Com fim do Ministério da Cultura, artistas abrem foco de resistência a Temer

Depois de cinco mulheres recusarem, Marcelo Calero deve assumir Secretaria da Cultura

Atos de protesto contra Michel Temer se multiplicam no país

Fim do Ministério da Cultura: Zé Celso no ato do Teatro Oficina contra o Governo Temer. Folhapress

Uma semana depois da admissão do impeachment de Dilma Rousseff no Senado e de sua substituição por Michel Temer como chefe do Executivo brasileiro, a resistência ao Governo interino já ganhou corpo – e na área da Cultura. O setor, o primeiro a sentir o golpe do machado que Temer empunha para controlar gastos públicos, é tradicionalmente visto no país como enfraquecido diante de outros melhor articulados, mas demonstrou engajamento suficiente para criar uma resistência que pretende nublar o panorama dos que acabam de chegar ao poder. Com isso, o país viveu nesta terça-feira, 17 de maio, uma jornada de protestos e ocupações promovidos pelo meio cultural em várias cidades do país – e inclusive no exterior.

O levante se deu, em primeiro lugar, pela extinção do Ministério da Cultura – seguida de outros anúncios impopulares –, mas pretende ir além. Menos de 24 horas após o afastamento de Dilma, o presidente interino anunciou um Ministério mais enxuto, composto apenas de homens e que defende fusões como a que implica o meio cultural – agora uma secretaria sob o chapéu do Ministério da Educação. Surgiram críticas diversas, e, diante delas, Temer cogitou dar à Cultura o status de secretaria ligada à Presidência, mais independente, e saiu à caça de uma nomeação feminina para chefiá-la. Com isso, esperava apaziguar os ânimos opositores, esquentados pelo fim da pasta e pela ausência generalizada de mulheres, mas não conseguiu: desistiu de criar uma secretaria à parte da Educação, mais onerosa para o Estado, e patinou na busca de uma mulher para o cargo.

Acabou fechando, nesta quarta-feira, com um representante do mundo masculino: Marcelo Calero, atual secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Isso depois de cinco mulheres declinarem do convite para assumir a secretaria nacional que substituirá o MinC. A última delas foi a cantora Daniela Mercury, que disse não à senadora Marta Suplicy, do PMDB, assim como o fez nesta terça a atriz e diretora de cinema Bruna Lombardi. Por meio de sua assessoria de imprensa, a atriz divulgou uma nota agradecendo o convite e justificando a negativa com sua falta de “pretensões políticas” e de tempo, já que está “envolvida com projetos profissionais”.

No entanto, de maneira geral, o que houve foi uma clara rejeição do setor – e das mulheres – aos movimentos da atual administração. A falta de tato com uma área que luta para se fazer respeitada, e a ausência feminina na equipe do Governo interino, teve uma péssima repercussão. Com essa justificativa, também recusaram a oferta duas outras mulheres reconhecidas no meio cultural, a antropóloga Cláudia Leitão e a consultora Eliane Costa, abordadas no começo da semana. “Respondi com um sonoro não! Espero que nenhuma mulher aceite esse convite e dessa forma não contribua para a transfiguração do MinC num apêndice do MEC”, escreveu Cláudia em seu Twitter. Eliane adotou o mesmo tom no Facebook: “Não trabalho pra governo golpista, nem serei coveira do MinC”.

Antes de todas, a jornalista e atriz Marília Gabriela já tinha sido sondada informalmente por Marta Suplicy, sua ex-colega de televisão, que no passado gozava de uma reputação como militante da causa feminista, mas tampouco aceitou.

Esse, no entanto, não é seu único problema. Fontes do EL PAÍS ligadas à área da Cultura consideram que o atual presidente não previa uma reação tão negativa e inclusive rápida vinda do setor cultural contra seu novo Governo. Da mesma maneira, acreditam que não está sabendo lidar com ela. Nos dois últimos dias, uma dificuldade adicional que ele teve de enfrentar foram as ocupações que tomaram os prédios da Funarte no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte, pouco depois da exoneração de seus funcionários de primeiro escalão. O mesmo aconteceu em instalações do MinC na Bahia, além de protestos em representação do extinto ministério em Curitiba, Recife, Fortaleza, Natal e João Pessoa.

Ocupação da Funarte em Brasília.

Em São Paulo, a ocupação da Funarte teve início às 15h desta terça, organizada por artistas, membros de coletivos culturais e militantes. Conectado com ela, a partir das 19h, esteve um ato convocado também por artistas no Teatro Oficina e articulado, em grande parte, pelo fórum de secretários municipais de cultura de todo o país – representados ali pelo secretário municipal de Cultura de São Paulo, Nabil Bonduki, do PT. O evento exibiu em streaming o ambiente da Funarte, enquanto emitia suas imagens de volta para a ocupação. “Queremos em primeiro lugar denunciar o retrocesso que está acontecendo em Cultura na política deste novo Governo, que vai contra os interesses do país. O Brasil não pode prescindir de um ministério que articule e promova uma política cultural nacional. Por isso, estamos unidos. Com a esperança não só de restaurar o MinC, mas de reverter o próprio Governo Temer”, declarou Bonduki.

Artistas reunidos no Teatro Oficina em protesto contra fim do MinC .

O anfitrião do Oficina, o diretor de teatro Zé Celso, abriu a série de discursos do ato afirmando que enxerga uma “rebelião da Cultura, por mais paradoxal que seja que essa seja a primeira área a se levantar”. Em sua opinião, “não se trata só do MinC” e “só uma eleição direta pode legitimar o Governo [pós-Dilma]”. Da mobilização, fizeram parte estudantes secundaristas que ocupavam até pouco tempo a Escola Técnica Paula Souza, no centro da cidade, e artistas e intelectuais convidados a falar, como a acadêmica Marilena Chauí, a rapper Luana Hansen, o músico Edgar Scandurra e a cineasta Eliane Caffé. Para Chauí, o que vem adiante é “uma luta de proporções gigantescas”, enquanto para Caffé, “o golpe está acontecendo em alinhamento com outros lugares da América Latina”.

Capa do jornal britânico 'The Guardian' com a foto da equipe do filme brasileiro que disputa a Palma em Cannes.

A notícia do fim do MinC alarmou também artistas que usaram a própria voz para denunciar o que consideram ser um golpe constitucional. Em Cannes, na França, durante o maior festival de cinema do mundo hoje, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho aproveitou a sessão de gala de seu novo filme, Aquarius, para protestar contra o Governo Temer. O longa, o segundo de sua carreira como diretor (Kleber é crítico de cinema e cobriu o evento como jornalista por 18 anos), concorre à Palma de Ouro ao lado de outras 19 obras de cineastas consagrados, como o espanhol Pedro Almodóvar e o estadunidense Jim Jarmusch. Antes da exibição para jornalistas e convidados que lhe rendeu mais de dez minutos de aplausos da plateia em pé, Kleber posou para fotógrafos no tapete vermelho ao lado de sua equipe e de seu elenco – encabeçado pela atriz Sônia Braga – com cartazes dizendo: “um golpe de estado aconteceu no Brasil” e “o mundo não pode aceitar esse Governo ilegítimo”. Foram discretos – protestando silenciosamente, como manda a etiqueta do evento – mas, ao mesmo tempo, privilegiados por Thierry Fremaux, diretor do festival, que solicitou que as câmeras presentes focalizassem os cartazes. O episódio foi noticiado em nível mundial e é capa, nesta quarta, de jornais como o inglês The Guardian.

De volta ao Brasil, artistas nacionais também estabelecem seus manifestos isoladamente, para juntar-se às demais vozes dissonantes. O ator baiano Wagner Moura, que vem se manifestando contra os rumos políticos do país em suas redes sociais e também na grande imprensa, publicou no jornal Zero Hora um texto titulado O pior ainda está por vir, em que diz que “bradar contra o MinC e contra as leis (ao invés de contribuir com ideias para melhorá-las) é mais que ignorância, é má fé”. Já para o escritor pernambucano Marcelino Freire “todo movimento de resistência será bem-vindo”. “Não podemos ficar calados. O artista sempre lutou, sempre protestou, sempre abriu os olhos da população. Faremos isto até o fim. Doa a quem doer”, afirmou por e-mail ao EL PAÍS. Marcelino define o Executivo de Temer como “golperno” e considera que chegarão ao fim os anos de prosperidade que o Brasil viveu na Literatura. “Se a Cultura virou coadjuvante, imagine a literatura em relação às outras artes. Seremos enterrados e esquecidos”, diz. Mas, como os colegas da área, já assumiu que vai resistir: “Seremos a partir de agora o Ministério da Ruptura”.

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