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Juan Manuel Santos, admirado no exterior, mas rejeitado pelos colombianos

Presidente da Colômbia, ex-ministro da Defesa, apostou todo seu capital político no acordo de paz

Juan Manuel Santos, durante seu discurso na assinatura dos acordos de paz em Cartagena de Índias.

Fazia apenas três dias que Juan Manuel Santos (Bogotá, 1951) estava na presidência quando recebeu na Quinta de San Pedro Alexandrino, em Santa Marta, no Caribe colombiano, o então presidente venezuelano, Hugo Chávez. Aquele encontro foi crucial. Santos rompia em cheio com Álvaro Uribe, o ex-presidente que o designou para sucedê-lo, de quem foi ministro da Defesa e com quem Chávez mantinha uma das relações mais inflamadas da história recente da América Latina. Ali, na casa onde morreu Simón Bolívar, Santos transmitiu uma mensagem ao presidente venezuelano. Havia iniciado conversações secretas com as FARC para negociar a paz na Colômbia. Precisava de sua ajuda.

Aquela reunião teve duas consequências que ainda persistem. Uribe nunca perdoou Santos e a Venezuela, com Chávez vivo, se tornou um ator essencial para a consolidação das negociações com as FARC. O presidente venezuelano, em mais de uma ocasião, intercedeu perante os líderes guerrilheiros, muitos deles sob a proteção do chavismo, em prol da paz na Colômbia. Foi um dos primeiros ases que tirou da manga o astuto jogador de pôquer, como Santos é considerado – um homem querido e reconhecido em todo o mundo, mas a quem seu país dá as costas.

O presidente colombiano apostou todo seu capital político para realizar o maior sonho do país em 52 anos: pôr fim a uma guerra com mais de oito milhões de vítimas, cerca de sete milhões de deslocados, mais de 260.000 mortos e dezenas de milhares de desaparecidos. Sua popularidade, porém, está no chão. “Nunca governei para as pesquisas porque, quando se vive na dependência delas, não se tomam decisões”, afirmou em uma recente entrevista a este jornal. Uma dessas decisões, a convocação de um plebiscito, sem necessidade de ter que fazer isso, e a posterior rejeição dos eleitores, mergulhou a Colômbia em uma enorme incerteza.

Perseverar é uma das palavras às quais Santos mais recorre. Sempre esteve convencido disso. Durante os últimos anos, seu Gabinete e o círculo mais próximo lhe recomendaram não se expor tanto. De Havana não chegava nenhuma novidade, mas na Colômbia Santos aparecia por todos os lados falando de uma paz intangível. Ele, que se caracteriza, segundo quem o conhece, por escutar muito, “às vezes demais”, de acordo com as palavras de uma colaboradora, acabava por fazer pouco caso. Sabia que havia sido reeleito para conquistar isso.

Santos nunca compreendeu a rejeição tão grande –promovida em boa parte por Uribe– que suscita entre muita gente da elite colombiana, essa à qual ele e toda sua família pertencem há gerações. “Não entendo como meus companheiros de elite, porque eu sou membro dos clubes mais exclusivos, se deixam desinformar sobre os benefícios da paz”, afirmava a este jornal. Não só isso. A Colômbia lhe deu as costas no domingo. Nesta sexta-feira, a comunidade internacional volta a reconhecer seu sacrifício.

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