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“Se me matarem...”: as mexicanas reagem contra a culpabilização das mulheres vítimas de violência

Jovem de 22 anos foi assassinada e promotoria disse que ela estava “se alcoolizando e se drogando” antes de ser morta

Lesby Berlín, mexicana de 22 anos, foi assassinada na madrugada de 3 de maio passado no campus da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Apesar de ainda não ter sido identificado o autor, a Procuradoria Geral Judicial da Cidade do México (PGJCDM) divulgou informações sobre o crime. Pouco têm a ver com o assassinato: a informação – já retirada – falava sobre a vida pessoal da vítima, que supostamente estava “alcoolizando-se e drogando-se” antes de ser morta.

Culpabilizar a vítima é um dos pilares da cultura do estupro. Também aconteceu com as viajantes argentinas assassinadas no Equador – onde foram recriminadas por viajarem “sozinhas” – ou no estupro coletivo de uma menor no Brasil, no qual a própria polícia afirmou que poderia se tratar de um ato sexual não forçado. Muitas leitoras criticaram nas redes a atitude da Procuradoria mexicana com a hashtag #SiMeMatan, imaginando que seriam responsabilizadas se fossem assassinadas.

A hashtag também está sendo divulgada em outras redes sociais, como o Instagram, no qual muitas mulheres estão publicando selfies ao lado da hashtag e a frase com a qual seriam responsabilizadas por seu assassinato. De muitas contas também está sendo compartilhada uma vinheta da ilustradora Eréndira Derbez, publicada originalmente em seu Facebook.

A mexicana María José E.H. foi a que promoveu e começou a divulgar a hashtag. “Escrevi no meu Facebook o que diriam de mim se me matassem, tudo que me tornaria uma vítima perfeita, como foi Lesby”, explica para o Buzzfeed México. “Depois compartilhei no Twitter sem pensar e duas amigas sugeriram transformar em hashtag”.

Tuíte com o qual María José E.H. propôs usar a hashtag #SiMeMatan. O link contém telas com as mensagens originais, publicadas no Facebook, de onde vem a ideia da hashtag. Leia o conteúdo a seguir.

"Se me matarem, não digam a ninguém que às vezes fico bêbada, que não tenho diploma universitário, que às vezes atraso os pagamentos dos impostos, que vivo com meu namorado sem casar, que tive depressão e estou em terapia, que às vezes caminho de volta para casa SOZINHA.

Que não faço exercício, que como açúcar demais, que menti, que deixei mal meus amigos, que tive relações abusivas, que tive daddy issues, que tive dívidas, que às vezes chego tarde no trabalho, que sou muito reclamona, que faz tempo que não vou ao dentista".

Muitas mulheres se somaram à iniciativa e, 12 horas depois de seu lançamento, continuava sendo trending topic na Cidade do México.

A reação à morte de Lesby Berlín não ficou restrita às redes. A comunidade universitária da UNAM organizou uma manifestação para a tarde de 5 de maio.

Miguel Lorente, médico legista e ex-representante do Governo para casos de violência de gênero na Espanha, explicou ao EL PAÍS que, quando ocorrem denúncias de estupro, 15% a 20% dos casos a vítima é questionada ou atacada. O único responsável por uma agressão sexual é, sempre, o próprio agressor. Toda vez que um caso semelhante acontece, esse gráfico, muito popular nas redes, nos lembra:

“Se me matarem...”: as mexicanas reagem contra a culpabilização das mulheres vítimas de violência

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