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Era Doria começa com prefeito e secretários vestidos de garis

Novo prefeito de São Paulo reforça símbolos de campanha e empurra Alckmin para a Presidência

Tudo o que João Doria ofereceu aos convidados de sua posse como prefeito de São Paulo, neste domingo, foi água. Em tempos de vacas magras, com estados em situação de calamidade financeira declarada, a ausência do tradicional coquetel é compreensível e até banal. Mas, nas mãos do homem que assume a cidade de São Paulo, a simplicidade ganha ares grandiosos. "Austeridade", resumiu Doria, ao pedir desculpas aos convidados que lotaram o Theatro Municipal — palco de posse pela primeira vez, como "manifestação de respeito à cultura" — e, desavisados, poderiam estar esperando por um banquete. É gastando pouco e trabalhando muito que o novo prefeito promete "colocar São Paulo nos trilhos".

Doria cumprimenta Haddad sob a aprovação de Geraldo e Lu Alckmin.
Doria cumprimenta Haddad sob a aprovação de Geraldo e Lu Alckmin. ESTADÃO CONTEÚDO

Se o símbolo da austeridade é a água, o do trabalho será o uniforme de gari que o prefeito promete vestir nesta segunda-feira junto com todo seu secretariado. Todos estarão "de vassoura na mão" às 6h da manhã, anunciou Doria, que reforçou a promessa de priorizar os mais humildes e os mais pobres em sua gestão. O prefeito disse que já pediu desculpas adiantadas às esposas de seus secretários, pois eles vão ter de trabalhar muito. Ele pondera que seus subordinados terão a vantagem de perder peso sem precisar pagar para tanto.

Durante seu discurso de posse, o novo prefeito reforçou a ênfase em palavras que lhe renderam a vitória no primeiro turno em outubro, com 53% dos votos, como eficiência, modernização, descentralização, trabalho e gestão. "Será um governo capaz de ouvir a opinião de todas as pessoas. Governaremos para todos, os que nos elegeram e os que não nos elegeram. Será uma gestão conciliadora”, discursou. Doria ainda se preocupou em dizer, provocado pelo governador de São Paulo e fiador de sua candidatura, Geraldo Alckmin, que não nega a política, apesar de ter passado toda sua campanha destacando o fato de não ser político.

Por falar em Alckmin, o governador prometeu se inspirar na mítica dupla santista Pelé e Coutinho para fazer "tabelinhas" com Doria — a primeira parece ter sido o congelamento do preço das passagens no Estado — e classificou o prefeito como um "otimista racional". Em retribuição, o governador recebeu de seu protegido mais um empurrãozinho rumo à provável candidatura presidencial em 2018. "Vamos colocar São Paulo nos trilhos. E, com Alckmin, colocar o Brasil nos trilhos", discursou o prefeito de São Paulo, que fez as tradicionais referências tucanas aos bastiões do partido André Franco Montoro — ex-governador de São Paulo a quem Doria atribui sua entrada na política — e Mario Covas — outro ex-governador do Estado e avô do agora vice-prefeito Bruno Covas.

Um dia após a posse, João Doria se vestiu de Gari e começou a segunda-feira varrendo um trecho da avenida Nove de Junho, no centro de São Paulo.
Um dia após a posse, João Doria se vestiu de Gari e começou a segunda-feira varrendo um trecho da avenida Nove de Junho, no centro de São Paulo. FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Sobraram deferências até para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que apoiou Andrea Matarazzo contra Doria nas prévias do PSDB à prefeitura. FHC não foi à cerimônia de posse, mas, segundo o novo prefeito, enviou-lhe uma "mensagem carinhosa por WhatsApp" desde um país estrangeiro que Doria não soube apontar com precisão. Também não faltaram elogios ao agora ex-prefeito Fernando Haddad, que proporcionou ao sucessor uma "transição solidária" que, segundo Doria, servirá de referência para futuros gestores públicos.

Em sua intervenção, Haddad — que, ainda no clima da simbologia, usava uma gravata presenteada por Doria — chamou São Paulo de "cidade eletrizante" e destacou as "ondas migratórias" que têm trazido estrangeiros de Bolívia, Haiti e Síria para a capital paulista. O ex-prefeito petista ressaltou ainda que entrega ao sucessor uma cidade com as finanças saneadas e com apenas um terço da dívida que ele herdou ao assumir em 2011.

Finalizada a festa, os símbolos e discursos que levaram João Doria ao comando de São Paulo começarão a ser testados. Como se tornou comum na cidade, as chuvas de janeiro chegarão como o primeiro teste — antes mesmo de assumir, o prefeito anunciou uma Operação Chuva de Verão, plano por meio do qual pretende prevenir os prejuízos causados pelas enchentes.

Outro teste de fogo será o prometido aumento da velocidade nas rodovias marginais. A partir de 25 de janeiro, as velocidades máximas voltam para 90km/h (expressa), 70km/h (central) e 60km/h (local). Durante o período em que as velocidades foram reduzidas nessas vias, o número de acidentes fatais registrado caiu 52%. Se os óbitos voltarem a aumentar após a elevação das velocidades, o símbolo para o prefeito não será nada bom.

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