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“Homem ganha prêmio de literatura”, a manchete que você nunca vai ler

Livros de homens que são premiados por homens são reflexo de um mundo paternalista

Escritoras, editoras e leitores agora querem combater essa realidade

Alice Munro
A escritora canadense Alice Munro, ganhadora do Nobel.

Em 2013, quando a escritora canadense Alice Munro conquistou o prêmio Nobel de literatura, viu sair na imprensa dois tipos predominantes de manchete sobre seu feito: de um lado, as que ressaltavam seu gênero sexual. De outro, que ela escreve contos curtos. Ambas sinalizam raridades no mundo literário. Munro foi a 13a mulher a ganhar o Nobel, uma premiação anual que existe desde 1901, e que ao longo de sua história reconheceu quase sempre o talento de homens romancistas. Pouca novidade há nisso, já que a questão da representação de gênero, obviamente, transcende a literatura, e não faz mais do que refletir as regras de um mundo paternalista. No entanto, justamente pela falta de novidade, algumas escritoras decidiram combater essa realidade.

É o caso da escritora paquistanesa Kamila Shamsie, que recentemente sugeriu, em um artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian, que 2018 seja O Ano de Publicar Mulheres. A provocação, que se inspira na campanha O Ano de Ler Mulheres, lançada em 2014 pelo jornal literário The Critical Flame, dirige-se especificamente às editoras, para que elas deixem de publicar, ao menos por um ano, os homens e priorizem autoras, sejam novas ou veteranas. Com isso, ela espera não só que mais mulheres sejam lidas, com seus pontos de vista particulares, como tenham seus livros mais resenhados pela imprensa e pelos leitores e também premiados por instituições relevantes, chacoalhando um pouco, enfim, essa lógica masculina imperativa.

O chamado foi ouvido pela editora britânica And Other Stories, que aceitou o desafio e prometeu reagendar o lançamento de títulos de ficção de seus autores e agora anda buscando manuscritos inéditos de escritoras para definir o que publicará em 2018 – ano em que se celebra o centenário de mulheres de mais de 30 anos com direito ao voto no Reino Unido. "Vamos acabar nos tornando uma espécie de modelo em pequena escala para uma pergunta muito maior sobre por que a escrita feminina é consistentemente marginalizada ou secundária", declarou Sophie Lewis, a editora-chefe da casa.

Ainda que a atitude de Lewis possa ser revertida em benefício próprio, ela ataca uma espiral de preconceito de gênero no mundo literário. A paquistanesa Kamila Shamsie revelou em seu artigo que menos de 40% dos livros enviados ao prestigiado Booker Prize ao longo dos últimos cinco anos foram escritos por mulheres, e citou outra pesquisa que mostra, ano a ano, que histórias narradas por homens dominam os prêmios de literatura – realizado pelo VIDA – Women in Literary Arts, um site americano dedicado ao tema. Segundo a contagem do VIDA em 2014, apenas 27% dos autores destacados no The Times Literary Supplement foram mulheres. No caso da revista literária Paris Review, 40% foram mulheres, e do semanário The Nation, apenas 29%. A espiral começa com uma minoria de escritoras e desemboca na realidade das poucas autoras premiadas, e não termina nunca.

No Brasil, o debate já se instalou e há sinais positivos de mudança. Tanto é assim que “2014 foi o ano das mulheres na literatura brasileira”, segundo a jovem escritora Luisa Geisler, autora de Contos de mentira e Luzes de emergência se acenderão automaticamente e finalista do Prêmio Jabuti em 2012 com seu livro de estreia. Depois de passar o ano passado só com mulheres na estante, instigada por uma antologia que listou 101 autores contemporâneos imperdíveis com apenas 14 mulheres (a mesma que desatou a campanha já mencionada e a hashtag #leiamulheres2014) ela discorreu sobre o assunto no jornal OGlobo.

Escreveu: “Já me disseram que eu ‘escrevo como um homem’, como um aplauso. Já ouvi: ‘não gosto de livros escritos por mulheres, mas gostei desse’ ou ‘não achei que mulheres podiam escrever assim’. Meu favorito é ‘você não escreve como as outras mulheres’. ‘Na verdade, eu escrevo como mulher, sim. Você que é babaca mesmo’, é a resposta que tenho pronta”. Em seu artigo, Luisa menciona que no Brasil, 72% dos autores publicados são homens, segundo a pesquisa de Regina Dalcastagné em Literatura brasileira contemporânea — Um território contestado. Quem vê dados como esses talvez passe a procurar o machismo em nossa sociedade contemporânea, sem muitas vezes conseguir encará-lo nos olhos. Apesar de sempre estar lá, ele não se declara, porque, diz a escritora, “nunca é uma atitude consciente”. Para ela, assumir as diferenças, sem precisar listar as justificativas e concordar com elas, já bastaria: “Não sugiro cotas. Sugiro ler mulheres, e só”.

Uma aventura que não vale a pena viver

As duas autoras que venceram este ano o Prêmio Sesc de Literatura (o mesmo que revelou Luisa em 2010, aos 19 anos), Sheyla Smanioto e Marta Barcellos, questionam, além do mercado, a percepção das histórias escritas por mulheres pelo leitor. Para Marta, autora do livro de contos Antes que segue, “o ponto de vista da mulher, na literatura, é sempre visto como assunto de mulherzinha”. “Já a visão do escritor homem se confunde com a visão universal, é literatura e ponto”, diz. Realidade essa, segundo Sheyla, autora do romance Desesterro, que apenas dá continuidade à vida cotidiana: “A mulher já está vivendo o ponto de vista do homem todos os dias. Mulher cozinha e pode ser cozinheira; homem, quando cozinha, é chef. A mãe que é boa mãe não se destaca, só cumpre sua obrigação, enquanto pai que troca fralda é elogiado. A mulher se dispõe, se anula. O homem faz o favor”. As obras das duas pretendem andar contra essa corrente, que prega que o feminino “é uma aventura que não vale a pena viver”.

Para embasar seus contos, que tematizam a infertilidade como fracasso, Marta fez pesquisa sobre esse tema na literatura. “Vi que existe muito pouca coisa, e quando aparece é quase sempre sinônimo de maldição. Encontrei, por exemplo, o assunto na obra de Clarice Lispector e uma peça de Federico García Lorca”, diz a escritora, que quis fazer diferente em Antes que segue. Para Sheyla Smanioto, combater noções como essa é possível se as escritoras, em lugar de assumirem o tal “ponto de vista universal”, encararem suas vidas com grande honestidade e retratarem em sua literatura personagens femininas fortes. Foi o que ela tentou fazer em Desesterro, que assume mais de uma voz feminina e se passa na periferia de uma grande cidade.

O destino da discussão é incerto e as mudanças chegam lentas. Mas Kamila Shamsie, que propõe um 2018 de mulheres nas editoras e além, acredita que o ritmo de transformação pode ser maior à medida que se reverta não só esse mal literário, mas qualquer tipo de status quo que promova socialmente um modelo único. “Que O Ano de Publicar Mulheres não termine na publicação somente de escritoras jovens, brancas, heterossexuais, de classe média e metropolitanas”, ela espera.

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