O caso Ruby

A sentença do “bunga bunga”

O texto do caso Ruby, publicado nesta quinta-feira, retrata a degradação de Berlusconi. O ex-prêmie italiano foi condenado a sete anos

A marroquina Karima El Mahroug, a Rubi parte corações, e o ex-presidente Silvio Berlusconi
A marroquina Karima El Mahroug, a Rubi parte corações, e o ex-presidente Silvio Berlusconi (Reuters)

O texto da sentença não deixa espaço para dúvida: Silvio Berlusconi deitou-se com a marroquina Karima El Marough sabendo que ela era menor de idade e pagou por isso grandes somas de dinheiro e joias. O ex-premiê italiano chegou até a usar seu imenso poder como chefe do Governo da Itália para tirá-la de um imbróglio policial. Três juízas de Milão o condenaram em 24 de junho a sete anos de prisão e o desabilitaram por toda a vida de exercer um cargo público pelos crimes de incitamento à prostituição de menores e abuso de poder, em uma sentença de primeira instância cujas motivações se conhecem agora.

Segundo as juízas de Milão, aquilo que o político e magnata definiu como “jantares elegantes” ou inocentes “espetáculos de burlesque” —jovens modelos que disfarçadas de freiras, Obama ou Ronaldinho dançavam até ficar em couros— faziam parte em realidade de “um autêntico sistema de prostituição” criado em exclusiva para dar prazer sexual ao primeiro-ministro

Justo quando a Berlusconi, a ponto de ser expulso do Senado e desprestigiado em seu partido, o pior lhe acontece. Não tanto pela repercussão prática da sentença —ainda há duas instâncias para recorrer—, mas pela imagem que, em papel timbrado, foi feita da personagem. Em primeiro lugar, porque ainda sabendo que a marroquina, o então primeiro-ministro a convidou em duas ocasiões a sua mansão em Arcore, e “há provas de que manteve relacionamentos sexuais com ela e pagou grande quantidades de dinheiro e outras utilidades, como joias”, diz a sentença. Em segundo lugar porque, ao ser detida Ruby na noite de 27 de maio de 2010 a acusada de roubar 3.000 euros de uma prostituta com quem dividia o apartamento, Berlusconi ligou Paris e pressionou os policiais da delegacia central de Milão para que a soltassem. Segundo as juízas, o único e urgente interesse do então chefe do Governo italiano era o de “proteger-se”. Para isso, disse aos polícias —em um dos episódios mais grotescos de sua biografia— que a menina era sobrinha do então presidente egípcio Hosni Mubarak e que sua detenção poderia desencadear um incidente diplomática.

Além disso, a sentença diz que Berlusconi era “o diretor” das famosas noites do “bunga bunga”. Segundo as juízas de Milão, o que o político e magnata definiu como “jantares elegantes” ou inocentes “espetáculos de burlesque” —jovens modelos que disfarçadas de freiras e outras fantasias dançavam até ficar nuas— faziam parte, na realidade, de “um autêntico sistema de prostituição” criado exclusivamente para proporcionar prazer sexual ao primeiro-ministro. O tribunal ressalta “a capacidade de delinquir do acusado”, que, uma vez revelado o caso, tentou —e muitas vezes conseguiu— comprar o depoimento de testemunhas “com a entrega de grandes somas de dinheiro”.

Sem capacidade para ameaçar o Governo e aguardando a execução de sua expulsão do Senado, Silvio Berlusconi se aproxima lenta e vergonhosamente do seu final.

 

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