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Peña Nieto tenta evitar confrontos pela tragédia dos mortos em Iguala

Promotoria permitirá que especialista da OEA participe de uma nova perícia no lixão

O lixão de Cocula, em foto de 2014.
O lixão de Cocula, em foto de 2014.

Conflito zero. Enrique Peña Nieto não está disposto a suportar mais uma tormenta política em função da tragédia de Iguala. Sob esta premissa, o presidente mexicano deu instruções para que todas as frentes abertas sejam apaziguadas e vai até realizar uma reunião em 24 de setembro com os pais dos desaparecidos. Em sinal de paz, do encontro —uma prova de fogo depois do estrepitoso fracasso do realizado em outubro— participará o grupo de especialistas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos que questionou a versão oficial do caso.

Os investigadores federais consultados por este jornal consideram que o comitê externo se precipitou ao não pedir outras opiniões

Esta unidade externa, convidada pelo Executivo de Peña Nieto para avaliar os resultados das investigações, criou uma forte polêmica ao desacreditar a versão oficial. Em suas conclusões, os especialistas propuseram a hipótese de que o ataque selvagem contra os estudantes de magistério se deveu ao fato de os alunos terem tomado um ônibus que seria usado para transportar heroína do cartel dos Guerreiros Unidos, dominante na região. Um ponto que até poderia se encaixar na reconstrução policial, mas ao qual a comissão acrescentou uma informação bombástica: o relatório de um perito internacional, o peruano José Torero, que negava taxativamente que os normalistas tivessem sido incinerados no lixão de Cocula, como defendia a Procuradoria com base nas evidências coletadas. O especialista que investigou o depósito de lixo nove meses depois dos desaparecimentos e foi além. Em tom irrefutável afirmou que no lugar, um buraco escondido usado como depósito de lixo, não havia provas de que um corpo sequer tivesse sido queimado.

Esta afirmação explosiva não só coloca em dúvida o lugar da suposta cremação como contradiz totalmente as confissões dos assassinos presos e, como em uma árvore contaminada, coloca por terra toda a reconstrução oficial, elaborada a partir de 487 relatórios periciais, 386 depoimentos, 114 presos, 95 linhas telefônicas grampeadas e uma infinidade de registros.

Assumida como bandeira pelos pais dos 43 desaparecidos, a conclusão do perito foi recebida como uma afronta na Procuradoria Geral da República. Os investigadores federais consultados por este jornal consideram que o comitê externo se precipitou ao não pedir outras opiniões e que deu margem a um tipo de cálculo efetuado depois de uma visita muito breve ao lixão. Destacam também que a versão do especialista, que afirma que para incinerar um corpo humano são necessários entre 600 e 800 quilos de madeira, é rechaçada por outros cientistas de mais prestígio, para quem a queima de uma pilha de cadáveres pode ser feita sem grandes quantidades de combustível externo.

Estas discrepâncias não motivaram uma resposta oficial devido à ordem política de evitar qualquer conflito neste trágico caso. Ao contrário, a procuradora geral, Arely Gómez, cujo mandato começou depois da investigação, assumiu a “necessidade absoluta” de uma nova perícia e manteve a confiança no grupo de especialistas.

Neste clima de entendimento, os integrantes do comitê Carlos Beristain e Francisco Cox se reuniram na sexta-feira, dia 11 de setembro, com Gómez e o subprocurador de Direitos Humanos, Eber Omar Betanzos. Durante o encontro, cheio de trocas de gentilezas, concordou-se que o grupo de especialistas possa participar de uma nova perícia do lixão, e que, para isso, seu especialista, José Torero, estivesse presente. “Esta crise tem de ser saudável e transformadora”, destacou Beristain.