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Palmira, cruzamento de impérios e fronteira de Roma

A cidade, Patrimônio da Humanidade da Unesco, está ameaçada pelo Estado Islâmico

Ruínas de Palmira, em março de 2014.
Ruínas de Palmira, em março de 2014. AFP

Na antiga Palmira, os deuses romanos eram venerados, mas também deidades milenares orientais, como Baal, a quem todos os povos do Oriente prestavam culto, ou o mesopotâmico Nebu. As ruínas da cidade de Palmira, que agora estão ameaçadas pelos jihadistas fanáticos do Estado Islâmico, representam uma amostra única do cruzamento de culturas da Antiguidade. Na fronteira de Roma, em plena rota das caravanas, era um oásis onde se uniam as tradições do Oriente e do Ocidente.

Como escreveu o historiador britânico Tom Holland, autor do revelador livro À sombra das espadas, sobre o Oriente no século V, “Palmira é a expressão mais bela da mescla de culturas da antiguidade no Oriente Próximo da qual acabaria por nascer o Islã”. Em sua conta do Twitter, Holland exorta a mítica rainha de Palmira, Zenóbia, “a despertar de seu sono nesta hora de desespero e salvar sua cidade”.

As forças do Estado Islâmico (EI) provocaram danos irreparáveis em muitos campos arqueológicos que estão em seu território —os especialistas não sabem ao certo o que foi destruído pelo vídeo gravado como propaganda e o que estão roubando para vender no mercado clandestino de antiguidades para se financiar. Cidades cujos nomes estão sendo pronunciados há milênios pela humanidade, como Apamea, Nínive, Hatra e Ninrud, sofreram enormes danos devido à campanha de terror que busca aniquilar cristãos e yazidis.

Se chegassem a tomar Palmira, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1980 e situada a 215 quilômetros a noroeste de Damasco, o dano arqueológico seria simplesmente inimaginável, como se à mercê do EI estivessem o aqueduto de Segóvia, Pompeia ou os fóruns imperiais de Roma. Ainda que parte de suas peças se encontrem fora de Síria —o Museu do Louvre tem uma coleção importante, que inclui o relevo de Maliku ou a tríade divina de Baal—, a informação que Palmira ainda pode oferecer é imensa e, sobretudo, a beleza das ruínas é única. A antiguidade não deixou nenhuma cidade equivalente.

“A fama de Palmira se construiu sobre o comércio, como um oásis que oferecia refúgio aos viajantes e também como parada para as rotas comerciais que cruzavam o deserto. Especiarias, metais preciosos, escravos... Tudo passava por aqui para satisfazer o apetite insaciável de Roma”, escreve o historiador Philip Parker em The Empire stops here (O Império para aqui), uma viagem pelas fronteiras de Roma. “Palmira é uma cidade do deserto, que estava a 300 quilômetros no interior da areia, cuja riqueza se baseava em sua capacidade de suprir as necessidades básicas dos viajantes: descanso e água. Seu nome não poderia ser mais romântico e sintetiza a concepção ocidental do Oriente. Agora a viagem leva apenas quatro horas, mas em tempos de Roma levava dias. Foi uma cidade de fronteira entre Roma e o Império Parta, onde se trocavam bens e informação. Seus habitantes tiravam benefícios das duas coisas”, prossegue Parker.

Seu nome antigo, Tadmur (continua sendo a denominação oficial em árabe), a “cidade das tâmaras”, aparece nos arquivos assírios do ano de 800 antes de nossa era, e foi conquistada por Alexandre Magno em torno do ano 330 a.C. Mesmo fazendo parte do Império Romano, sempre gozou de um estatuto especial. Como escreve a Unesco em sua justificativa para a concessão do Patrimônio da Humanidade: “Palmira cresceu como uma cidade crucial nas rotas comerciais que uniam Pérsia, Índia e China com o Império Romano e se transformou em um cruzamento de caminhos de várias civilizações do mundo antigo”. O organismo cultural da ONU destaca sua colunata de 1.100 metros que forma o eixo da cidade, o templo de Baal, a ágora, o acampamento de Diocleciano, o teatro, os bairros civis, e também as amostras únicas de arte funerária, que misturam o estilo greco-romano com o persa.

A Unesco também destaca as “imensas necrópoles” e os restos de um aqueduto romano nos arredores da cidade. Segundo o organismo, sua redescoberta pelo Ocidente nos séculos XVII e XVIII, depois de ser visitada por viajantes britânicos como Robert Wood, resultou em uma influência arquitetônica enorme no estilo neoclássico.

Sua decadência começou no século III de Nossa Era quando, em meio às hostilidades entre os impérios parta e romano, Palmira, sob o comando da rainha Zenóbia, se transformou em capital de um império que abrangia a atual Síria e que chegou até o Egito. No entanto, a rainha acabou por ser derrotada e enviada a Roma como refém. Que sua lenda tenha chegado até nós é uma prova a mais da resistência da velha cidade das caravanas, cujo destino agora está por um fio.

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