Um líder visceral

O Atlético de Madri passa pelo Levante apoiando-se em Diego Costa, artilheiro da Liga, com 19 gols, e se torna líder isolado na tabela

Diego Costa comemora um de seus dois gols contra o Levante.
Diego Costa comemora um de seus dois gols contra o Levante.PIERRE-PHILIPPE MARCOU (AFP)

Visceral como uma apresentação de rock de garagem, sutil em uma partida de chuteiras afiadas, ardiloso porque o adversário também maneja esses códigos e furioso por um gol tomado no primeiro minuto do jogo, o Atlético chegou à liderança provisória apoiado em Diego Costa, representante por excelência desta equipe que não dobra o joelho, dura e resistente na crença de que tudo seria possível com a vibração que lhe chegava das arquibancadas.

Ninguém havia se atrevido a golpear tão duramente a equipe de Simeone como fez esta noite o Levante, agressivo e com uma movimentação para adiante de Barral e Rubén que deixou insegura uma defesa que não está acostumada a essa atividade, a ser atacada com tanto descaramento e com um golpe na cintura logo depois do apito inicial.

Atlético, 3 - Levante, 2

Atlético: Courtois; Juanfran, Miranda, Godín, Filipe Luis; Koke (Adrián, m. 63), Tiago, Gabi, Arda Turán; Villa (Raúl García, m. 60) e Diego Costa. Não jogaram: Aranzubia; Alderweireld, Manquillo, Guilavogui e Cebolla Rodríguez.

Levante: Navas; Vyntra, David Navarro, Juanfran, Nikos; Pedro López (Ángel, m. 85), Simao (Sergio Pinto, m. 87), Diop, Rubén, Ivanschitz (Pedro Ríos, m. 34); Rubén García e Barral. Não jogaram: Javi Jiménez; Gomis, El Zhar e Adoua.

Gols: 0-1. M. 1. Ivanschitz. 1-1. M. 30. Godín. 2-1. M. 47. Diego Costa. 2-2. M. 56. Pedro Ríos. 3-2. M. 77. Diego Costa, de pênalti.

Árbitro: González González. Expulsou Juanfran com cartão vermelho direto (m. 90) e deu amarelo para Rubén García, Gabi, Nikos, Pedro López, Diop, Raúl García, Sergio Pinto y Godín.

50.000 espectadores no Vicente Calderón.

O Atlético perdeu a bola no contra-ataque e não a viu mais até que Ivanschitz, cruzando com suavidade ante a saída de Courtois, marcou o gol, aproveitando um grande passe infiltrado de Nikos e tevê de voltar a lançar do meio de campo. Ainda durou alguns minutos mais essa saída cheia de ousadia do Levante, que teve um duelo de Barral com Courtois, que o goleiro belga pegou com uma mão plena de reflexos. Incentivado por sua torcida, o Atlético se levantou. De alguma maneira, esse gol tão madrugador também punha à prova o Calderón como estádio capaz de intimidar, de tornar a partida longa para o adversário diante da pressão das arquibancadas. E assim foi.

Dessa forma, os jogadores e o público se puseram a jogar e a inflamar o ambiente como se já estivessem nos 45 do segundo tempo. O Atlético jogou com a cabeça, como se o relógio estivesse a ponto de marcar o minuto final, com uma voltagem extraordinária que precisou manter toda a noite para levar a partida adiante. Começou um assédio esmagador, com Gabi e Juanfran como atores principais. Um recuperando e distribuindo, o outro lançado no túnel do tempo para relembrar seus tempos de jogador ofensivo, com desarmes da defesa e centro.

Em meio a essa carga, também apareceu o jogo manhoso, com cotoveladas de David Navarro em Villa e de Tiago em Vyntra, e bolas não devolvidas pelo Atlético por acreditar que os jogadores de Caparrós exageravam nas restituídas por eles para em seguida pressioná-los. Essas atitudes falavam de duas equipes que não estavam dispostas a ceder nada e jogavam se desafiando em tudo e por tudo.

O gol logo no início do Levante pôs à prova a capacidade de intimidação e a pressão do Calderón

Em algumas ocasiões, o futebol é uma questão de determinação. Uma patada nas regras e na ortodoxia.

É a aparição do sujeito convencido de que sua presença é uma solução no empenho para superar a adversidade. Isso fez Godín no gol de empate. O Atlético encurralava o Levante, mas não encontrava o caminho do gol. E então Godín arrancou, abandonando sua posição, e se colocou na área para arrematar essa arrancada furiosa com uma cabeçada de centro-avante da velha escola, poderoso ao saltar e com garra no giro de pescoço que lançou a bola nas redes. O Levante já não estava em condições de impor aquele ritmo que havia desarticulado o Atlético e mudado o seu jogo.

Já dominador, com várias imagens que falam da ambição alvirubra, com toda a equipe deslocada para o campo rival, o Levante, bem servido por Diop e Simão na área defensiva, pôde aguentar e manter o empate até o intervalo porque Villa não pode desviar de cabeça um grande passe de Arda e Diego Costa não conseguiu marcar.

Na saída dos vestiários, permanecia no estádio o vigor com que se tinha despedido a equipe de Simeone. No minuto da retomada da partida, Gabi fez uma boa jogada e então apareceu Diego Costa, para executar uma acrobática caça à bola com a perna esquerda, da qual saiu um tiro ajustado no gol. Era seu número 18, em apenas 55 chutes. Uma barbaridade porque Cristiano Ronaldo fez menos gols com o dobro de disparos contra as redes.

Depois da virada no marcador, o Atlético rapidamente recebeu outro duro golpe do Levante. Uma perda de bola de Koke no centro do campo, aproveitada por Pedro Rios em uma carreira vertiginosa que culminou com um chute na entrada da área, que entrou à média altura e acertou o canto direito da rede de Courtois.

Um golaço ao qual novamente a torcida reagiu e também Simeone, que anda em uma espécie de transe ambicioso no qual não economiza nas mexidas. Tirou Villa e Koke, pouco decisivos, e os substituiu por Raúl García e Adrián para continuar com a pressão e demolição do Levante, e o avanço para essa liderança provisória que com 46 pontos lhe autoriza a sentir-se candidato ao título, embora não o queira admitir publicamente.

Foi Juanfran que reabriu o placar depois de uma ofensiva na área do adversário, na qual foi derrubado por Vyntra. Diego Costa foi à meia lua da área e com tranqüilidade pediu a bola a Gabi. Havia receio porque de cinco lançamentos que ele fez, tinha falhado em dois. Mas mandou a bola certeira no canto esquerdo de Navas, querendo assegurar-se de que embora a trajetória tivesse sido imaginada, como de fato foi, não havia meios de o goleiro alcançá-la. Foi seu 19º. gol.

Faltavam apenas 10 minutos e Simenone começou a se portar como coreógrafo para incensar ainda mais a torcida e uni-la à equipe, como tem feito desde sua chegada. É uma união na qual a história do Atlético se vê refletida. A cena de seu treinador estimulando os torcedores é o orgulho de uma equipe grande que batalha com as vísceras por um objetivo para o qual tem números, equipe e garra.