A oposição marcha contra a deriva autoritária de Maduro

Capriles convoca seus seguidores a ir às ruas pela primeira vez desde as eleições e protesta contra o desabastecimento

Capriles discursa para seus militantes neste sábado em Caracas / AFP
Capriles discursa para seus militantes neste sábado em Caracas / AFP

“Mais vale um protesto estúpido que um estúpido que não protesta”. O anúncio, escrito com uma caligrafa duvidosa sobre um pedaço de papelão exibido por um manifestante ao meio dia deste sábado em Caracas, resume o desafio apresentado à oposição venezuelana, que está cada vez mais desprovida de recursos enquanto enfrenta um governo ofensivo.

Para este sábado, a oposição convocou protestos em massa nos 335 municípios do país, buscando assim evidenciar a sua rejeição aos poderes especiais outorgados pelo presidente Nicolás Maduro e também se misturar aos seus partidários diante das próximas eleições autárquicas em 8 de dezembro.

À respeito disso, o líder opositor e governador do estado de Miranda, Henrique Capriles Radonski, durante um breve discurso pronunciado no ato principal de protesto em Caracas, a capital venezuelana, frisou o significado implícito dessas eleições: “Aos quem pensam que só vamos eleger prefeitos, lhes digo que isso pode ser posto muito pior”, advertiu. “Se o oficialismo ganhar em 8 de dezembro, este caos que estamos vendo agora se vai aumentar”.

Capriles referia-se às filas de consumidores que persistem em frente às lojas de eletrodomésticos e outros produtos de bens de consumo duráveis, cujo governo de Maduro ocupou e confiscou a mercadoria. “A gente faz fila porque sabe que talvez hoje tenha, mas amanhã não se sabe mais”. Ironizou, sobre a visita que nesse momento, ocasião do aniversário do presidente Maduro, lhe faziam os reis da Holanda, Guillermo e Máximo, ao sucessor de Hugo Chávez: “Eu me pergunto se essa pessoa informou aos reis dos Países Baixos sobre a quantidade de gente que está fazendo fila agora para conseguir um pacote de farinha ou papel higiênico”.

O comício, que representou o retorno das forças opositoras às ruas desde as eleições presidenciais de abril passado, mostrou uma notória redução nas assistências com campanhas eleitorais. A convocação, além de precipitada, foi feita quase que no boca a boca. O governo busca afogar os impulsos da dissidência ao adiantar por decreto as festas de Natal ou diante da indiferença das emissoras de rádio já domesticadas pelo poder.

Mas também se vale de outras artimanhas. Uma área importante da Praça Venezuela – o local que, por mera convenção, mais que por geografia, divide Caracas entre o oeste operário e o leste de classe média -, onde a oposição reuniu seus simpatizantes, amanheceu ocupada por uma enorme plataforma que a petroleira estatal Pdvsa instalou.

Também durante a madrugada, as autoridades de inteligência militar detinham Alejandro Silva, Coordenador de Caravana da campanha de Capriles Radonski, por motivos que, até o fechamento dessa matéria, ainda não haviam sido confirmadas oficialmente.

Sua detenção, feita sem ordem judicial, gerou profecias ameaçadoras por Capriles, que disse que “talvez esta seja a última oportunidade que eu tenha para lhes deixar estas reflexões”. Efetivamente, na véspera, numerosos rumores correram na capital venezuelana sobre uma iminente detenção de dirigentes como Leopoldo López, Ismael García, Henri Falcón e o próprio Capriles.

No entanto, com a escalada da repressão, deu Silva. Capriles acusou o governo da Venezuela de usar Silva como uma isca, e o presidente Maduro, de covarde. “Se eu sou o problema, por que não me prendem de uma vez? Venham me buscar, Nicolás!”, desafiou.

Capriles previu que as dificuldades no abastecimento de produtos de primeira necessidade devem piorar em breve, uma vez que os estoques das lojas confiscadas se esgotaram. “É uma operação irresponsável deste governo que só está pensando em comprar votos para dezembro, mas não lhe importa o que vai acontecer em janeiro ou fevereiro”.