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Marina Silva reaparece para disputar voto anti-Temer da esquerda

Mesmo sem se lançar oficialmente a 2018, ex-senadora dispara contra Temer, PSDB e PT

Faltando pouco mais de um ano para as eleições presidenciais de 2018, uma figura que andava desaparecida da política brasileira deu as caras no final de março após um longo período de aparente ostracismo. Marina Silva, ex-senadora e ex-ministra de Lula, fundadora do partido Rede Sustentabilidade, estrelou o programa institucional da legenda na TV (dirigido por Fernando Meirelles) que foi ao ar em 29 de março, e concedeu longa entrevista ao canal GloboNews um dia depois. Na sexta-feira, ela fez o discurso de abertura do evento Brazil Conference, em Boston, que reuniu Dilma Rousseff, o juiz Sérgio Moro e outras personalidades brasileiras. Desde a derrota nas urnas em 2014, a política acreana vem fazendo pronunciamentos apenas pontuais, a maioria pelas redes sociais. Durante os últimos anos, nos quais a Operação Lava Jato mergulhou Brasília em uma das maiores crises políticas da história do país, com nomes de quase todo o espectro partidário na mira da Justiça, e Dilma Rousseff sofreu impeachment, Marina se manteve relativamente fora dos holofotes. Agora a ex-seringueira partiu definitivamente para o ataque.

Marina Silva no programa eleitoral da Rede.
Marina Silva no programa eleitoral da Rede.

Ainda que tenha frisado nos EUA que ainda está "em processo de discernimento" sobre a candidatura de 2018, a porta-voz de Rede reapareceu após o período sabático disparando contra o Governo do presidente Michel Temer e sua agenda econômica neoliberal, bem como a reforma política em discussão no parlamento - "a reforma traz como resposta mais exclusão". Antes disso, havia aparecido timidamente, pedindo eleições diretas após a saída de Dilma, mirando o julgamento da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Mas o noticiário político tem dado munição de sobra para que a eterna presidenciável se posicione. Marina atacou as manobras do Congresso para se livrar das garras do Ministério Público Federal. “Chegou o tempo do combate à corrupção, a Lava Jato está fazendo uma reforma política na prática”, afirma Marina na propaganda da Rede. “A política está se tornando algo que não é interessante para quem apostava na impunidade para fazer corrupção, e vai ficar na política quem está para prestar um serviço à população”. Nenhum dos quatro deputados da Rede foi citado até o momento nas delações da operação.

O retorno da ex-senadora veio tarde na avaliação de especialistas e ex-colegas de partido. "Ela saiu completamente da conjuntura política após as eleições”, afirma o cientista político Leonardo Avritzer. “Ela não foi personagem importante durante o impeachment, ou quando o presidente Temer extinguiu ministérios e secretarias ligados a direitos. Uma consequência disso é que o eleitor não sabe qual a opinião dela sobre fatos cruciais”. Marina já havia sido acusada por ex-integrantes da Rede de não se posicionar a respeito das principais questões do momento. No final de 2016 um grupo de intelectuais debandou do partido afirmando em nota que “a sociedade brasileira não sabe o que pensa a Rede, nem consegue situá-la no espectro político ideológico”.

O sumiço de Marina durante um período crítico para o sistema político pode ter cobrado um preço do capital eleitora da candidata, pelo menos, por enquanto. Se no final de 2016 as pesquisas a colocavam liderando disputas de segundo turno contra o ex-presidente Lula e os tucanos Aécio Neves e Geraldo Alckmin, um levantamento de fevereiro mostra que o petista se recuperou, apesar de acossado pela Lava Jato. Apesar do baque momentâneo em sua popularidade, no entanto, Marina ainda é uma potência eleitoral, com um notável desempenho nas últimas eleições. Em 2014, após a trágica morte de Eduardo Campos, que encabeçava a chapa do PSB, ela assumiu a candidatura de frente e quase chegou ao segundo turno, apesar de toda a pressão emocional do momento. Logrou um honroso terceiro lugar, com mais de 22 milhões de votos – um incremento de 2 milhões com relação ao recebido em 2010, quando foi candidata pelo PV.

Se o capital político de Marina é grande, também o são os desafios de uma candidatura avulsa da Rede. Sem uma coligação com outros partidos o tempo de TV da candidata seria de poucos segundos, tendo em vista a pequena bancada de quatro deputados na Câmara. A aliança com outro partido parece, a priori, a única saída caso encare a corrida pela presidência. Se eleita, a ex-senadora se veria às voltas com um Congresso no qual a legenda não tem base significativa – 4 deputados e um senador –, o que dificultaria a governabilidade. 

Alguns correligionários, no entanto, defendem a conduta da ex-senadora. “Acho que a Marina está se posicionando no momento certo, se ela tivesse se posicionado antes seria visto como entrando na falsa polarização entre PT, PMDB e PSDB, e ela quer a ruptura deste modelo”, afirma o único senador do partido, Randolfe Rodrigues (AP). “A Marina está ocupando o espaço da Rede: um partido de centro esquerda, progressista e com sensibilidade social”. Para o parlamentar, a candidata é “retrato e síntese do povo brasileiro”. Nascida no “meio de um seringal no interior do Acre, forjada na luta política pela preservação da Amazônia, alfabetizada aos 14 anos, que venceu a intoxicação por mercúrio e o latifúndio”, afirma.

“O que aconteceu é que tentaram colocar a Marina à direita: o PT quer ter o monopólio da verdade e da esquerda no Brasil, mas isso já não é mais possível”

O líder da bancada da Rede na Câmara, João Derly (RS), aponta também a falta de um mandato como um impedimento para que Marina tenha mais visibilidade. “O Aécio Neves, por exemplo, é senador, tem o palanque, pode verbalizar sua opinião com mais facilidade”, afirma. "Por isso a opção pelo uso das redes sociais". De acordo com ele, a agenda de viagens e palestras da fundadora do partido é outra dificuldade para que ela tenha mais visibilidade. Derly afirma ainda que além de ter voltado aos holofotes, Marina também “está se aproximando mais da bancada para que nos posicionemos melhor, de forma afinada, enquanto partido”.

O discurso contra a corrupção pode render frutos à candidata. Com Lula réu em vários processos judiciais e o senador Aécio Neves (PSDB-MG) cada vez mais isolado entre os tucanos devido às delações da Lava Jato que o envolvem, Marina pode emergir como uma alternativa ao establishment nas urnas em 2018. “O PT, o PSDB, o PMDB, os grandes partidos da polarização que nunca se uniram em nome da nação agora estão unidos e convergentes nessa jogada de acabar com a Lava Jato”, disse ela na propaganda eleitoral. No ano passado vazaram trechos do depoimento do empreiteiro Leo Pinheiro, da OAS, segundo os quais Marina teria pedido contribuições de caixa 2 para sua campanha em 2010. Ao contrário de seus rivais, no entanto, ela não foi alvo de nenhum pedido formal de investigação por parte das autoridades, e adotou um discurso de defesa da operação: “A Lava Jato está sofrendo um golpe”, afirmou na TV.

Apesar de dizer que não é “nem oposição por oposição nem situação por situação”, o partido da ex-senadora tem batido de frente com o Governo Temer. “No programa eleitoral do PMDB não se falou de corrupção, nem Lava Jato. É como se a realidade passasse longe da cabeça dessas lideranças”, disse, fazendo referência ao primeiro escalão do presidente, que tem ministros citados por delatores.

Mas a oposição do partido ao Planalto não parou aí. A Rede protocolou no Supremo Tribunal Federal uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a Lei de Terceirização aprovada pela Câmara e sancionada pelo presidente Temer em 31 de março. “Ela fere todos os processos de respeito às leis trabalhistas (...) não há separação entre atividade fim e atividade meio, e isso leva a uma situação de precarização do trabalho”, afirmou Marina durante entrevista à Globo News. O projeto foi defendido pelo Governo como uma saída para a criação de empregos no país, mas foi duramente criticado por centrais sindicais.

O posicionamento mais à esquerda da candidata e do partido são “naturais”, segundo o senador Randolfe, o que indica que o partido deve disputar os eleitores que tradicionalmente votavam no PT. “O que aconteceu é que tentaram colocar a Marina à direita: o PT quer ter o monopólio da verdade e da esquerda no Brasil, mas isso já não é mais possível”, afirma o parlamentar. Para ele, “a Rede é um partido em formação”, e “é normal que a legenda, composta por várias matizes políticas, tenha uma fase de transição”.

A ofensiva contra Temer continuou: Marina criticou o projeto de reforma da Previdência enviado pelo Planalto e visto como tábua de salvação principalmente pelo czar da economia, o ministro Henrique Meirelles. “Não se pode estabelecer que pra você receber aposentadoria integral vai ter que contribuir por 49 anos ininterruptamente”, disse. E para fechar a fatura ela atacou a maneira como Temer encaminhou a Proposta de Emenda à Constituição que estabelece um teto nos gastos públicos por 20 anos. “O controle do gasto público é fundamental. Mas nós não iríamos fazer isso por PEC congelando orçamento por 20 anos: e se o país voltar a crescer? É preciso poder manejar essas realidades”, afirmou. Durante a campanha de 2014 a então presidenta Dilma Rousseff atacou os programa econômico de Marina - que entre outras coisas defendia a autonomia do Banco Central - por ser muito liberal.

No final da entrevista concedida à Globonews, Marina foi indagada sobre questões de gênero e orientação sexual. Em 2014 sua campanha foi duramente criticada por um dia após apresentar seu programa político, retirar do texto o apoio ao casamento gay bem como à criminalização da homofobia. De formação evangélica, a candidata é vista como conservadora nestas questões. Desta vez, porém, ela não tropeçou: “O Estado precisa ter políticas que respeitem a diversidade, as políticas públicas devem respeitar os direitos das pessoas independente de condição de gênero ou orientação sexual”, respondeu a candidata.

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