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COLUNA

Brasil despedaçado

A votação do impeachment nos colocou frente a um espelho e o que vimos foi a perfeita imagem da nossa sociedade: passional, vulgar, reacionária

Deputados da oposição comemoram aprovação do processo de impeachment da Câmara.
Deputados da oposição comemoram aprovação do processo de impeachment da Câmara. AFP

O dia 17 de abril de 2016 permanecerá para sempre na memória nacional como uma das datas mais infames da nossa história. Presidido por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), réu em processo criminal no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a Câmara dos Deputados, que reúne entre seus membros 53 outros réus na Suprema Corte e mais 148 que respondem a diversos crimes, votou pela admissibilidade do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. À frente de um Governo desastroso de todos os pontos de vista (político, econômico, social), sobre ela, no entanto, não existe qualquer confirmação de que tenha infringido a Constituição – há denúncias, não provas.

O afastamento provisório ou definitivo de Dilma Rousseff guindará o peemedebista Michel Temer à cadeira da Presidência da República. Político inexpressivo, rejeitado mesmo por aqueles que foram às ruas contra o Governo petista (68% do total dos entrevistados pela Datafolha acreditam que uma eventual gestão dele seria regular ou ruim/péssima), Temer assumirá um cargo para o qual, por mérito próprio, nunca conseguiria alcançar. Chefe do PMDB, uma agremiação parasitária, cujos membros especializaram-se em assaltar a máquina pública para realizar negócios escusos, Temer aliou-se ao PSDB, que, tendo perdido as eleições, conspirou abertamente contra Dilma, e com o chamado Centrão, liderado pelo PP, o partido com maior número de investigados pela Operação Lava-Jato, 15 deputados e três senadores.

Durante as seis horas que durou a votação da admissibilidade do impeachment acompanhamos o desfile de parlamentares que, assassinando a gramática (quase nenhum conseguia concordar sujeito, verbo e complemento, embora 80% afirmem ter curso superior), evocavam para justificar seus votos a Família, Deus, a Pátria, a Ética – assim, tudo em maiúscula... Provincianos, cínicos e hipócritas, citavam os nomes de filhos, netos e pais; mortos e vivos; versículos bíblicos e sentenças morais; problemas específicos de suas cidades e regiões; categorias profissionais e setores econômicos aos quais estão vinculados. Brilhavam em sua inexpressividade por alguns segundos e mergulhavam de volta à insignificância.

Muitos, muitíssimos, não esconderam o discurso de ódio e de ressentimento. O mais notório deles, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), machista, racista, homofóbico, fascista, e seu filho e herdeiro ideológico, Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), chegaram mesmo a fazer apologia ao golpe militar de 1964. Bolsonaro pai conseguiu ir além: dedicou seu voto “à memória do coronel Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Só por isso, por defender a tortura na figura de um de seus mais conhecidos praticantes e ainda por ameaçar veladamente a presidente da República, em qualquer país sério Bolsonaro teria seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar. Mas não no Brasil.

A Câmara dos Deputados reflete nosso machismo e nosso racismo

No Brasil, aplaudimos o voto dado a favor do impeachment por Paulo Maluf, cujo nome consta da lista de procurados pela Interpol, o que o impede de colocar os pés fora do país. Maluf pertence ao PP, sucessor da Arena, partido que foi base de sustentação parlamentar dos militares durante todo o período da ditadura (1964-1985), quando milhares de brasileiros foram cassados, torturados e mortos. Vibramos também, pelos mesmos motivos, por fantasmas do passado, perpetuados em filhos, sobrinhos ou netos, como Nelson Marchezan Jr (PSDB-RS), Joaquim Passarinho (PSD-PA), Sarney Filho (PV-MA), Newton Cardoso Jr (PMDB-MG), Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), entre vários outros.

Ao longo da votação do impeachment fomos colocados frente a um espelho e o que vimos foi a perfeita imagem da nossa sociedade: passional, vulgar, reacionária. A Câmara dos Deputados reflete nosso machismo – os homens ocupam 90% do total das cadeiras – e nosso racismo - apenas 20% se autodeclaram negros e nenhum indígena – e tem como mais bem articulada frente suprapartidária a chamada Bancada BBB (Bala, Bíblia, Boi), que reúne 75 evangélicos, 109 ruralistas e 22 defensores do armamento generalizado, algo como 40% de todos os votos da Casa. Em nome de Deus, Pátria e Família, pouco a pouco o nosso Parlamento nos empurra rumo ao obscurantismo totalitarista.

Luiz Ruffato é jornalista e escritor.

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