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Monica de Bolle: “Trump pode até impedir que BC siga cortando os juros no Brasil”

Para economista do Peterson Institute, guerra comercial entre EUA e China pode ter reflexos no país

Monica de Bolle, economista e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics. Divulgação

A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington, acredita que a chegada de Donald Trump à Casa Branca não deve afetar a relação bilateral entre os Estados Unidos e o Brasil, que continuará ocupando um espaço periférico na política americana. Bolle alerta, no entanto, que a promessa do republicano de cortes de impostos em um cenário econômico já aquecido pode acelerar a inflação na maior economia do mundo, trazendo reflexos negativos para o Brasil. 

Pergunta. Quais serão os principais efeitos da chegada de Donald Trump à Casa Branca para a economia brasileira?

Resposta. Ainda há muitas dúvidas sobre como o Governo de Trump irá atuar, mas uma coisa parece certa: ele adotará políticas fiscais mais expansionistas. Há uma perspectiva de um corte bastante expressivo de impostos principalmente para as empresas, mas não há clareza de como isso vai ser financiado ainda. A economia americana, no entanto, já está aquecida e com essa expansão fiscal provavelmente haverá uma tendência de alta de inflação. A questão é o que o Federal Reserve (Fed) - o Banco Central dos EUA - vai fazer em meio a isso. Tudo indica que ele será mais agressivo do que tem sinalizado. As taxas de juros vão subir com mais intensidade e o dólar vai ter uma valorização adicional. Os mercados ainda não precificaram completamente os efeitos dessas políticas expansionistas do Trump. Se esse for mesmo o cenário, essas ações terão reflexos importantes no Brasil, principalmente nesse momento em que o Banco Central (BC) do Brasil resolveu finalmente reduzir os juros de forma mais agressiva. Se de fato o Fed aumentar os juros e o dólar se valorizar, o quadro inflacionário brasileiro pode não ser tão favorável como o de agora. O que provocaria uma turbulência grande no país, podendo até impedir que o BC continue cortando os juros. Isso seria péssimo para a retomada da economia brasileira.

P. O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou as expectativas de crescimento do Brasil para baixo em meio às incertezas do Governo Trump...

R. Exatamente. Há dois níveis de incerteza. O primeiro nível é o quão expansionista vão ser as políticas de Donald Trump e como isso se reflete no mercado brasileiro em política monetária. O segundo é essa retórica inflamada a respeito do comércio e do protecionismo. Provavelmente, pelas pessoas que foram indicadas para chefiar determinadas áreas aqui no Governo americano, elas refletem exatamente o que Trump disse sobre o tema na campanha. O que podemos esperar é um quadro de muita incerteza e turbulência em relação ao papel dos Estados Unidos no mundo: como a política protecionista irá afetar o Nafta, as relações com o México, qual será a postura dos EUA diante da China, se vai haver ou não uma tentativa de impor tarifas sobre produtos chineses. Se isso acontecer haverá retaliação da China... Existe essa perspectiva nada desprezível de uma guerra comercial com a China, o que certamente é muito turbulento para o mundo inteiro. Nesse contexto, os países que estão mais vulneráveis, como o Brasil, sofrem mais.

P. Uma retaliação da China aos EUA poderia de alguma forma ser benéfica ao comércio da China com o Brasil?

R. De imediato não. Isso pode até acontecer em longo prazo, mas agora de imediato será uma turbulência para o mundo inteiro. Depois que as coisas se adequarem a esse novo normal, talvez o Brasil tenha um caminho para se beneficiar disso. Mas no primeiro momento não tem benefício pra ninguém. A perspectiva para o Brasil vulnerável é muito ruim.

P. Em relação ao comércio do Brasil com os EUA, você acredita que Trump poderia adotar alguma medida protecionista contra produtos brasileiros?

R. Não, a relação bilateral dos dois países deve continuar a mesma de hoje. Não vejo muita mudança. Algumas pessoas até acreditam que a relação pode ficar melhor já que o Brasil tem um déficit expressivo com os Estados Unidos, portanto, na visão de Trump, o Brasil é um país amigável, já que a gente compra muito dos EUA e não o contrário. Até é possível, acho que pode haver alguns avanços pontuais em áreas de facilitação de comércio, coisas setoriais que podem se concretizar. Porém, isso não muda substancialmente o quadro para o Brasil, que continua muito complico. E não vai haver nenhuma mudança contundente da administração dos EUA em relação a América Latina ou Brasil. A região tem ficado fora do radar das autoridades americanas já há muito tempo. Ficou completamente fora do radar no Governo de Barack Obama. Teve alguns gestos em relação a Cuba que foram importantes, mas, na prática, em termos de relações comerciais propriamente dita não houve. Fora os países que já têm algum tipo de acordo comercial com os EUA, não houve avanço sobre a região.

P. Trump inclusive já declarou que os EUA deixarão a Parceria Transpacífica (TPP)...

R. Sim, com a perspectiva que não haja mais o TTP, o Chile e o Peru, que participavam do bloco, tampouco terão alento. Se já havia uma percepção que os Estados Unidos não se importam muito com a América Latina, agora essa percepção está ainda mais forte, o que consequentemente não permite criar uma perspectiva muito otimista sobre a relação dos EUA com o Brasil. No prazo imediato, que é 2017, que é o ano que o Brasil precisa tentar algum tipo de recuperação na economia, não vejo nenhuma força positiva que venha do Trump. A melhor hipótese é que ele seja neutro para o Brasil e na pior ele vai ser mais um ponto negativo para recuperação econômica.

P. Você já chegou a fazer uma comparação entre a Dilma e Trump. As políticas deles são semelhantes?

R. Sim, tenho analisado certo paralelo entre o populismo do Trump e o populismo latino-americano, principalmente o que vimos no Governo Dilma e no de Nestor Kirchner, na Argentina. Há paralelos interessantes. Essa prática do Trump de microgerenciar decisões empresariais, como a que ele fez ao falar que a General Motors não poderia colocar uma fábrica no México e tentando influenciar esse tipo de decisão, é um tipo de dirigismo que, para nós, é muito familiar. A gente fez isso no Brasil e Argentina também. Outro paralelo é a área fiscal. No Governo Dilma, soltamos as rédeas da política fiscal e deu no que deu. Se nos EUA as coisa também forem para o lado fiscal imprudente você tem outro paralelo. Lembrando que a retórica do Trump para justificar as medidas é Make America grater again (Fazer a América grande de novo) . Isso é um slogan totalmente populista. A forma dele falar é igual, simples, para pessoas comuns, prometendo ajudar a classe trabalhadora. Tudo isso em conjunto é muito sugestivo se lembramos das ações que vimos nos anos Dilma. Acho que a comparação vale.

P. Acredita que Trump pode adotar um tom mais moderado ao chegar à Casa Branca?

R. Ele é o Trump da campanha, não é outra pessoa. A dúvida é como as instituições vão responder a política dele. Trump toma posse com o maior nível de desaprovação dos últimos vinte anos, o que o enfraquece perante o Congresso, ainda que a casa seja republicana.Tem um nível de tensão não desprezível entre ele e o Congresso republicano.É preciso lembrar que, em 2018, a Câmara se renova por inteiro e um terço do Senado também. Não é  impossível que o Congresso tenha um embate frontal com o Trump, ainda mais se as promessas de campanha não resultarem no que ele prometeu. Se o eleitorado dele começar a reclamar, o Congresso vai reagir e vai ser um fator de turbulência para o mundo e para o Brasil.

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