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Nasce em Lisboa bebê de mulher que estava com morte cerebral havia quatro meses

Embora a evolução física seja boa, os médicos ignoram se há danos cerebrais

Mãe ergue bebê recém-nascido.

Um dia depois do nascimento de um bebê de uma mãe falecida 55 dias antes, a equipe médica do hospital São José de Lisboa explicou o processo nesse período, embora tenha havido mais palavras emotivas do que argumentos médicos. A chefa da Unidade afirmou que os médicos choraram quando o menino, de 2,3 quilos, nasceu 55 dias depois da mãe ter morrido.

“A mãe dele foi a incubadora”. Doou o corpo ao filho”, declarou nesta quarta-feira o presidente da Comissão Ética do Hospital de São José, Gonçalo Ferreira. Essa comissão decidiu pela continuidade da gravidez, apesar de a mãe ter morrido em 20 de fevereiro. A família aceitou, mas o Ministério Público estava preparado para assumir a tutela legal no caso de o pai do bebê ou o restante da família renunciarem.

Era o segundo filho de S., de 37 anos, mas o primeiro de seu companheiro. Paciente de oncologia, antes de morrer reiterou que desejava continuar com a gravidez.

“Era uma situação inédita”, “um fenômeno de vida”. Os médicos que participaram da manutenção da gravidez durante esses quatro meses e do bem-sucedido parto deram nesta quarta-feira uma coletiva de imprensa onde empregaram mais expressões sentimentais que médicas. “Uma história de contrastes”, disse outro dos médicos, que reconheceram ter chorado no parto.

“A mãe foi uma incubadora viva que doou o corpo ao filho”, acrescentou o doutor Ferreira. Os médicos contataram o Ministério Público para que “de forma inédita aceitassem tutelar autonomamente esta vida fetal no caso de que houvesse contraindicações porque os pais não são donos dos filhos”, segundo Ferreira.

Durante 55 dias a mãe foi alimentada hormonal e nutricionalmente com substâncias existentes em seu corpo

O menino, que nasceu na tarde de terça-feira, está na Unidade de Cuidados Intensivos, já que a mãe estava com 32 semanas de gestação, mas tem peso acima do habitual para esse tempo (2.350 gramas). Se continuar o processo normal, no final do mês sairá da unidade e poderá ser levado à casa do pai.

Durante esse período em que a mãe estava com morte cerebral seu corpo foi alimentado hormonal e nutricionalmente com “substâncias existentes no organismo humano em condições normais”, de acordo com a obstetra que participou do processo. O monitoramento e a substituição de funções básicas da mulher foram as maiores dificuldades do processo, segundo declarou Susana Afonso, da Unidade de Neurocríticos.

Afonso reconheceu que nesses 55 dias houve complicações; “Questões infecciosas diagnosticadas precocemente e que foram tratadas.” O bebê, um menino, já passou por todos os exames médicos e ecografias. "Até o momento não revela sequelas importantes, embora não possamos nos comprometer com o futuro dele”, disse Afonso. Por ora, nos exames realizados não se veem lesões. Só com 40 ou 42 semanas será feita uma ressonância magnética cerebral que verificará a eventualidade de danos cerebrais”, disse a diretora da unidade de neonatologia, Teresa Tomé.

O bebê nasceu “sem complicações” e por cesariana, informou a equipe de Obstetrícia e a Unidade de Neurologia do Hospital Central de Lisboa.

Em abril, outro bebê nasceu, na Polônia, de uma mãe que estava havia 55 dias em estado de morte cerebral. Houve casos semelhantes em outros países. Na Hungria nasceu em 2013 uma menina de uma mãe que estava havia 12 semanas com morte cerebral –neste caso o bebê alcançou a 27ª semana de gestação e pesava 1,4 quilo. Na Espanha, em 2000 nasceu um bebê quase dois meses depois de a mãe ter sido declarada clinicamente morta. Nasceu na 29ª semana de gestação e pesava 1,29 quilo.

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