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Trump e Putin buscam acordo na Síria e discutem “situação perigosa” na Coreia do Norte

Presidentes dos EUA e da Rússia reabrem o diálogo sobre zonas seguras e decidem se encontrar no começo de julho

Donald Trump
Trump mantém com Putin sua primeira conversa depois de assumir o cargo, em 28 de janeiro. AFP

Estados Unidos e Rússia. Donald Trump e Vladimir Putin. Nesta terça-feira, os dois gigantes planetários deixaram de lado seus últimos atritos e decidiram olhar juntos para o futuro. Numa conversa telefônica descrita como “muito boa” pela Casa Branca, os dois líderes decidiram retomar a busca por um acordo na Síria, onde “o sofrimento já foi longe demais”, e reabrir “o diálogo sobre zonas seguras" nesse barril de pólvora do Oriente Médio. Sob esse clima de distensão, também discutiram a “situação perigosa” da Coreia do Norte. Toda uma aproximação estratégica que culminará, no começo de julho, com um encontro pessoal em Hamburgo (Alemanha), coincidindo com a cúpula do G-20.

Ainda não se viram, mas já protagonizam um intenso e prolongado idílio. Durante as eleições, o Kremlin jogou sujo a favor de Trump. Disseminou informações falsas na Internet a respeito de Hillary Clinton e invadiu os computadores do Partido Democrata. Essa intervenção, segundo os serviços de inteligência norte-americanos, foi ordenada pelo próprio Putin e representou a “maior operação já conhecida para interferir” na vida política dos Estados Unidos.

O ataque cibernético motivou a abertura de uma investigação criminal que, depois de acabar com a carreira do assessor de Segurança Nacional da atual Administração, agora aponta para a Casa Branca. Mas nem com esta pressão Trump criticou diretamente o presidente russo. Pelo contrário, defendeu-o inclusive quando recordado sobre o passado sombrio de Putin. “Nós também temos muitos assassinos. O que você acha? Que o nosso país é tão inocente?”, respondeu o presidente.

Nesta lua de mel, o maior esbarrão ocorreu no começo de abril, com o bombardeio dos Estados Unidos a uma base aérea do regime do Bashar al Assad. Washington decidiu lançar os mísseis depois de considerar que estava provado que o regime sírio havia empregado armas químicas contra a população civil. A Rússia, previamente alertada sobre o ataque, saiu em defesa do seu protegido e rejeitou as acusações. “Trata-se de uma agressão contra um Estado soberano que infringe as normas do direito internacional com um pretexto inventado”, afirmou Putin.

O choque derivou em uma amarga troca de acusações no Conselho de Segurança da ONU, no cancelamento de um pequeno acordo de cooperação aérea na Síria e na constatação de que as duas potências discordavam sobre o futuro de Assad. Mas a disputa não foi muito além disso.

Nem Putin nem Trump se atacaram diretamente. E os interesses estratégicos permaneceram intactos: Estados Unidos e Rússia mantêm sua intenção de cooperar na luta contra as bases terroristas do Estado Islâmico.

Neste contexto, o telefonema desta terça, o terceiro desde a posse de Trump, tenta devolver a relação ao seu curso habitual. Para isso, o presidente republicano abriu mão das diretrizes herdadas de Obama e fez o gesto de enviar um representante às conversações sobre cessar-fogo na Síria, que terão lugar nestas quarta e quinta-feira em Astana (Cazaquistão).

De maior relevância foi a reativação do debate sobre as zonas seguras na Síria. Essas áreas têm por finalidade garantir a proteção aos refugiados que escapam do Estado Islâmico. Sua defesa implica a criação de uma zona de exclusão aérea e supostamente a mobilização de tropas norte-americanas. Um passo que representaria uma guinada na estratégia norte-americana e que a Administração Obama durante anos evitou, por medo se ser sugada para o labirinto sírio.

A visão de Trump é diferente. Em sua luta contra o EI, procura o apoio russo e está disposto a aumentar seu envolvimento militar. “Os presidentes Trump e Putin concordam que o sofrimento na Síria já foi longe demais e que todas as partes devem fazer o que puderem para acabar com a violência”, diz o comunicado da Casa Branca.

Com o telefonema e seus incipientes avanços, o alvoroço desatado pelo bombardeio fica para trás. Os dois mandatários voltam ao ponto anterior, e Trump, cuja admiração pelos autocratas é conhecida, já pode dar rédea solta ao seu desejado plano de trabalhar com Putin. Sob a nova dinâmica, os dois presidentes concordaram em trocar um aperto de mãos na cúpula do G-20 em Hamburgo nos dias 7 e 8 de julho. Será um encontro histórico. E talvez o início de uma aliança.

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