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VÍDEO | A bronca do procurador que calou Emílio Odebrecht: “Deixa de historinha”

“Essa história de doação de campanha é uma desculpa para se pedir propina”, disse Sergio Bruno

Não há cálculos oficiais, mas EUA dizem que lucro com corrupção foi de mais de 2 bilhões de dólares

Emílio Odebrecht se divertiu durante o depoimento que deu para a delação premiada na Operação Lava Jato. De língua afiada, o patriarca da empreiteira aparenta estar à vontade para mencionar sua inimizade com a ex-presidenta Dilma Rousseff: "Talvez você já deva ter percebido que eu não tenho toda essa simpatia porque ela [Dilma] era dona da verdade", diz, ao procurador. "Não tenho mesmo. Ela era pessimista em tudo". Depois, dispara contra outro ex-mandatário, Fernando Henrique Cardoso: "Fernando Henrique tem uma mão de muquirana muito forte", afirmou, rindo. E brinca várias vezes com o advogado, que chega a tentar contê-lo.

Até que o procurador que toma seu depoimento perde a paciência, não com as piadas, mas com o que julga ser uma tentativa do empresário de suavizar crimes e comportamentos, e decide repreendê-lo. "É o seguinte", diz o procurador Sergio Bruno Cabral Fernandes. "Vou ser bem honesto com o senhor: Servidor público, ele não pode pedir nada pra ninguém. Essa história de doação de campanha é uma desculpa para se pedir propina", afirma. Nesse momento, o senhor de 72 anos mais parece com um menino levando uma bronca dos pais. Fecha a cara. Fica em silêncio. Chega a baixar a cabeça, em um gesto de quem ouve um sermão. É um momento que destoa dos demais. Na maior parte dos vídeos vindos à tona até agora, são os delatores que dominam a narrativa e na maioria das vezes dizem que fazer atos ilícitos era a única forma de fazer negócios.

Aproveitando o silêncio do delator, que apenas consente, o procurador segue: "Não é possível que 300 milhões de reais pagos em seis anos seja doação de campanha, isso aqui na nossa visão é considerado propina e crime de corrupção". Didaticamente, Sergio Bruno argumenta que, ao contrário do caixa 2, a doação de campanha é uma prática amparada pela lei eleitoral. "Quem fez doação de campanha não precisa estar sentado aqui como colaborador", provoca. Na tese geral do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tanto o caixa 2 como doações legais podem ser apenas propina disfarçada oferecida ou exigida para fechar contratos, com ônus para os contribuintes brasileiros.

Sergio Bruno ainda afirma que mostrará ao delator o código penal para que ele saiba o que a lei entende como corrupção. "É só pra gente se situar e botar o pé no chão", diz o procurador. "São 300 milhões que foram gastos sei lá com que, ainda que fosse na campanha, com santinho, com tempo de televisão, com marqueteiro, que poderia ter sido construído escola, hospital, e todo esse Brasil que o senhor sonha e quer ver, esse dinheiro poderia estar lá", afirma. "Então vamos agora deixar de historinha, de conto de fadas e falar das coisas como elas são: Está na hora de a gente dizer a verdade de como a coisa suja é feita. Não é possível que um ministro da Fazenda fique pedindo dinheiro todo mês a um empresário", afirma, ao se referir a Antonio Palocci e Guido Mantega, ex-ministros da Fazenda de Lula e Dilma.

"Então vamos agora deixar de historinha, de conto de fadas e falar das coisas como elas são: Tá na hora da gente dizer a verdade de como a coisa suja é feita", diz o procurador a Emílio Odebrecht

O sermão é encerrado com uma pergunta ao delator, que até então contava o que sabia se justificando que a prática de corrupção no Brasil é sistêmica e acontece há mais de três décadas. "Por mais que a gente esteja acostumado com isso, isso não é o correto e o senhor sabe disso porque o senhor tem a visão dos Estados Unidos e da Europa", diz Sergio Bruno. "Lá, eu te pergunto, isso acontece?"

A bronca do procurador Bruno Sergio mudou a expressão e a postura do empresário e dono da maior empreiteira do Brasil. Depois de ouvir em silêncio o que o procurador tinha a dizer, Emílio Odebrecht ainda tentou se defender, afirmando que não teria levado nada em troca com os esquemas montados por sua empresa para pagar propina a políticos. "Primeiro, entendi o espírito da sua provocação", disse Odebrecht. "Segundo, é preciso entender: Eu tive algum benefício? Eu não tive". "Teve sim, senhor", diz o procurador. O grupo Odebrecht cresceu enormemente nos anos anteriores à Operação Lava Jato, que começou em 2014, e foi o último dos grandes construtores afetados pela investigação a concordar em fazer delação premiada - ao todo são 78 nomes, a maior da operação. Não há cálculos oficiais brasileiros, mas autoridades americanas calculam que o lucro da holding advindo dos negócios ilícitos ultrapassou os 2 bilhões de dólares (ou 6,28 bilhões de reais no câmbio atual). Nos depoimentos, fica evidente que a corrupção era parte do modelo de negócios do grupo, não só no Brasil. A megaempreiteira já havia protagonizado escândalos antes, como o dos Anões do Orçamento, em 1992.

No vídeo, o patriarca da Odebrecht afirma ainda que a corrupção praticada pela empresa ocorria por causa da burocracia brasileira, mas o procurador rebate: "O senhor está tentando justificar uma prática ruim, ilícita, com outra prática ruim, ilícita, que é a burocracia". Ao final do vídeo, Emílio Odebrecht muda o tom e diz ser "responsável por tudo". "A pior coisa para um homem é ele se sentir injusto e vocês estão me fazendo eu ficar desta forma. Porque eu tenho consciência que está errado, mas eu tenho consciência de que todos erraram", disse. "A começar por mim. Não salva ninguém". Afirma ainda que a Justiça tem o poder de mudar a corrupção sistêmica do Brasil, embora o "ambiente", que propicia a corrupção, também tenha que ser transformado. "Não vamos ficar só no corretivo. Temos que interferir para que o ambiente não propicie isso", diz Odebrecht. "[Senão] vai terminar quase que o país [todo] na cadeia. Haja cadeia".

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