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COLUNA

Quem vem lá?!

Em meio ao vazio de lideranças políticas, entenda a disputa de candidatáveis ao Planalto

A menos de um ano e meio do início da propaganda visando as eleições de 2018, o Brasil vive um vazio de lideranças políticas. O presidente não eleito, Michel Temer, corre o risco de sequer terminar o mandato, já que existe a possibilidade da cassação, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da chapa em que foi eleito vice da ex-presidente Dilma Rousseff, por suspeita de abuso do poder econômico. Caso isso ocorra, ambos, Temer e Dilma, podem ficar inelegíveis por oito anos.

Fachada do Palácio do Planalto, Brasília.
Fachada do Palácio do Planalto, Brasília.

Mas, independentemente da decisão judicial, Temer não deverá disputar a reeleição no ano que vem. A reprovação a seu governo vem aumentando dia a dia, devido à sua incompetência em reverter os péssimos indicadores econômicos – o desemprego atingiu 13,2% entre dezembro e fevereiro e a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano, segundo o próprio Banco Central, recuou de 1% para 0,5%. Pesquisa Ibope, encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), mostra que 55% dos entrevistados consideram o governo Temer ruim ou péssimo (eram 46% em dezembro e 39% em outubro).

Ou seja, cassado ou não, Temer é carta fora do baralho – assim como Dilma. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em que pesem as ações que tramitam contra ele na Justiça nascidas da Operação Lava Jato, deverá ser mesmo o candidato do PT à sucessão de Temer. Mesmo que Lula seja julgado e condenado em alguma das ações, ele ainda poderá recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que provavelmente adiaria o resultado definitivo para uma data posterior às eleições. Lula aparece como favorito em todas as simulações. Na mais recente, encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), ele surge com 30,5% das intenções de voto, vencendo o segundo turno contra qualquer dos nomes avaliados – Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (Rede) ou Michel Temer (PMDB).

O ex-ministro Ciro Gomes titubeia em concorrer. Ele já declarou que a candidatura de Lula representaria um desserviço ao país, e que não sente “a menor vontade” de disputar a vaga com o petista. Mas também afirmou que, caso o PDT decida, será candidato para tentar expor suas ideias mantendo distância da “polarização simplória” que Lula representa. Ciro praticamente não é lembrado nas pesquisas espontâneas, mas consegue aglutinar 5% das intenções de votos nas pesquisas estimuladas, quando seu nome é apresentado ao eleitor.

O PSDB vive uma espécie de autofagia. O senador Aécio Neves, que aparece em depoimentos da Operação Lava Jato acusado de corrupção, deve ser obrigado a renunciar à postulação da vaga do partido. Assim, crescem as apostas no midiático João Dória, que surpreendeu a todos ao vencer a eleição para prefeito de São Paulo ainda no primeiro turno. Pesquisa do Instituto Paraná aponta-o como o candidato tucano à Presidência da República preferido dos paulistas – 32,5% dos ouvidos citam seu nome, 23,6% indicam Alckmin, 10,4% preferem José Serra e 7,1% querem Aécio.

Por enquanto, a disputa nos bastidores resume-se a Aécio e Alckmin, que surgem nas pesquisas mais ou menos com o mesmo número de intenções de votos, cerca de 10%, o que mostra que este eleitor votaria no PSDB, independentemente do nome do candidato. Resta saber se Alckmin, tido como liderança de alcance apenas regional, abriria mão de sua candidatura ou se o lançamento prematuro de Dória é tática diversionista.

Os outros dois candidatos com intenções de votos suficientes hoje para pensar numa disputa contra Lula, em um hipotético segundo turno, são Jair Bolsonaro (PSC) e Marina Silva (Rede), ambos bastante limitados em termos pessoais e de capacidade de angariar votos. Bolsonaro conta com o crescimento do eleitor de extrema-direita, mas seu discurso de ódio esbarra no caráter em geral conciliador dos brasileiros, e Marina luta contra a fragilidade de seu partido, que nas últimas eleições conseguiu eleger apenas um prefeito de capital, o de Macapá (AP).

Até o dia 15 de agosto do ano que vem, prazo limite para os partidos registrarem suas candidaturas, muita coisa pode acontecer, mas certamente não veremos a ascensão de um nome novo que possa combater efetivamente os males do Brasil, pois uma liderança se constrói ao longo do tempo, não emerge da noite para o dia. Nenhum dos nomes listados acima arrebata a paixão dos eleitores, com exceção de Lula. Para disputar o pleito contra o petista, muitos pensarão em um messias, tal qual um dia foram Jânio Quadros ou Fernando Collor. É bom recordar, no entanto, que messias sempre anunciam catástrofes: com sua irresponsável renúncia Jânio Quadros asfaltou a estrada para a ditadura militar em 1964 e Fernando Collor tornou a corrupção sistêmica em oficial.

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