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PSOL ocupa vácuo do PT e pode chegar ao segundo turno em ao menos três capitais

Partido conquista eleitor mais politizado de esquerda, mas padece da falta de vereadores

PSOL Eleições
Marcelo Freixo e sua vice, Luciana Boiteux, no último dia 15 no Rio de Janeiro.

Na noite do último 26 de agosto, enquanto os principais candidatos a prefeitura do Rio de Janeiro debatiam nos estúdios da TV Bandeirantes, Marcelo Freixo lotava a Cinelândia, no centro da cidade, com cerca de 5.000 simpatizantes. Impedido de participar do encontro devido à lei eleitoral, o candidato do PSOL nestas eleições municipais montou então um telão para acompanhar o debate e rebater as afirmações de seus adversários. Dias depois, no dia 15, reuniu no Largo do Carioca ainda mais pessoas — principalmente jovens — ansiosas por mudanças na forma de fazer política e atraídas pela alternativa que o PSOL representa ao PMDB do atual prefeito, Eduardo Paes. Freixo — 49 anos, deputado estadual que presidiu a CPI das milícias no Rio, professor de história e militante dos direitos humanos desde a juventude — promete fazer um governo com mais diálogo e participação popular. Sua campanha conseguiu até agora arrecadar cerca de 550.000 reais em doações de pessoas físicas. São quase 5.500 doadores, um recorde nacional.

A mobilização em torno a candidatura de Freixo, no Rio, retrata uma tendência dos últimos anos que parece se confirmar nas eleições municipais de 2016. O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), cujas marcas são a defesa dos direitos humanos e o combate à corrupção, disputa hoje um espaço no eleitorado que tradicionalmente pertence ao PT (Partido dos Trabalhadores) e vai se confirmando como alternativa de esquerda para setores politizados da sociedade. “É natural e legítimo que, com o PT em crise, partidos como PSOL, Rede ou PDT tentem ocupar seu espaço. Mas o PT não caiu tanto quanto se esperava. Ele divide voto com o PSOL e em alguns lugares pode haver um segundo turno sem a esquerda, como em São Paulo e até mesmo no Rio”, opina Celso Rocha de Barros, sociólogo e colunista da Folha de S. Paulo.

As pesquisas Datafolha e Ibope mostram o PSOL liderando em duas capitais: em Cuiabá, com o candidato Procurador Mauro; e em Belém, com Edmilson. Em Porto Alegre, Luciana Genro, candidata presidencial em 2014, já liderou com folga, mas agora aparece em terceiro lugar, com 12% nas pesquisas. Está atrás do petista Raul Pont (17%) e de Sebastião Mello (PMDB), que lidera com 29%. Além disso, o partido tem candidaturas competitivas nas duas principais cidades brasileiras. No Rio de Janeiro, Freixo aparece em segundo lugar nas pesquisas, em empate técnico com outros quatro adversários, e com chances reais de ir para o segundo turno. Em São Paulo, Luiza Erundina, deputada federal e ex-prefeita, está em quinto, com 5% de intenções de votos. Mas também chegou a ficar em empate técnico na segunda posição com seus adversários.

Ao mesmo tempo em que cresce as possibilidades de um Executivo psolista em grandes cidades, aumenta as dúvidas sobre sua viabilidade política e econômica. A legenda não faz alianças com grandes partidos em troca de mais tempo de televisão. Assim, uma eventual administração começaria com poucos acordos para aprovar projetos de lei na Câmara de Vereadores. A única capital governada pelo PSOL foi Macapá, com Clécio Luís Vieira eleito em 2012. No ano passado, ele decidiu migrar para a Rede Sustentabilidade de Marina Silva, alegando dificuldades para governar.

“O partido vai ter que compor com outros partidos, inclusive de direita. Ele precisa de maioria para governar. Vai ter que jogar alguns jogos do PT. Agora, podem fazer melhor. A grande esperança é que não paguem para ter apoio”, explica Barros, para quem é necessário que os moderados, como o próprio Freixo ou Erundina, assumam a liderança da legenda. Para Gilberto Maringoni (PSOL), professor de relação internacionais da Universidade Federal do ABC e candidato a vereador em São Paulo, caso seu partido ganhe com expressividade, garante uma pressão popular e uma legitimidade que garantiriam a governabilidade. "Erundina, por exemplo, governou São Paulo com minoria na Câmara. Em 1991, houve uma tentativa de impeachment da prefeita, o PT convocou os movimentos sociais e eles bloquearam a iniciativa", exemplifica Maringoni.

Sem grandes doadores e com uma estrutura de campanha pequena, o partido também põe em xeque parcerias com o setor privado e promete fazer uma auditoria em contratos assinados pela Prefeitura, principalmente com empresas de ônibus e Organizações Sociais que gerenciam centros de saúde. Segundo seus opositores, isso também pode minar a gestão da administração pública em tempos de crise. De todas as formas, o PSOL garante que vai manter os compromissos assumidos para não deixar a população sem serviços públicos essenciais. “Vai ter que moderar o discurso. Não precisa fazer o que o PT fez, mas se o plano for assumir a prefeitura e dar calote na dívida… Nunca mais vai ganhar nada”, acrescenta Barros.

A dificuldade nas periferias

O PSOL não possui uma base sindical como a do PT e nem uma militância tão forte nas favelas e periferias — apesar do apoio de movimentos sociais e de ativistas. Sua principal base ainda está na classe média, principalmente entre estudantes e comunidade acadêmica. Em geral, a legenda tem dificuldade de se inserir e expor suas ideias nas margens das cidades. Ganhou o estereotipo, sobretudo no Rio, de um partido que dialoga apenas com seus militantes.

“Você não pode tratar todos seus eleitores como doutorandos da USP. O modelo de campanha, de marketing político, não é bom, não é profissional. Por trás disso está uma negação do PSOL em aceitar a realidade política do Brasil. Acham que usar as mesmas ferramentas de seus adversários é maniqueísmo, manipulação política”, opina Anderson França, morador da periférica zona norte do Rio que trabalha há anos com empreendedorismo social. Para ele, as pautas do partido nasceram “dentro de uma burguesia socialista intelectual” e seus militantes não dialogam com “a classe trabalhadora”. Os movimentos da periferia que o apoiam, segundo diz, servem apenas para “legitimar” a legenda, que para ele se apropriou de bandeiras e movimentos que não são seus. “Não cabe ideologia na gestão da cidade. Ela é importante, mas precisamos de um cara que seja capaz de administrá-la e corrigir erros. O Freixo é um cara incrível, mas ele deveria estar no Senado. Suas pautas são nacionais. E não estão erradas, mas ele está no lugar errado”.

As mesmas críticas se estendem a São Paulo — onde Erundina ainda tem apoio nas periferias devido à lembrança de seu Governo no final dos anos 1980. “Mas acho o PSOL um partido muito confuso e difícil de lidar. É um partido com muita gente da academia que discute política, mas não são aquelas pessoas que sentem a política de fato. Há várias frentes, várias linhas. Para quem está na margem da cidade, a dinâmica política partidária é outra. Fica confuso de entender”, opina Mariana Belmont, moradora de Colônia, no extremo sul da da capital paulista.

Ela participa da Bancada Ativista, um movimento suprapartidário que tenta eleger jovens candidatos a vereador do PSOL e da Rede. A ideia é levar novos nomes com uma linha progressista para a Câmara e, segundo suas palavras, tirar “gente velha e encostada” do legislativo municipal. “A esquerda muitas vezes fala do social sem entender quais são as reais necessidades da população. Por incrível que pareça, a direita aparenta saber trabalhar mais dentro da periferia por estar sempre lá e saber o que as pessoas demandam”, acrescenta Belmont. Ela pondera que o PSOL, ainda assim, é a legenda que mais dialoga com os movimentos e ativistas, e cita como exemplo o candidato a vereador Douglas Negro Belchior.

No Rio, a campanha de Freixo vem se esforçando para se livrar do rótulo de partido elitista que frequenta a nobre zona sul do Rio. Segundo ele, 80% de sua agenda diária de campanha acontece em bairros e favelas das zona norte e oeste, além do centro da cidade em horário de pico. Sua legenda aposta em manter núcleos em diversos bairros para debater seus problemas diários, mas os poucos recursos financeiros e a ameaça da milícia, principalmente na zona oeste, dificultam uma presença constante. Freixo argumenta ainda que todo o seu trabalho, seja como militante de direitos humanos ou como deputado estadual que preside a comissão de direitos humanos e que apontou o dedo para as milícias do Rio, sempre mirou as populações mais vulneráveis das favelas e periferias.

Seu programa de Governo começou a ser feito em 2015, dialogando com vários setores da sociedade de todos os lugares do Rio. Jefferson Barbosa, de 19 anos, participou da jornadas “Se a cidade fosse nossa” que resultou no documento. Morador do periférico município de Duque de Caxias, hoje participa da equipe de Freixo para “dar um olhar de fora, da periferia”. Ele fala sobre o cuidado de que não haja uma campanha paralela.

“Tentamos atingir tanto o senhor de terceira de idade do Largo de Machado como a vendedora ambulante do Parque Madureira. Não queremos uma campanha estereotipada”, explica Barbosa, que lembra que o partido tem candidatos a vereador que não são da zona sul, como Marielle Franco, moradora do Complexo da Maré e umas das principais apostas da legenda. “Usamos as ferramentas que as pessoas usam em seu dia a dia para falar de questões que afetam elas diariamente. Precisamos falar mais simples, mas estamos melhorando. Temos quebrado essas barreiras”.

Com a colaboração do repórter André de Oliveira.

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