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Passatempo hacker, publicar pornografia gay nas redes sociais do Estado Islâmico

Desde o atentado contra o clube gay de Orlando, em 2016, o pirata digital Wauchula Ghost usar o humor para combater propaganda jihadista na web

Passatempo hacker, publicar pornografia gay nas redes sociais do Estado Islâmico

Ele assina seus e-mails como “Wau”, mas atende pelo nome de Wauchula Ghost (o fantasma Wauchula). Como todo hacker que se preza, jamais revela sua real identidade, embora a de Wauchula possa ser detectada geograficamente em uma pequena cidade do Estado norte-americano da Flórida e ele próprio apresente em seu site o número telefônico de um advogado que lhe presta serviços e que traz um prefixo da Califórnia. A partir de um atentado ocorrido justamente na Flórida, na cidade de Orlando, esse hacker obteve uma notoriedade muito especial. Ele já tinha invadido os perfis de simpatizantes do Estado Islâmico (EI) antes de o cidadão norte-americano Omar Mateen matar 49 pessoas em uma boate gay em 12 de junho de 2016. Mas, depois desse massacre, atribuído ao EI – que participou como inspirador do ato –, o fantasma da internet decidiu fazer uma coisa que certamente irritaria bastante os seguidores do grupo jihadista mais letal da atualidade: hackear as suas contas nas redes sociais usando imagens de pornografia gay. E, com certeza, os irritou. As ameaças, algumas bastante explícitas, são incessantes.

“Uma delas”, contou o hacker em uma troca de mensagens por e-mail, “continha um vídeo de uma decapitação com o título de ‘WauchulaGhost, vamos te pegar’”. Isso aconteceu há alguns meses, mas ele continua a receber mensagens de ameaças de morte, embora ache muitas delas até mesmo divertidas. Por que a escolha pela pornografia gay? “Vi muitas contas do EI elogiando Mateen por ter assassinado todas aquelas pessoas inocentes”, explica, “não sabia como as pessoas reagiriam, mas recebi toneladas de mensagens de agradecimento da comunidade LGBT”.

Passatempo hacker, publicar pornografia gay nas redes sociais do Estado Islâmico

Um exemplo de seu trabalho: na conta do Twitter original (@bffhf25), antes da pirataria, um tuiteiro integrante do EI, pelo menos na aparência, exibe no alto a imagem de um sujeito encapuçado com o dedo indicador apontando para cima – gesto comum entre os fundamentalistas para expressar sua adoração da unicidade de sua religião: deus é um só, e é o dele. Na imagem do perfil, um homem com uniforme de combate posa ao lado de uma metralhadora. O primeiro tuite que aparece inclui a fotografia do líder do EI, Abubaker al Bagdadi. Depois de hackeada, a mesma conta aparece da seguinte forma: no alto, a bandeira colorida do orgulho gay, de ponta a ponta; no perfil, uma foto de três homens nus abraçados (dois deles se beijando), e o primeiro tuite, com a tradicional foto de um membro do grupo com uma bandeira na mão, só que esta, em vez de ser a usada normalmente pelos jihadistas, é a bandeira do arco-íris, representante a comunidade homossexual. A mensagem: “O EI apoia os direitos dos gays”. O tuiteiro em questão aparece identificado como integrante da CIA.

Isso tudo, diga-se, em tempo recorde: segundo o hacker fantasma, é fácil invadir uma conta, operação que lhe toma não mais do que um minuto. Ele não é o único, aliás, que tem como alvo os jihadistas na internet. O coletivo ativista hacker Anonymous, ao qual o próprio Wauchula Ghost está ligado, já fez a mesma coisa várias vezes: troleou contas, divulgou-as para que fossem canceladas ou as ridicularizou (com o hashtag #daeshbags). E redes sociais como o Twitter, plataforma fundamental para a divulgação da propaganda jihadista – a organização e o planejamento se fazem, agora, pela deep web –, também fizeram a sua parte. Entre agosto de 2015 e dezembro de 2016, a rede suspendeu 636.248 contas que apresentavam conteúdo fundamentalista. O que poupou bastante trabalho ao pirata fantasma, como ele próprio admite. Toda vez que ele hackeava uma conta, o Twitter agia por trás para suspendê-la. E cada vez mais rapidamente. “Isso, ao lado de uma mudança de foco [ele agora está bastante voltado para denunciar a corrupção no Governo de Donald Trump], não tem me deixado muito tempo para ‘brincar’ como eu fazia antes”.

Mas a semente do combate ao terror foi plantada. Sabe-se como irritar a organização terrorista; como alertar as redes sociais para que ajam e, o que é mais importante na guerra psicológica contra esse fenômeno terrorista, como criar confusão entre os extremistas: quem será o próximo a ser hackeado?

Wauchula Ghost exibe em seu site alguns exemplos de sua intervenção, com os perfis antes e depois dela.

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