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A virada apoteótica do Barça sobre o PSG

Barcelona reverte o resultado de Paris, numa eliminatória em que Neymar brilhou

Jogadores do Barcelona comemoram o sexto gol do time.
Jogadores do Barcelona comemoram o sexto gol do time. Getty Images

Et voilà!

Impitoyable Barça, poderá titular novamente o L'Équipe nesta quinta-feira, repetindo a designação de “impiedoso” que o jornal francês já atribuiu ao Barcelona ao ganhar a Champions League de 2006 em Paris. Na noite desta quarta, o time catalão transformou o 4 x 0 do jogo de ida contra o PSG, em Paris, numa mera curiosidade, contrabalançada pelo 6 x 1 no Camp Nou. Nunca na história da Champions um time havia revertido um placar negativo como o do Parque dos Príncipes. Tal honra cabe aos azuis-grenás, que por duas vezes se impuseram ao PSG. Os franceses se sentiram duplamente vencedores, primeiro na sua linda cidade, e depois em Barcelona, quando Cavani deixou o placar em 3 x 1. Algo inaudito, seja no campo do Barça ou em qualquer outro lugar da Europa.

O encontro foi marcado por um antes e depois do gol do camisa 9 uruguaio do PSG. Houve um momento, quando Messi fez 3 x 0 de pênalti, que superar a eliminatória parecia a coisa mais fácil do mundo, graças à homérica mobilização do Barcelona. Faltava, entretanto, muito tempo para apreciar a partida e para pensar numa jornada que, depois do fiasco de Paris, todos já sabiam que seria sem pausas nem margem de erro. Mas então o tento de Cavani abriu uma nova luta, igualmente apaixonante por seu trecho final, após uma longa trégua arrematada por três gols fecundados pela fé do incansável Neymar.

O protagonista foi o brasileiro, grandioso do começo ao fim, e o herói acabou sendo Sergi Roberto, que marcou o 6 x 1 no último minuto, na jogada final, na cobrança de uma falta sobre Ter Stegen, que em duas jogadas ensaiadas subiu até a área de Trapp. O risco foi premiado, assim como foi castigada a especulação do PSG, cujos jogadores saíram de campo insatisfeitos, furiosos com o árbitro, acusando-o de ter deixado de marcar três gols, sendo dois em Di María. Impossível pedir racionalidade numa refrega ensandecida, desabalada e épica, nunca vista no Barça moderno antes da chegada de Luis Enrique.

O Barça atacou sem parar sempre que pôde, com os 11 jogadores alucinados, mas ao mesmo tempo ordenados a partir do revitalizante 3-4-3, agora sem um jogador de articulação como Sergi Roberto. O jovem volante perdeu lugar numa escalação inicial sem laterais, tomada por jogadores especialistas em ir e voltar (Rakitic) ou graduados, ainda que um ou outro saindo de lesões sérias (Mascherano e parcialmente Iniesta), e arrematada por Rafinha, um falso ponta-direita, para abrir o flanco e fixar a defesa do PSG. Nada a ver com o plano de Paris. O Barça fez cara de ganhador desde que entrou no colorido e enfurecido Camp Nou.

O Barça atacou sem parar, com os 11 jogadores alucinados, mas ao mesmo tempo ordenados a partir de um revitalizante 3-4-3

A determinação azul-grená contrastou com o recolhimento da equipe de Emery, interessado em que o jogo de Barcelona fosse uma continuidade da partida de ida. Apesar de ter deixado Di María na reserva, o técnico queria perseverar na ideia de procurar, com Lucas Moura e Draxler, o ângulo morto barcelonista, o espaço que sobra nas costas de Busquets e à frente dos zagueiros, aquela zona cega que não aparece nos retrovisores e que provocou o 4 x 0.

Os pontas, porém, se recolheram para perto dos laterais, permitindo a intimidadora ocupação de espaços azul-grená, capazes de ganhar uma bola morta na área de Trapp e abrir o placar numa cabeçada de Luis Suárez logo depois do pontapé inicial. A intensidade e a pressão do Barça causaram um estrago no PSG, também na contenção, reiterativo nas faltas quando os franceses pretendiam puxar a transição com Lucas Moura.

Barcelona PSG
Neymar marca de pênalti. Getty

A única saída dos franceses acabou com uma mão de Mascherano que o árbitro não puniu com pênalti, apesar das queixas do PSG. Os detalhes costumam jogar a favor da equipe da casa quando o visitante joga com um 4 x 0 no bolso. Ocorrem com frequência situações insuspeitadas, algumas inéditas, como que Iniesta brigue pela bola como se fosse Luis Suárez e provoque o pasmo de Marquinhos e a falha de Kurzawa. O virtuoso Barça nunca havia marcado dois gols tão feios num jogo tão importante, ditado pela intimidação e pelo esforço coletivo, e também pelo arrebatamento do excelso Neymar.

O PSG teve uma espécie de ataque de pânico, porque não entendia como tinha levado dois gols se mal havia cedido espaços para que os barcelonistas armassem o chute e, sobretudo, se haviam anulado Messi. Assim que Emery tentou se corrigir, no momento em que mandou pressionar, o PSG levou o terceiro. Messi converteu o pênalti de Meunier em Neymar, que o árbitro apitou depois de consultar o juiz de linha do gol norte do Camp Nou.

O Barça recuperou a esperança a partir de Neymar. Acendeu estádio e arrebentou o PSG

Nem o mais reputado roteirista poderia ter desenhado uma partida melhor para o Barça. A virada parecia tão cantada depois que Cavani acertou a trave que o time e o Camp Nou relaxaram. Já o uruguaio não parou: caçou um rebote na área e marcou o único gol do PSG na noite, 3 x 1. Graças à bola parada, o time francês remediou suas disfunções e decompôs o Barça, esgotado também pelo esforço, cada vez menos agressivo, abalado pela forma como a virada havia estado tão fácil e como afinal havia sido simples o gol de Cavani.

Uma segunda virada, depois de roçar a primeira, já parecia esperar demais. O Barça, entretanto, ao invés de se dar por vencido, se recuperou a partir de Neymar, prodigioso numa cobrança de falta, correto na cobrança de um pênalti forçado por Luis Suárez, dando início aos cinco minutos finais de loucura que culminaram no gol de Sergi Roberto, após uma falta cometida em Ter Stegen e batida por Messi. Neymar incendiou o Camp Nou quando alguns torcedores já estavam indo para o carro, resignados, mas ao mesmo tempo felizes com a coragem dos seus jogadores, derrotados e também ganhadores, contentes com o Barça.

O PSG desmoronou aos 43 do segundo tempo, quando levou o quarto gol, que abriu o caminho para a explosão do Barça. O time da casa se inflamou e a torcida iluminou o gramado com suas expressões de assombro, todos juntos em busca do quinto e do sexto, que chegou como o de Iniesta no Stamford Bridge, o de Bakero contra o Kaiserslautern, o de Pizzi na Copa do Rei na época de Robson. O gol fez a memória culé rebobinar, mas a verdade é que ninguém se lembrava de uma noite tão épica e feliz como a desta quarta no Camp Nou. Se tudo havia dado errado para o Barça em Paris, em Barcelona tudo veio a calhar.

Que ninguém aposente o Barça por enquanto. Não se sabe se ganhará troféu algum, mas ninguém duvide de que é capaz de protagonizar jogos únicos na história do futebol europeu.

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