ALOIZIO MERCADANTE | Ministro da Educação

“A esquerda está sempre sonhando o futuro, enquanto a direita governa”

O ministro da educação Aloizio Mercadante lança o livro Brasil: de Lula a Dilma, em Madri, e afirma que "a crise é uma névoa que não deixa ver o futuro, você não vê o que é como nação".

Aloizio Mercadante, ministro da educação
Aloizio Mercadante, ministro da educaçãoBernardo Pérez (EL PAÍS)

Aloizio Mercadante (nascido na cidade de Santos (SP), em 1954) se lembra perfeitamente daquela primavera, a de 2002, em que o Partido dos Trabalhadores se aproximava de vencer pela primeira vez a eleição e colocar Luiz Inácio Lula da Silva como presidente. Poucos dias antes da votação, em uma entrevista ao EL PAÍS, Mercadante respondia às forças da direita e aos mercados financeiros, que anteviam um desastre caso seu partido vencesse as eleições, e os acusava de “terrorismo econômico”. Hoje, recorda que na época “o financista George Soros disse numa entrevista que um país com a dívida do Brasil e subordinado ao FMI não deveria ter uma consulta democrática. Disse que os credores deveriam enviar um gestor, que o gestor da dívida não podia ser o PT. Havia um indicador, que chamavam de lulômetro, que indicava como aumentava o risco-país com a campanha do Lula”. O partido teve que publicar uma carta de compromisso com a estabilidade macroeconômica. O PT ganhou as eleições. Lula, na sua quarta tentativa, chegou à Presidência. Mercadante foi o senador mais votado da história do Brasil.

Ele está no PT, trabalhando com Lula, desde antes da sua fundação, há três décadas. Foi candidato a vice-presidente, deputado, senador e coordenador das campanhas eleitorais. Agora, como ministro da Educação no Governo de Dilma Rousseff, oferece um livro que começa logo após aquela eleição e relata o que aconteceu em seguida: Brasil: de Lula a Dilma (2003-2013). Nesta quinta-feira, o apresentou na Casa América, em Madri, onde aconteceu a entrevista. “Acho que dez anos depois podemos fazer um balanço positivo. Mantivemos a estabilidade, fizemos todas as mudanças dentro da democracia, fortalecendo as instituições republicanas, nunca questionamos uma decisão da Justiça ou do Legislativo, com a mais ampla liberdade de imprensa e manifestação. Fizemos o mais importante processo de inclusão social da história do Brasil. O projeto do livro é mostrar esse modelo alternativo de desenvolvimento.”

O modelo consistiu em “construir o social como eixo estrutural de progresso econômico, criando um grande mercado de consumo de massas através de uma forte política de inclusão social”. Mercadante, economista de formação, afirma que “um mercado interno forte lhe dá escala e competitividade para as exportações”. Nesta década, segundo ele, “praticamente erradicamos a pobreza absoluta, recuperamos o crescimento e geramos 20 milhões de empregos”. “O centro da nossa perspectiva era distribuir para crescer e crescer distribuindo, e criar um amplo mercado de consumo de massa”, acrescenta. “Esse projeto de colocar o social como eixo do desenvolvimento, acho que é a grande novidade histórica.”

Rejeita o termo “dar lições” para falar da experiência brasileira, mas a realidade é que “depois de 20 anos de estancamento e 14 anos de hiperinflação, temos um pós-doutorado em crise, aprendemos muito”. Fizeram seu próprio caminho diante dos que opinavam que bastava enviar “o FMI aqui, a troika ali”. O primeiro que aprenderam, segundo Mercadante, é que “a crise é uma névoa que não deixa ver o futuro, você não vê o que é como nação. Perde a autoestima e a confiança na sociedade”. E, já entrando em comparações, “se você parar para pensar qual era o potencial do Brasil na época e o da Espanha agora, eu sinceramente queria ter os problemas que a Espanha tem: uma infraestrutura fantástica, um nível alto de educação, inovação, empresas modernas e eficientes, e tudo no contexto de uma das experiências mais ricas, que é a integração na UE. Há problemas importantes, mas há um enorme potencial”.

“Sempre se pode cortar algo. Mas se você fizer um corte muito brusco, provoca um efeito multiplicador, empurra o país para a recessão,

No caso brasileiro, para aproveitar esse potencial foi necessária uma esquerda com os pés no chão. “Não queríamos ser a esquerda típica. A esquerda está sempre sonhando o futuro, enquanto a direita governa. É uma esquerda que tem o protesto como proposta e acha que pode sonhar o futuro sem assumir a responsabilidade de governar, com os erros e limitações que isso acarreta. Queríamos ser uma esquerda representativa.”

Essa esquerda propôs uma saída própria para a crise: primeiro tirar as pessoas da pobreza, lhes dar algo de segurança e incorporá-las ao consumo, para fazer o país crescer, num círculo virtuoso. Mercadante contrapõe isso “à ortodoxia econômica recessiva”. “Por mais que você aumente os impostos e corte o gasto público para melhorar a relação dívida/PIB, você está sempre reduzindo o denominador, o PIB. Essa relação nunca evolui positivamente.”

“Sempre se pode cortar algo. Mas se você fizer um corte muito brusco, provoca um efeito multiplicador, empurra o país para a recessão, e nunca consegue ajustar.”

Nesse tempo de governo, além dos êxitos, o PT também se viu enlameado em propalados casos de corrupção, que inclusive levaram boa parte da sua cúpula à cadeia. Para Mercadante, trata-se de um problema do sistema eleitoral. “Primeiro, há hoje no Brasil muito mais transparência, fiscalização e combate à impunidade”, diz, como introdução. “Não há nenhuma denúncia de enriquecimento pessoal, de apropriação de recursos. O que há é um problema de financiamento das campanhas eleitorais, que lamentavelmente está presente em todos os partidos do Brasil. A origem está em um mecanismo de financiamento que não está bem calibrado. A democracia tem um custo, e a sociedade tem de assumir isso com transparência. O PT quer o fim do financiamento privado. Há uma dimensão oculta na democracia: as empresas têm interesses políticos, querem financiar partidos, mas não querem aparecer. Não há como financiar uma campanha política no Brasil de forma competitiva, sem esse financiamento. Acho que é um problema internacional.” A presidenta Dilma Rousseff tentou convocar um plebiscito para definir melhor as regras políticas, incluindo esse delicado aspecto do financiamento dos partidos. O Congresso rejeitou. “Os parlamentares têm um alto interesse, eles chegaram com essas regras e não querem mudá-las.” E não basta fazer campanhas mais baratas? “O custo da campanha no Brasil está na televisão. Tomamos muitas medidas para reduzir os custos, mas não é o suficiente. É preciso uma forma de financiamento público e transparente, não há outra solução.”

Na história desta década, e das lições que Mercadante colheu, se destaca um fator sem o qual talvez não se entenda o que aconteceu no Brasil. O personagem Lula. “Lula é o líder popular mais importante da história recente do Brasil”, diz Mercadante, que trabalha com ele desde os anos 70. “Independentemente do meu compromisso, Lula é o grande líder histórico.” Agora Dilma Rousseff, “a primeira mulher, que com 20 anos estava presa e sofreu torturas, tem coragem histórica, atitude republicana, valor na gestão... É uma evolução bonita.” Por sua vez, quando se aproximava de vencer sua primeira eleição presidencial, naquele ano de 2002, Lula dizia que Mercadante era um dos melhores economistas do Brasil. “O Lula também erra”, ri.

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