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Bonita é a poesia

A poeta Matilde Campilho, “revelação lírica” e “musa da Flip”, prefere poemas a rótulos

Campilho em Paraty Ampliar foto
Campilho em Paraty

Quando foi lançado em Portugal, terra natal da poeta Matilde Campilho, Jóquei, seu primeiro livro, foi descrito como “vento de pura selvageria”.

Talvez o responsável por essas palavras, além de elogiar seus poemas, imaginasse a autora no Rio de Janeiro, cabelos compridos ao vento da praia e ideias borbulhantes na cabeça – as duas coisas alheias a um ordenamento comum. Foi no Rio, onde ela morou de 2010 a 2013, que a obra nasceu.

Matilde não simpatiza com rótulos. Mas essa descrição caiu como uma luva na 13a Festa Literária de Paraty, onde a escritora, cabelos tremulantes, foi uma das convidadas a falar sobre A Poesia em 2015, ao lado dos também poetas Mariano Marovatto e Carlito Azevedo – seu introdutor nas ruas e nas bibliotecas cariocas que ela desbravou.

Essa jovem lisboeta de 33 anos, celebrada atualmente como “a revelação da lírica em língua portuguesa”, foi um dos nomes mais falados da Flip e viu seu livro alcançar o topo dos mais vendidos da festa. Para isso, contribuíram sem dúvida sua beleza e simpatia – encarnada na escolha de falar com o público com sotaque carioca, mas declamando em seu português original os próprios poemas –, ainda que brilhe ainda mais a sua escrita.

Jóquei, que em pouco mais de um ano teve quatro edições em Portugal e, no Brasil, já caminha para a segunda, reúne poemas em prosa, musicais e imagéticos como os video-poemas que costumava postar, capazes de oferecer um retrato instigante dos lugares por onde a autora passou e de personagens que cruzaram seu caminho. Depois de acontecer em São Paulo no início do ano, o lançamento carioca acontece nesta terça, às 19h30, na Livraria da Travessa de Botafogo.

Rejeitando o título de “musa da Flip”, Matilde prefere comentar extensamente a gênese desse trabalho, que – ela diz – tomou forma para eliminar dos outros o mesmo medo que ela tinha da poesia. Parece que está funcionando. “Pô, abre, vê um poema. Como você faz com o gibi”, convida.

Pergunta. Por que você decidiu morar no Rio de Janeiro?

Resposta. Fui para o Rio ficar duas semanas. Meus amigos mais íntimos que já conheciam a cidade me diziam: “Olha só, fui para um lugar que é a tua cara...”. Eu sabia que seria assim. Ainda mais sendo nômade, ia dar vontade de ficar. E fui ficando. Eu já escrevia, mas ainda estava descobrindo qual era o meu eixo. Foi importante isso ter acontecido enquanto eu estava fora de casa, sendo estrangeira, para achar o foco.

P. O que a levou a escolher a poesia?

R. A palavra poesia é meio assustadora, né? Poeta... Carrega uma tradição mais pesada. Eu tinha isso. Estudei literatura na faculdade, mas na época gostava mais de ler, não de fazer. Ainda assim, acontecia comigo o que acontece com grande parte da minha geração: uma dificuldade de concentração imensa. A poesia tem um pouquinho disso: você leva para viajar, no bolso, aí lê um poema, depois o jornal... Por outro lado, acho que a poesia é muito musical, e eu percebi que na minha escrita tinha uma coisa de cadência. Tudo isso se juntou à leitura. Comecei a ler muita poesia quando cheguei ao Brasil, muitos autores sul-americanos, coisas que não chegavam a Portugal. E pensei: “Olha só, isso não é tão distante assim...”. Você começa a ler contemporâneos, a ler gente que levou o poema muito a sério, mas que desconstruiu muita coisa. Quando a gente é criança, basicamente ensinam que poesia tem que rimar, tem que ser em quadras e, de repente, toda desconstrução é possível. Isso me encantou. Aquela ideia do palácio distante, que, visto de perto, virou uma cabana. Comecei a me divertir com a poesia.

P. Seu sotaque luso-carioca conquistou a Flip. Por que você prefere falar português brasileiro no Brasil, mas lê seus poemas como portuguesa?

R. Acho que o sotaque é uma questão de ouvido. Tem umas pessoas que dizem “olha essa canção” e já saem cantarolando. Às vezes eu penso que não deveria falar com outro sotaque que não o meu, afinal, minha língua é minha língua – e é a mesma! Mas foi totalmente sem querer. No começo, eu não conhecia ninguém no Rio, e, de longe, não dava para saber que sou portuguesa. Quando você está sozinho, se sente mais protegido se estiver no meio da multidão. Depois, ficou em mim. Durante muito tempo, meus amigos eram todos daqui, e eu nem ouvia mais o português de Portugal. Mas ler os poemas é mais difícil. A poesia é meu eixo fundamental, então preciso estar focada quando estou fazendo isso. Não posso ter camada nenhuma.

P. Você está sendo chamada de “a revelação lírica da língua portuguesa” e querem colocá-la naquele palácio que você transformou em cabana. O que acha disso?

R. Esse já era meu trabalho, mesmo antes de publicar. Ler, escrever e tomar café coado [risos]. De repente, começa a acontecer essa coisa que eu não esperava, obviamente. Trabalhei muito para fazer esse livro, claro que eu fico feliz, mas porque as pessoas estão lendo. Antes, o escritor não tinha nem um rosto, era como um locutor de rádio – o cara que a gente escuta há 20 anos e de repente se surpreende quando vê. Hoje em dia, o mundo está meio louco, e a gente precisa de um rosto e de um nome para tudo. O trabalho de quem escreve é muito solitário. Seja um escritor ou um músico, acho que o foco é o trabalho. De resto, somos todos seres humanos.

P. Além de revelação literária, você foi eleita “a musa da Flip”.

R. A única palavra que me vem nessa hora é poeira. Poeira nos olhos. Até falamos de musas lá na mesa, quando o Mariano disse algo sobre “procurar a musa”. Comentei que comigo era diferente, que a musa acabava sendo a poesia, que dentro dela mesma eu ia buscando inspiração. No meio de um festival, numa cidade linda, em que as pessoas estão falando de literatura, desviar o assunto para uma coisa assim... é redutor. O poema em si já tem tantas possibilidades de invenção, basta buscar lá dentro. É pra isso que a literatura serve: para que cada um crie sua própria beleza. A pessoa é muito mais do que só um desenho físico, ainda que ele exista.

P. Uma coisa positiva é que seu livro, Jóquei, foi o mais vendido da Flip. Como você o descreve para quem ainda não conhece? A que veio?

R. É um livro que passei anos fazendo. Minha família, por exemplo, não lê poesia. Quando comecei, meu pai disse: “Ai, minha filha, poesia...”. Eu só falava para ele: “Por favor, não tenha medo”. Porque o que me fez escrever esse livro, no começo, foi muito medo de muitas coisas, mas ele foi me ajudando a tirar o medo da própria poesia. Digo às pessoas: “Pô, abre, vê um poema. Como você faz com o gibi”. Poesia tem isso. O livro tem um lado muito solar, com poemas de verão, mas são várias camadas, tem alguma tristeza... São historinhas de uma vida que podem ser várias. Várias imagens do mundo.

P. Na Flip, a poesia foi o gênero que mais brilhou, também com Mário de Andrade, Arnaldo Antunes e Karina Buhr. O que será que isso quer dizer?

R. Quando a gente fala de poesia, tem tanta coisa diferente... São lugares diferentes de uma mesma sala. Cantinhos diferentes. Acho que as pessoas estão precisando disso mesmo: de uma sala, de um sofá, para parar um pouquinho. Como é mais imediata, a poesia tem isso. No meio de tanta informação, um verso é uma pausa. Pode ser por isso, eu acho. Não sei se alguma vez se parou de ler poesia. A gente sabe que se parou de comprar. Mas o mundo também mudou muito, e as pessoas leem muita coisa online, veem coisas na rua. A poesia nunca parou de acontecer.

P. Na história da Flip, assim como você, houve outros portugueses que brilharam e terminaram conquistando o público, como Valter Hugo Mãe e António Lobo Antunes. Essa relação Brasil-Portugal às vezes se estreita, às vezes se distende. Que fase você acha que vivemos hoje?

R. Acho que sempre houve essa ligação entre a gente. Somos povos irmãos – ou primos, pelo menos. Tem sempre um elo, inclusive com essa coisa de irmão, de briga, que no final termina sempre mais ou menos em casa. Isso é muito bonito. Ter uma tradução do português de Portugal ao do Brasil e vice-versa, por exemplo. Claro que não é para ter uma tradução! A língua é a mesma, com cores diferentes. E essa troca de cores, sem querer ser muito poeta nisso, sempre esteve lá.

P. Você já tem novos projetos em vista?

R. Este livro representa um pedaço grande da minha vida, um trabalho longo. Deixo primeiro a poeira baixar... em mim, digo. Claro que já estou fazendo outras coisas, porque para mim o livro está fechado, ainda que me faça muita companhia. Já estou trabalhando em outra estrada. Mas aonde ela vai me levar, estou vendo no caminho.

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