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Banco Central acelera corte de juros após bom comportamento da inflação

Inflação cede em 2016 e fecha o ano em 6,29%. Copom intensificar corte e juros caem a 13% ao ano

Juros Inflação
Preço dos alimentos puxou a alta do IPCA em dezembro e no ano passado. EFE

Após a inflação brasileira chegar aos temidos dois dígitos em 2015, atingindo o patamar de 10,67%, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou em 2016 e fechou o ano em 6,29%. Foi a primeira vez, desde 2014, que o índice oficial ficou abaixo do teto da meta do Governo, de 6,5%, ou a taxa máxima que as autoridades econômicas julgam conveniente. O alívio nos preços também abriu mais espaço para o Banco Central (BC) acelerar o ritmo da queda da taxa de juros. Nesta quarta-feira, o Comitê de Política Monetário (Copom)  decidiu reduzir 0,75 ponto percentual da taxa básica de juros (Selic), que agora será de 13% ao ano. Este foi o terceiro corte seguido e pegou o mercado de surpresa, pois a maioria dos analistas apostavam em redução de 0,50 ponto. A decisão foi unânime.

No comunicado divulgado pelo Copom, o BC afirmou que chegou a cogitar um corte menor do juro, mas que a expectativa de queda da inflação, mais favorável que o esperado, permitiu uma redução mais agressiva.

Mais cedo, o presidente Michel Temer havia comemorado a desaceleração dos preços. Na avaliação do presidente, a queda do índice mostra que sua gestão está “no caminho certo”. Apesar da inflação no teto da meta em 2016 ser uma vitória em meio ao mar de indicadores ruins da economia brasileira, a forte queda na inflação no ano passado reflete principalmente a recessão que assola o país. O avanço do desemprego - que já atinge mais de 12 milhões de pessoas - , a queda das rendas das famílias e o crédito mais caro e restrito reduziram o ritmo do consumo e foram, consequentemente, os responsáveis pelo alívio nos preços. “Quantitativamente o resultado é bom, mas qualitativamente ela representa esse componente recessivo da economia e não uma melhora estrutural ”, explica o economista Otto Nogami, professor do Insper.

Para Rogério Mori, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EESP), a desaceleração dos preços deve ser comemorada, mas o ideal seria que o índice já tivesse finalmente chegado ao centro da meta, de 4,5%, diante de um cenário tão recessivo. “A inflação brasileira demorou muito tempo para ceder, só recuou nos últimos 4 meses. Agora precisa chegar aos 4,5%, pois já estamos há anos acima desse valor que parece ter sido esquecido. A meta é como jogar dardo, você tem que mirar o alvo, não a borda”, afirma.

A perspectiva da inflação para esse ano é boa, segundo o economista, uma vez que os preços devem continuar cedendo.A previsão é que o IPCA encerre 2017 em 4,81%, segundo estimativa do Boletim Focus do Banco Central, divulgado na segunda-feira. Caso essa trajetória de queda seja confirmada, os juros também devem reduzir ainda mais, até o fim do ano, o que poderia ajudar na retomada da economia brasileira. Ainda segundo a projeção do Focus, o juro básico da economia deve terminar 2017 em 10,25%.

"A queda dos juros traz um certo alívio para as pessoas endividadas, que pagam hoje taxas enormes. O Brasil só vai voltar a crescer quando as famílias brasileiras estiverem menos endividadas, elas representam dois terços da nossa demanda", explica o economista.

Alimentos e bebidas: os vilões de 2016

No último mês de 2016, a inflação avançou 0,3%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O grande vilão de dezembro e de todo o ano passado, que impediu uma desaceleração dos preços ainda maior, foi o grupo dos alimentos e bebidos, cujo aumento de 8,62% no ano gerou 2,17 pontos percentuais de impacto na inflação. A alta nos alimentos foi influenciada principalmente pela queda da produção agrícola, que ficou 12% abaixo da colhida em 2015.

Os preços relativos a saúde e cuidados pessoais também pressionaram o IPCA de 2016. De 9,23% em 2015, a variação passou para 11,04% no ano seguinte, puxada principalmente pela a alta dos planos de saúde no país. Na outra ponta, o grupo Habitação apresentou queda de 0,59%nos preços, depois de subir 0,30% em novembro na comparação mensal.

Apesar do IPCA oficial ter ficado abaixo do teto da meta, ele rompeu a barreira dos 6,5% em sete das 13 regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE. O maior resultado foi registrado em Fortaleza, onde a inflação chegou a 8,34% em 2016, seguida por Campo Grande (7,52%), Recife (7,10%), Porto Alegre (6,95%), Belém (6,77%), Salvador (6,72%) e Belo Horizonte (6,60%). 

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