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Vítimas narram o pesadelo do incêndio em prédio de Londres

Moradores do edifício Grenfell relatam como escaparam e ajudaram outros a sair

Serviços de emergência trabalham no edifício
Serviços de emergência trabalham no edifício AFP

“Por favor, rezem por mim, há um incêndio no prédio e não consigo sair do apartamento. Rezem por mim e pela minha mãe.” Essa foi a mensagem que Khadija Saye publicou na sua conta do Facebook às 3h da madrugada de quarta-feira, enquanto as chamas continuavam devorando o edifício Grenfell, em Londres. Desde então, nada se sabe dessa artista de 24 anos, que morava num dos apartamentos do 20º. andar, onde ficou retida pelas chamas na companhia da sua mãe, chamada Mary. Uma espessa camada de fumaça as impedia de sair do prédio de 24 andares, que acabou sendo totalmente consumido pelo fogo.

O balanço do desastre, divulgado nesta segunda-feira, é de 79 mortos ou desaparecidos. A Polícia Metropolitana de Londres avisa que talvez seja impossível verificar a identidade de todas as vítimas fatais do incêndio, aparentemente provocado por violações nas normas de segurança. À espera das muitas perguntas que as investigações oficiais tentarão responder, os depoimentos de vários sobreviventes e de seus familiares e amigos esboçam o relato de como os moradores do prédio viveram aquele pesadelo.

As autoridades não arriscam nenhuma hipótese sobre como o incêndio começou, mas a hipótese principal é que tenha tido início no apartamento de Behailu Kebede, no quarto andar. Durante a madrugada de quarta-feira, esse taxista etíope, de 44 anos, sendo 15 deles radicado no Reino Unido, bateu na porta de seu vizinho Abdul. “Ele nos disse que precisávamos sair porque havia fogo no seu apartamento. O amigo dele acrescentou que a geladeira havia explodido, mas os dois pareciam tranquilos”, conta Abdul. Maryann Adam, outra moradora, relatou à imprensa britânica que foram os vizinhos que a despertaram, porque nenhum alarme de incêndio soou. Ela acrescentou que ela própria conseguiu ver um incêndio “pequeno” no apartamento de Kebede. Quando as chamas – que ainda não se sabe se procediam desse ou de outro local – começaram a se espalhar com rapidez, Paul Munark se precipitou escada abaixo a partir do sétimo andar e conseguiu escapar. “Os alarmes contra incêndio não funcionaram dentro do edifício”, corroborou.

Miguel Alves e seu jovem vizinho Khalid Ahmed certamente salvaram várias vidas ao bater freneticamente em todas as portas que puderam para alertar os moradores adormecidos sobre o fogo. O primeiro se deparou com o incêndio ao chegar muito tarde à sua casa, depois de um jantar familiar, ao passo que o segundo permanecia acordado de madrugada porque havia esperado o pôr do sol para comer algo, cumprindo as obrigações islâmicas do Ramadan. Muitas famílias residentes neste prédio multicultural são muçulmanas e, pelo mesmo motivo que Khalid, ainda não haviam se recolhido quando o fogo começou a se espalhar. O pânico e o caos dominaram os moradores do prédio, que tinha 120 apartamentos, mas também estimularam a solidariedade de muitíssimos vizinhos. Como Sidani Atmani, de 41 anos, que não deixou o 15º. andar enquanto não localizou um homem deficiente e o ajudou a descer pelas escadas. “Inclusive houve gente que voltou a subir para onde o fogo estava com a intenção de auxiliar os outros”, relatou.

O edifício Grenfell, apesar de localizado em um bairro de classe média da zona oeste da cidade (Notting Hill, distrito de North Kensington), incluía apartamentos sob proteção oficial, destinados a moradores de baixa renda, e o perfil dos moradores era majoritariamente muito modesto. O sírio Mohammed Alhajali, de 23 anos, habitava um dos apartamentos do 14º. andar desde que foi acolhido no Reino Unido como refugiado, há três anos. Seu nome foi o primeiro a ser divulgado entre as vítimas que morreram. Esse estudante de engenharia tentou fugir escada abaixo junto com seu irmão Omar, mas a fumaça os separou e impediu que Mohammed fosse além do 13º. andar. Ele então voltou ao seu apartamento para fazer um telefonema de despedida, quando as chamas já o estavam alcançando: “Por favor, me ajude. Diga à minha família que a amo”, disse, muito assustado, ao seu interlocutor, um amigo que não teve o nome revelado. Omar, dois anos mais velho, está hospitalizado e se recupera bem dos ferimentos.

Como este jovem, que sucumbiu ao incêndio depois de sobreviver ao regime de Bashar al Assad e à guerra síria, outros moradores apanhados em seus apartamentos tentaram contato com o exterior, em desespero. Anthony Disson, de 65 anos, ligou para alguns amigos do banheiro do seu apartamento no 22º. andar. Recomendaram-lhe que se envolvesse num lençol e tentasse sair, mas ele disse que o chão estava quente demais. Por volta das 4h, falou com outro amigo: “Diga aos meus filhos que os amo”, pediu. Sua vizinha Ranya Ibrahim enviou a seus próximos uma mensagem de Snapchat com a seguinte mensagem: “Perdoem-me todos. Adeus”. Nura Jamal, mãe de duas crianças pequenas, gritava em sua última chamada: “O fogo está aqui, vamos morrer”.

Frente a esses espantosos relatos, alguns episódios de sobrevivência quase milagrosa funcionaram como pequenos bálsamos para a opinião pública. Como o caso de Elpidio Bonifacio, um avô quase cego, filmado pelas câmeras de TV quando pedia socorro da janela. Foi resgatado 12 horas depois do início do incêndio, quando parecia certeza de que ninguém seria tirado de lá com vida. Ou como o do bebê atirado por sua mãe de uma janela do 10º. andar, que foi apanhado – e salvo – por um homem.

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