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“Nenhum candidato fala o que quero ouvir”, diz eleitora carioca

Baixa expectativa e críticas gerais dão tônica em eleição atravessada por debate moral

Wenddy Barbosa, moradora de Santa Cruz, no Rio.
Wenddy Barbosa, moradora de Santa Cruz, no Rio.

Conforme o ônibus do BRT avança pela ainda desértica Zona Oeste do Rio de Janeiro, igrejas evangélicas vão aparecendo na paisagem até chegar a Santa Cruz, no extremo da cidade. A maior delas é a Universal, vinculada ao senador e bispo licenciado Marcelo Crivella (PRB), líder nas pesquisas para o segundo turno no próximo domingo, 30 de outubro. Crivella foi o mais votado em toda a Zona Oeste no primeiro turno, mas foi em Santa Cruz que sua votação foi mais expressiva: superou 40% da preferência. A Universal gigante é um símbolo do trunfo que o senador do PRB tem nas mãos e não só ali: um quarto dos mais de seis milhões de cariocas se declaram seguidores de alguma denominação evangélica, uma fatia um pouco maior que a média nacional. Não que o alinhamento dos evangélicos com o favorito seja automático — "Sou evangélica, mas não sou tapada não. Sei que a família dele está metida em muita coisa que não presta", diz Wenddy Barbosa, de 23 anos — , mas a disputa entre um candidato conservador e religioso, ainda que em versão pretensamente suavizada, e outro de esquerda que não titubeia em temas como casamento gay, aborto e legalização da maconha trouxe de vez para o debate municipal a questão comportamental e de valores ainda que não sejam do escopo de um prefeito. "Nem Crivella nem Freixo são corruptos até onde eu saiba. Mas o Marcelo Freixo está com (o deputado gay) Jean Wyllys. E as pessoas daqui acham que eles são contra a família, e por isso votam no Crivella. Mas ele está com o Garotinho. Então fico muito na dúvida", segue Barbosa.

A eleitora, uma professora primária que hoje trabalha em uma loja de produtos domésticos, votou em  Carlos Osório (PSDB) no primeiro turno e não está convencida por nenhuma das propostas que chegaram à disputa final. Não quer anular o voto, ainda que considere esta possibilidade. "Crivella não pretende criar coisas novas, mas sim consertar o que já existe mas está ruim. E acho isso bom", explica. "Gosto do Freixo e concordo com as ideias dele. Acredito, por exemplo, que uma pessoa que rouba merece uma segunda chance. Não acho que todo bandido merece sofrer", segue. "Se ele viesse mais centrado nas ideias, querendo consertar o que já existe...".

Do outro lado da cidade, no Mercadão de Madureira, na Zona Norte, os trabalhadores começam a recolher seus produtos. Pablo Silva, de 29 anos, é um deles. À diferença de Santa Cruz, estamos em uma região onde a divisão de votos foi um pouco mais equilibrada e Freixo chegou a ganhar em alguns bairros. Silva, entretanto, está seguro de que vai votar em Crivella. "Infelizmente. Não confio nele, não acho que vai mudar nada na cidade. Mas é o menos ruim. O que o Freixo tem de proposta? O que ele fez?", indaga. E acrescenta: "Sabe o que é... Não tenho nada contra os homossexuais não. Mas vi uma foto do Freixo beijando um homem. O que vou dizer pro meu filho quando ele ver uma coisa dessas?".

Perto dali, Patrícia Lans, de 42 anos, come num McDonald's com o filho, Carlos Henrique, de 8 anos. Soa ainda menos empolgada que Wendy Barbosa e Pablo Silva com a eleição. "Estou tão chateada, tão decepcionada, sabe? Nenhum candidato fala o que quero ouvir. Anulei no primeiro turno e devo anular no segundo", diz. Segundo a última pesquisa Ibope, 21% dos eleitores pretendem, assim como Lans, votar em branco ou nulo no dia 30.

A carioca, que trabalha numa loja de tintas, explica que, mais do que discordar, desconhece as propostas dos candidatos. A única pessoa na qual fez questão de votar foi em Rosa Fernandes (PMDB) para vereadora, a quarta mais votada do município, com mais de 57.000 votos. "Os vereadores estão em contato com o povo. A Rosa fez muitas coisas para minha comunidade. As escolas estão todas arrumadas, temos iluminação, parquinho para as crianças brincarem", explica a moradora do Conjunto do Ipase, um bairro não longe dali. Para trabalhar, ela tem que primeiro deixar Carlos Henrique com sua mãe no bairro do Cachambi, onde ele estuda. "Gasto muito dinheiro com transporte público. Mas essa é a vida de todas as mães, né?" Preocupada com a educação do filho, ela acha que melhora a escola pública deveria ser a prioridade do próximo prefeito: "Estudei em colégio municipal e acho que a qualidade caiu muito. Quero uma escola que ofereça cultura, que dê prazer para estudar. Só quero paz, educação e tranquilidade".

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