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Governo Trump estuda separar de suas famílias as crianças que atravessarem a fronteira ilegalmente

Secretário de Segurança Interna argumenta que a medida visaria a desestimular a imigração irregular

Donald Trump
Pedaço de um resto de tapete utilizado por imigrantes para calçar os pés na fronteira com o México, em Lukeville (Arizona). AFP

Uma criança que entre nos Estados Unidos ilegalmente junto com seus pais poderia ser separada deles, se isso fosse descoberto pela polícia da fronteira. O Governo de Donald Trump estuda implementar essa medida, como mais um exemplo da estratégia do presidente republicano de adotar uma política de linha dura contra a imigração ilegal. “Para impedir mais movimentação nessa rede terrivelmente perigosa, estou avaliando exatamente isso”, admitiu nesta segunda-feira o secretário de Segurança Interna, John Kelly, em entrevista à rede CNN.

Com essa nova medida, as autoridades norte-americanas poderiam manter os pais sob custódia enquanto estes recorrem de seu processo de deportação ou entram com pedido de asilo. Os filhos ficariam sob os cuidados de serviços sociais enquanto se buscariam algum parente ou alguma família que quisesse acolhê-los. “As crianças seriam bem tratadas enquanto cuidássemos de seus pais”, explicou Kelly.

Hoje, pais e filhos podem ficar juntos até três semanas sob a custódia das autoridades, e também permanecer nos EUA até que o caso da entrada ilegal no país seja resolvido. A Justiça decidiu, em julho do ano passado, que as crianças deveriam ser liberadas o mais cedo possível, mas não determinou que os pais também o fossem. Para aplicar a decisão, o Governo de Barack Obama definiu que pais e filhos não poderiam passar mais do que 21 dias em um centro de detenção de imigrantes.

A mudança em estudo pela Administração Trump se dá em um momento em que esse tipo de imigração irregular está em seu auge. Entre outubro último e janeiro deste ano, cerca de 54.000 crianças e seus pais foram detidos pela polícia de fronteira norte-americana, quantidade mais do que duas vezes superior à do mesmo período do ano anterior, segundo estatísticas mencionadas pela agência Reuters. Em 2014, os EUA receberam uma onda de menores de idade centro-americanos que viajaram ao país desacompanhados.

Ainda como candidato à Casa Branca, Trump criticou a política em vigor, descrevendo-a como “deter e liberar”. Alguns políticos republicanos argumentam que muitas mulheres levam os filhos juntos em sua odisseia entre a América central e a fronteira norte-americana porque sabem que, se forem pegas, ficarão detidas por pouco tempo.

Na entrevista, Kelly insistiu nesse ponto. “Eu faria quase qualquer coisa para dissuadir as pessoas da América Central de entrarem nessa rede muito perigosa que os leva até o México e os Estados Unidos”, disse ele, referindo-se aos agentes que apoiam e muitas vezes abusam dos imigrantes em seu périplo rumo aos EUA em troca de um alto ganho financeiro. O ex-general, velho defensor da linha dura em matéria de imigração, disse que os serviços sociais têm uma “enorme experiência” no tratamento de menores desacompanhados.

O Partido Democrata e diversas organizações sociais avaliam que a separação de pais e filhos poderia atentar contra os direitos humanos e gerar traumas psicológicos permanentes. Questionado, na entrevista, se tinha consciência do quanto essa medida poderia afetar a imagem pública do país, Kelly respondeu: “O mais importante, para mim, é tentar afastar essas pessoas dessa rede terrível”.

Em seu primeiro mês na Casa Branca, Trump gerou pânico entre os 11 milhões de imigrantes em situação irregular que se calcula haver nos EUA. Há duas semanas, o Departamento de Segurança Interna divulgou novas normas que abrem portas para que se realize a deportação de quase todos os imigrantes sem documentos.

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