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Festival de feministas negras causa polêmica em Paris

Evento abre debate sobre práticas do feminismo não misto após prefeita da cidade ameaçar cancelá-lo

Faltam quase dois meses para a realização em Paris do primeiro festival afro-feminista europeu, o Nyansapo, mas a polêmica já começou. No centro das discussões está a questão de se um evento organizado por mulheres negras e feministas, para discutir temas do feminismo e racismo é discriminatório. E até mesmo racista. Quando se tornou público que uma parte do festival – algumas oficinas – não será mista, ou seja, estará reservada às mulheres negras, as condenações vieram em sequência, até mesmo da própria prefeita de Paris – de esquerda e feminista –, Anne Hidalgo.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo.
A prefeita de Paris, Anne Hidalgo. AP

Muitos coletivos divulgaram o evento defendendo um formato de espaço limitado que, afirmam, é tradicional e até necessário em um coletivo duplamente discriminado, por gênero e cor de pele. Apesar de Hidalgo – que chegou a exigir que o festival fosse proibido e ameaçou denunciar as organizadoras por discriminação – ter ficado satisfeita após os esclarecimentos de que os eventos reservados serão realizados em um espaço privado e não em instalações públicas, a polêmica está longe de acabar.

O objetivo declarado do Mwasi (mulher, em lingala), o coletivo afro-feminista que organizou a primeira edição do Nyansapo, é “construir estratégias e redes de solidariedade duradouras” do movimento feminista negro na Europa. Para isso, as organizadoras planejaram quatro espaços diferentes. Um deles será um “espaço não misto de mulheres negras”, que são 80% do público do festival, especificam. Também existirá outro “espaço não misto de pessoas negras”, outro “não misto de mulheres racializadas” (que vivem, de acordo com os defensores do termo, em estruturas sociais discriminatórias seja por raça, religião e origem) e, finalmente, um espaço “aberto a todos e todas”.

Os primeiros a fazer um escândalo foram membros da ultradireita. Especialmente o tesoureiro da Frente Nacional (FN), Wallerand de Saint-Just, que denunciou esses espaços reservados como “proibidos aos brancos” e exigiu uma resposta de Hidalgo, já que parte do festival será realizado em um local de propriedade da Prefeitura da capital francesa.

Organizações como a Liga Internacional contra o Racismo e Antissemitismo (Licra) e a seção francesa da SOS Racismo também criticaram os planos de divisão das mulheres afro-feministas. “Rosa Parks iria se revirar no túmulo. O combate antirracista transformado no álibi de um entrincheiramento identitário”, escreveu a organização Licra no Twitter. Um festival “parcialmente proibido a brancos” tem uma lógica “provocadora e discriminatória”, afirmou a SOS Racismo.

As organizadoras do evento – o coletivo Mwasi –, e o La Générale, o espaço público no qual será realizado parte do festival, lamentaram a polêmica e dizem ser vítimas de uma “campanha de desinformação e de fake news orquestrada pela extrema direita” em que “algumas organizações antirracistas também se deixaram manipular”.

E rebatem o argumento lembrando que esses espaços não mistos – como também frisaram outros ativistas e especialistas – são práticas clássicas da luta feminista desde os anos 70. “Os grupos de discussão feminista ‘entre mulheres’ jamais significaram um problema ao grande público. É um método de trabalho clássico cuja utilidade foi demonstrada para que a palavra possa surgir livremente e para que, em paralelo, possa ocorrer uma reflexão aberta de maneira tranquila”, afirmam.

Defensores

“A mulher negra não tem um problema somente com o patriarcado, que é o tema do feminismo branco. A mulher negra é oprimida tanto por homens brancos como por mulheres, e isso precisa ser reconhecido, é o problema que deve ser resolvido”, diz Antoniette Torres Soler, diretora do Afroféminas. Essa cubana radicada em Zaragoza organiza oficinas de afro-feminismo e exigiu desculpas públicas de Hidalgo por suas críticas ao festival parisiense porque “vulnerabilizou esse coletivo, o colocou em posição socialmente mais desvantajosa”. Ainda que diga preferir os espaços mistos, por sua convicção de que “o discurso construído pelo feminismo negro deve chegar a todo mundo”, Torres evidencia o direito de se realizar oficinas reservadas como decidiram as feministas parisienses. “Acho bom que exista um momento para elas e para sua reflexão”, afirma.

Cerca de vinte ativistas alertaram, em uma coluna no Mediapart, que não é “inocente” a percepção de que “espaços reservados a mulheres negras sejam vistos como ‘proibidos aos brancos’, quando também não são abertos aos homens negros e membros de outras comunidades”.

“A militância não mista não é discriminação”, é da mesma opinião o sindicato de estudantes francês UNEF, que também criticou a prefeita Hidalgo por sua postura sobre o festival. Em várias publicações no Twitter com a hashtag #JesoutiensMwasi (Eu apoio o Mwasi), lembraram que considerar que “a presença de brancos é indispensável “não é mais do que uma forma de pensar dos que “consideram que as pessoas atingidas pelo racismo não deveriam ter o direito de se organizarem entre elas”.

Uma ideia da qual a SOS Racismo discorda, que respalda “mil vezes” as críticas da prefeita parisiense ao festival. “O fato de se proibir uma parte dos espaços a pessoas por seu sexo e origem representa um problema jurídico (...). Significa instaurar uma volta às categorias raciais”, alertou o presidente da seção francesa da ONG, Dominique Sopo, em vários veículos da imprensa francesa. “A partir do momento em que se aceitar que as reuniões públicas sejam proibidas aos que não são negros, o que diremos no dia em que se proibir a entrada em reuniões aos não brancos?”, questionou.

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