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40 anos depois, Netflix terminará filme inacabado de Orson Welles

Plataforma vai restaurar e lançar ‘O Outro Lado do Vento’ em ‘streaming’ mundial. Cineasta escreveu e dirigiu o filme nos anos 1970

esquerda para a direita, John Huston, Orson Welles e Peter Bogdanovich na filmagem de ‘O Outro Lado do Vento’. Ampliar foto
esquerda para a direita, John Huston, Orson Welles e Peter Bogdanovich na filmagem de ‘O Outro Lado do Vento’.

Quem diria a Orson Welles que um dia estrearia um filme em streaming? O legado do diretor continua dando o que falar: depois da descoberta quase arqueológica, em 2013, do seu primeiro filme, Too Much Johnson (1938), agora é sua última produção, a inacabada sátira de Hollywood The Other Side of the Wind (O Outro Lado do Vento), que vem à luz. Mas o que mais chama a atenção é que a odisseia cinéfila para a sua estreia, iniciada por um dos produtores, Frank Marshall, tenha terminado com o surgimento de um salvador inesperado: a plataforma online Netflix, que anunciou a compra dos direitos globais do filme na terça-feira e se encarregará de completá-lo e restaurá-lo.

“Mal posso acreditar, mas depois de 40 anos tentando estou verdadeiramente agradecido porque a paixão e a perseverança do Netflix nos permitiram, enfim, chegar à sala de montagem e terminar o último filme de Orson Welles”, explicou Marshall, ainda perplexo, em um comunicado da empresa.

Welles escreveu e dirigiu nos anos 1970 o que seria seu canto de cisne, uma espécie de colagem vanguardista de traços claramente autobiográficos. Contava de forma irônica a história de um grande diretor que prepara sua volta a Hollywood depois de um prolongado exílio europeu (como o seu) e colocou no projeto nomes importantes como Peter Bodganovich, Claude Chabrol, Lilli Palmer, Edmond O’Brien, Dennis Hopper e Norman Foster. Para interpretar seu sósia, chamado de Jake Hannaford, convidou ninguém menos que John Huston. A fita misturava texturas de imagens gravadas com câmeras de cinema e com câmeras não profissionais.

A produção do filme, como tantas outras de Welles, foi um caos. Sua nacionalidade, como informa o Internet Movie Database, era meio francesa, meio iraniana, mas ele produziu principalmente nos Estados Unidos. Após seis anos de filmagem, o projeto acabou sendo cancelado e se tornou um título maldito, objeto de várias tentativas de ressurreição, sempre lideradas por Marshall junto com outro produtor, Filip Yan Rimsza, e com o também diretor e historiador de cinema Bodganovich. Assim, apesar de ter sua estreia anunciada em 2011, o filme esbarrou em problemas de direitos de propriedade intelectual que só foram resolvidos em 2014. Então, surgiu uma campanha otimista do Indie GoGo que pensou em mobilizar milhares de cinéfilos altruístas para lançar o título, mas não alcançou os recursos necessários, pois conseguiram apenas 400.000 dos dois milhões de dólares (6,3 milhões de reais) que precisavam.

Agora, depois de três anos de silêncio administrativo, a onipotente Netflix chega para o resgate. E não é sua primeira incursão no cinema. Acaba de anunciar também que assume os 125 milhões de dólares (395 milhões de reais) que custará o novo projeto de Martin Scorsese, The Irishman. Apesar de a STX, distribuidora do filme, ameaçar com ações legais contra o acordo entre o gigante do streaming e o produtor Gaston Pavlovich. Segundo a revista Variety, a STX afirma que detinha os direitos para a venda fora dos Estados Unidos e já havia fechado acordos para vários países. E isso, evidentemente, contrasta com a estreia global, online e simultânea que o Netflix costuma lançar.

Com o projeto de Welles, a empresa reforça sua agressiva campanha na Sétima Arte, apropriando-se desse trecho da história do cinema e acrescentando ao currículo cinematográfico do mítico diretor mais um título, que será oferecido de maneira exclusiva aos 93 milhões de usuários da plataforma. Promete fazê-lo de maneira respeitosa, pois Marshall, Rimsza e Bogdanovich continuam à frente. Ou seja, o projeto conta com os sobreviventes da equipe original.

Para quem cresceu admirando a visão e a arte de Orson Welles, é um sonho que se torna realidade”, explica no comunicado oficial o diretor de conteúdo da empresa, Ted Sarandos. “A promessa de levar ao mundo esse trabalho inacabado de Welles com suas verdadeiras intenções artísticas intactas é motivo de orgulho para mim e para o Netflix. Cinéfilos do mundo todo poderão experimentar de novo e pela primeira vez a magia de Orson Welles”, acrescenta.

Welles morreu em 1985, mas apesar de não ter podido lançar seu último dardo contra o cinema, na fase final de uma carreira sempre inquieta não deixou de ironizar sobre o mundo da criação, especialmente em seu falso documentário Fraude (1973), sua última grande inovação cinematográfica em uma carreira que começou desafiando o mundo com a narração radiofônica de A Guerra dos Mundos em 1938 e termina agora, em 2017, com uma estreia póstuma na Internet. Um arremate surrealista em que ecoam as palavras de Welles ao jornalista Michael Parkinson em 1974, dando sua opinião sobre o cinema como indústria: “O verdadeiro processo industrial não pode ser tão atabalhoado nem tão estúpido como o mundo do espetáculo. Se fosse assim, cada carro que compramos quebraria depois de rodar duas quadras. Recuso-me a pensar que o resto do mundo seja tão estúpido como nós”.

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