gols, controlando e abrindo espaços com a bola. Reconhecendo-se nesse estilo para mostrar que, das duas versões com as quais parece lidar, a que o resgatou foi aquela que o devolveu a tempos mais recentes.

Pedro pôs seu motor em marcha com uma escapada pelo centro, mas foi marcado um impedimento duvidoso antes que ele passasse por Moyá. Na ocasião seguinte, não perdoou. Alexis recuperou uma bola que havia saído pela lateral, ligou com Cesc e este aplicou essa verticalidade que prolifera nesta era Martino, para divisar o pique de Pedro. Este, num chute com efeito, encobriu Moyá e terminou de agitar sua equipe. Surgiu então o melhor de Iniesta, Busquets se estabilizou, e floresceu um Barça mais reconhecível, veloz e perigoso no jogo de equipe. Já era demais para o Getafe, com seu técnico desesperado porque, com o time recuado, já não punha mais à prova o sistema defensivo de seu rival cada vez que se deslocava como havia feito nos dois gols. Primeiro com uma jogada muito vertical, prolongada por um toque de calcanhar de Lafita para Escudero, que correu sozinho até a sombra de Pinto sem ninguém que o alcançasse, e ali finalizou. Depois, numa cobrança de escanteio em que Busquets descuidou da marcação de Lisandro. Um tremendo castigo, ocorrido em apenas 15 minutos, que enfraqueceu o Barça, carente de referências, porque Piqué estava paralisado por um nervosismo de juvenil, Busquets havia sido dominado pela ofensividade de Pedro León e Lafita, e Iniesta precisava pensar demais quando tinha a bola em seus pés. Falhavam os acima citados para liderar o grupo perante tanta ausência de notáveis, e as imprecisões no passe retratavam isso.

Foi esse primeiro gol de Pedro que levantou o Barça da lona e o ressuscitou em oito minutos, período em que teve uma exibição avassaladora. Esse primeiro tento foi costurado por ele dominando na intermediária e chutando com efeito para a meta. Toda uma obra de precisão, saída de uma virada de jogo de Iniesta para a esquerda, numa jogada já com todas as características do Barça: distração de um lado e pegada rápida e imponente pelo outro. Por esse mesmo caminho, após avanço em profundidade de Jordi Alba, Pedro aproveitou um mau desarme e fuzilou Moyá. O Barça foi para o descanso com uma vantagem que já lhe dava a liderança.

Mais calmo e mais seguro de que a partida estaria num ritmo mais pausado, o Barça administrou o segundo tempo com a naturalidade que fez dessa uma equipe insuperável. Isso também teve muito a ver com Cesc, o outro grande nome da partida. Foram valiosíssimas as suas aproximações para desafogar e gerar espaços. Depois, contribuiu com uma dessas chegadas para arrematar outra jogada coral, orientada por Busquets para a direita, centrada por Pedro e arrematada por Cesc com uma bomba de canhota, indefensável.

Não terminou aí a exibição do centroavante das ilhas Canárias. Ainda teve tempo de fazer Borja dançar, antes de ser por ele derrubado na área. Cesc bateu o pênalti enganando Moyá, para fechar uma partida de leituras mais profundas. A primeira é que, diante das ausências dos símbolos e dos dois jogadores que dominam os holofotes, a salvação veio de um jogador que, na cabeça do seu treinador, não está na primeira linha. A segunda, que esta equipe se perde quando não joga segundo aquilo que sabe de cor, preferindo ir atrás do que não conhece. E a terceira, que o grupo soube se recompor, exigido como estava, depois de uma surra com meia hora de jogo, a qual, como disse Martino na entrevista coletiva prévia ao jogo, poderia ter acionado a máquina de rumores e a intranquilidade durante o período de férias.

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