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COLUNA

Fachin e ‘Um inimigo do povo’

O ministro do STF e relator da Lava Jato aconselha aos jornalistas lerem uma obra clássica sobre a corrupção do poder e a manipulação das informações

Ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF.
Ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF. REUTERS

O conselho dado um dia desses aos jornalistas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, relator da Lava Jato, de ler Um inimigo do povo, obra do dramaturgo Henrik Ibsen, poderia ser interpretado como uma sutil e erudita polêmica com os meios de comunicação, além de uma reflexão sobre o que se passa hoje no Brasil no campo das ideologias. A obra de Ibsen, um dos dramaturgos mais influentes do chamado “teatro de ideias”, significou, na sua época, uma denúncia contra a corrupção do poder e a manipulação de informações quando esta se coloca a serviço dos poderosos. Uma denúncia que ganha novamente atualidade no Brasil e no mundo.

O protagonista da peça, o médico Stockmann, é um cidadão honrado que descobre que em sua pequena cidade as águas medicinais do balneário, seu local mais belo e principal atração turística, geradora de riqueza, estão contaminadas. Surge, então, o seu drama de consciência: silenciar ou denunciar o fato. Ele decide falar, e, em um primeiro momento, o jornal da cidade se compromete a publicar a sua carta de denúncia. E suas angústias começam aí. O prefeito do vilarejo, os donos do poder e toda a sociedade começam a mover suas peças para evitar a revelação de um escândalo que poderia acarretar sérios prejuízos econômicos para eles e para a cidade. Conseguem, assim, fazer com que o jornal, em vez de publicar a carta de Stockmann, publique uma do prefeito. Pouco a pouco, aquele quixote, que diz que “um homem livre não tem o direito de agir de uma forma que o leve a ter vergonha de si mesmo”, começa a se sentir isolado e abandonado por todos os que têm interesses no balneário, a começar pela sua própria família.

A obra de Ibsen é sobre a luta entre a razão e o poder, a razão encarnada em um homem só e idealista e o poder político, o dos meios de comunicação e o da massa. Fachin lembrou aos jornalistas a frase de Ibsen com que a peça se encerra: “O homem mais forte é o que está mais sozinho”. Poderia ter recordado também uma outra: “Quando uma verdade envelhece, ela se transforma em mentira”.

O que tudo isso tem a ver com o que vive o Brasil, com a polêmica em torno da Lava Jato, com as críticas à Justiça, com a corrupção, com a força que deve ou não ser conferida ao que pensa a maioria numérica simplesmente por sê-lo? O que significa essa força que o dramaturgo atribui à solidão daquele que abraça as causas que contrariam o poder? Será verdade que a democracia começa a se corromper quando se reduz tudo a porcentagens, a sondagens frias feitas para fazer crer que o que vale são os números e não as ideias das minorias que não se dobram e que lutam para revelar a injustiça?

Com sua provocação, de aconselhar os jornalistas a lerem Ibsen, Fachin colocou em pauta algo importante. Foi como se nos dissesse que, na corrida em busca da notícia, não deveríamos jamais esquecer de encontrar um tempo para ler e refletir, para mergulhar na literatura séria, a literatura das ideias, aquela que nos confronta com o nosso próprio ofício. Diante do ruído gerado por tanta notícia, diante de tantos interesses poderosos desafiados e da desinformação da massa, as obras de clássicos como Ibsen já antecipavam a pós-verdade e hoje nos colocam diante do paradoxo de que, como escreve o dramaturgo, “quando uma verdade envelhece, ela se transforma em mentira”.

Quais verdades estão envelhecendo e quais estão nascendo em meio à convulsão por que passa o Brasil neste momento? Fachin parecer querer lembrar que isso tudo também é de nossa responsabilidade, dos meios de comunicação que navegam conforme a moda ou o clamor da maioria, ou ainda, o que é pior, seguindo, como o personagem de Um inimigo do povo, aqueles que preferem continuar defendendo verdades que, por ter envelhecido, não passam agora de folhas mortas.

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