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Primeiro-ministro japonês chega a Pearl Harbor para reforçar a aliança com os EUA

Gesto realça a aliança com os EUA ante a ascensão da China e nas vésperas da chegada de Trump

O primeiro-ministro japonês Shigeru Yoshida visitou Pearl Harbor em agosto de 1951, dez anos após o ataque.
O primeiro-ministro japonês Shigeru Yoshida visitou Pearl Harbor em agosto de 1951, dez anos após o ataque. AP

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, irá nesta terça-feira a Pearl Harbor, a base naval norte-americana no Havaí que o Japão atacou em dezembro de 1941, precipitando a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. A visita de Abe, que estará acompanhado do presidente Barack Obama, tem um elevado conteúdo simbólico. Em maio, Obama esteve em Hiroshima, a cidade japonesa onde os EUA lançaram a primeira bomba atômica, em agosto de 1944. Em Pearl Harbor, Abe, como Obama em Hiroshima, não prevê pedir perdão.

Para Obama, que fez da memória histórica e da admissão dos erros norte-americanos uma ferramenta em sua política externa, receber Abe em seu Havaí natal é o epílogo de uma presidência que esgota seus últimos dias. O presidente tentou durante estes oito anos redirecionar para a Ásia as prioridades geoestratégicas da primeira potência, e neste esforço a aliança com o Japão é a pedra angular.

O significado da visita vai além do dever da memória. Para Abe, é um gesto que consolida a aliança de quase sete décadas com os Estados Unidos diante da ascensão da China.

Abe foi o primeiro chefe de Governo estrangeiro a reunir-se com Donald Trump depois da vitória dele nas eleições de 8 de novembro. Em 20 de janeiro os EUA terão um presidente que chega ao poder com a bandeira do nacionalismo e que pôs em dúvida algumas das alianças do país.

"Vocês sabem que temos um tratado com o Japão e, se o Japão for atacado, nós temos que usar toda a força e o poder dos Estados Unidos”, disse Trump durante a campanha eleitoral. “Se nós formos atacados, o Japão não tem que fazer nada. Podem ficar em casa vendo um televisor Sony, de acordo?"

Primeiro-ministro japonês chega a Pearl Harbor para reforçar a aliança com os EUA

Depois da visita de Obama a Hiroshima, o então candidato Trump escreveu na rede social Twitter: “O presidente Obama fala alguma vez do pérfido ataque a Pearl Habor enquanto está no Japão? Milhares de vidas americanas perdidas”.

Abe não será o primeiro primeiro-ministro japonês a visitar Pearl Harbor, mas o primeiro a fazê-lo de forma pública e oficial, e com parada no memorial. Em 1951, seu antecessor Shigeru Yoshida esteve na base. Nos últimos dias foram documentadas outras duas visitas na mesma década dos primeiros-ministros Ichiro Hatoyama e Nobusuke Kishi. Kishi é avô de Abe. Nos três casos foram visitas pouco divulgadas.

A visita de Yoshida, somente seis anos depois do fim da guerra, foi incômoda, segundo relatou em suas memórias From Pearl Habor to Vietnam (De Pearl Harbor ao Vietnã) o almirante Arthur Radford, encarregado de recebê-lo no Havaí. Radford conta que em boa parte da visita a seus escritórios em Pearl Habor os dois se dedicaram a falar de Mackie, o cachorro do almirante.

“Anos mais tarde, escreve Radford, “em uma conversa com a senhora Radford, o primeiro-ministro explicou como se sentiu mal ao chegar ao meu quartel naquela manhã e descobrir que visitava Pearl Harbor. O motorista civil que o havia conduzido parecia decidido a fazer uma descrição detalhada do que ocorrera naquele fatídico dia de dezembro. O senhor Yoshida disse que se sentiu desconfortável quando entrava em meu escritório e ficou contente ao ver que o cachorro lhe permitia manter uma conversa que tirasse Pearl Habor de sua cabeça”.

Sem a mediação de um ultimato nem declaração de guerra prévia, em 7 de dezembro de 1941, pouco antes das oito da manhã, hora local, os 353 aviões japoneses começaram a chegar à base e a abrir fogo contra os barcos e aviões estacionados em Pearl Harbor, a principal base dos EUA no Pacífico. Morreram mais de 2.400 norte-americanos.

O presidente Franklin Roosevelt disse que o 7 de dezembro de 1941 seria “uma data que viverá na infâmia”. A frase deixou rastros. Em sua versão original do discurso estava previsto que dissesse “uma data que viverá na história mundial”. Os EUA descobriram que eram vulneráveis, em um golpe na psique nacional comparado com o dos atentados de 11 de setembro de 2001. Como no 11 de Setembro, em Pearl Harbor os erros burocráticos permitiram que alguns avisos sobre o que se avizinhava passassem desapercebidos.

Pearl Harbor tirou definitivamente os EUA do isolacionismo e criou as condições para transformar este país de dimensões continentais e protegido por dois oceanos na primeira potência mundial. Sem Pearl Harbor talvez os aliados não tivessem ganhado a Segunda Guerra Mundial, os EUA não teriam sido hegemônicos no resto do século XX e a ordem mundial liberal –embasada em instituições multilaterais, mas com a supremacia dos EUA e seus aliados– não teria sido o que ainda é hoje.

A entrada dos EUA na guerra culminou com as bombas de Hiroshima e Nagasaki e a capitulação japonesa. Sendo incomparáveis nas características do alvo e nas mortes que causaram, Pearl Harbor e Hiroshima definem a memória da guerra nos EUA e no Japão, e no mundo.

Longe do constrangimento que Yoshida demonstrava em 1951, tanto Obama, em maio, em Hiroshima como Abe nesta terça-feira em Pearl Harbor buscam prestar homenagem às vítimas de ambos os lados da guerra.

Em 2015, Abe falou diante do Congresso dos EUA, depois de visitar o memorial da Segunda Guerra Mundial em Washington. “A história é dura”, disse. “O que foi feito não pode ser desfeito. Com um profundo arrependimento em meu coração permaneci ali durante um tempo rezando em silêncio. Meus queridos amigos, em nome do Japão e do povo japonês, ofereço meu profundo respeito e minhas condolências eternas às almas de todos os americanos que foram perdidas durante a Segunda Guerra Mundial.”

“Viemos aqui para refletir sobre a força terrível desencadeada num passado não tão distante”, disse Obama em Hiroshima. “Viemos chorar os mortos, incluindo mais de 100.000 homens, mulheres e crianças japonesas, milhares de coreanos e dezenas de prisioneiros americanos. Suas almas nos falam. Pedem que olhemos para dentro, que recordemos quem somos e em que podemos nos transformar.”

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