Caetano Veloso abraça o movimento anti-Temer

Cantor se apresenta para multidão que protesta contra extinção do Ministério da Cultura

Caetano Veloso protesto Minc RJ
Caetano durante o show no Rio.

Armado com um violão e um cocar de penas brancas, Caetano Veloso aderiu na noite da sexta-feira ao movimento liderado por artistas que protestam contra a extinção do Ministério da Cultura (MinC) e a chegada ao poder de Michel Temer. O cantor baiano cantou para uma multidão reunida sob os pilotes do Palácio Gustavo Capanema no centro do Rio, antiga sede do ministério e hoje ocupado por coletivos artísticos “a favor da democracia” e da “proteção da cultura”. O movimento dos artistas é hoje o principal e mais visível foco de resistência pública contra o novo Governo Temer, iniciado no país após a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff.

"O MinC é uma conquista do Estado brasileiro, não é de nenhum governo", disse Caetano em uma das poucas falas da noite, na qual esteve acompanhado por Erasmo Carlos e Seu Jorge. À diferença dos colegas, Caetano não discursou, não entoou falas políticas, mas as músicas que ele escolheu para um show gratuito que, previsto para durar 30 minutos, se estendeu por mais de uma hora, mexeram com o fantasma da ditadura militar. O resto, o público fez. Alegria, Alegria, Tropicália ou Terra levantaram os presentes, que acompanharam as canções com gritos de ordem contra o atual Governo interino.

Em Odeio, a multidão adicionou um “Temer” após cada "odeio você". Essa mesma música, cantada junto a Gilberto Gil em um show no Rio em dezembro, já havia sido adaptada pelos fãs, que, na ocasião, incluíram o nome do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, que autorizou o início do processo de impeachment. Na vez de A luz de Tieta os presentes conseguiram se sobrepor à voz do baiano e cantaram, sob sua aprovação: “Eta, Eta, Eta, Eta /Eduardo Cunha quer controlar minha buceta”, uma crítica ao conservadorismo evangélico de Cunha.

Entre o público, um ator que participa da ocupação do antigo MinC, iniciativa que se repetiu em prédios da pasta em quase duas dezenas de cidades, advertia que sua batalha não ia terminar com uma potencial ressurreição do Ministério da Cultura. “A essência de este protesto é a luta contra o Governo golpista. Ele pode devolver o Ministério, mas só vamos desocupar quando Temer cair”, dizia Pedro Uchoa, de 30 anos.

O ato serviu de palanque para políticos que hoje encarnam a mais férrea oposição ao Governo Temer. O próprio Caetano passou a palavra para o deputado estadual Marcelo Freixo, do Psol, pré-candidato à Prefeitura do Rio. Saudado pelo público aos gritos de “prefeito”, Freixo disse: "Isso [a ocupação do Capanema] tem que acontecer em todas as ruas, em todas as praças, porque a democracia custou muito caro pra gente". Na mesma linha discursou o deputado federal Jean Willys, também do Psol e contrário ao impeachment: "Não é só a defesa da cultura, é a defesa da democracia".

Caetano já participou de outros shows que acabaram sendo contagiados pelo clima político do Brasil. Em 18 de março, o baiano acompanhou Elza Soares durante um show, no mesmo dia em que uma grande manifestação contra o impeachment de Dilma Rousseff concentrou-se no centro do Rio. Durante a apresentação, muitos dos presentes, vestidos de vermelho, cantaram em coro junto a Elza Soares “não vai ter golpe”. Enquanto a carioca pediu para os fãs lutarem pela democracia, Caetano, em silêncio, sorriu.

A sutileza do cantor, no entanto, revoltou colegas do mundo artístico nas redes sociais que cobraram dele um posicionamento contra o "Governo ilegítimo". Embora não seja a escolha de Caetano, suas manifestações públicas não deixaram de revelar o que o baiano, ícone contra a ditadura militar, pensa do momento atual. "A manifestação de domingo, para mim, não foi suficientemente diferente da passeata da Família com Deus [pela Liberdade], que apoiou o golpe de 64″, disse ele em março, ao ser questionado sobre uma das grandes manifestações anti-Dilma que tomou várias cidades brasileiras na ocasião.

O clima contestador do show, ao ar livre e no meio de andaimes e tapumes de obra, espalhou-se nos arredores do Palácio, hoje sede da Funarte, uma instituição vinculada à pasta da Cultura. Nos restaurantes lotados da Cinelândia, no coração do Rio, os comensais de dezenas de mesas largaram várias vezes os talheres para entoar o mesmo canto espontaneamente: "Fora Temer!".

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