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Copa do Mundo 2014

A festa dos excluídos do Itaquerão

Os moradores do bairro de Itaquera, onde fica o estádio da abertura, foram impedidos de chegar próximo ao local onde acontecia o jogo de estreia

Crianças da favela da Paz brincam durante o jogo. Ver galeria de fotos
Crianças da favela da Paz brincam durante o jogo.

Tainá Salustiano e mais cinco amigos, com idades entre dez e 17 anos, andaram por quase quarenta minutos do centro de Itaquera, onde moram, até a avenida Doutor Luís Aires, a menos de um quilômetro da Arena Corinthians, para onde pretendiam seguir. O objetivo era assistir a disputa entre Brasil e Croácia de um telão que, segundo os boatos espalhados pelas crianças do bairro, havia sido montado ao lado do estádio. A aventura, no entanto, parou por ali. No meio do caminho tinha um bloqueio de Policiais Militares para impedir qualquer passo a mais em direção à arena de pessoas que não tivessem em mãos um ingresso, cujo preço começava em 160 reais –quase um quarto do salário mínimo.

“É muita sacanagem. É nossa única oportunidade de chegar perto de um jogo do Brasil”, lamentava a menina. Mas o grupo não foi barrado sozinho. Os relatos de moradores que não conseguiram se aproximar do estádio eram muitos em Itaquera, bairro pobre da zona leste de São Paulo, onde está localizada a arena de inauguração do Mundial de 2014. O bairro onde vivem cerca de 624.000 pessoas, com 291 favelas e a menor renda familiar da cidade, foi quase isolado nesta quinta-feira por bloqueios policiais. Uma questão de segurança, explicou um deles. “E, também, se deixassem todo mundo passar viraria bagunça”, completou.

Um líder comunitário da favela da Paz, a mais próxima do estádio, afirmou que os bloqueios foram montados por volta das 8h e dificultaram a chegada dos moradores no metrô, que fica bem próximo ao estádio. Para chegar à estação Itaquera era preciso dar uma volta que aumentava bastante o tempo do trajeto –dos dez minutos usuais para até 30 minutos. “Pela manhã, um senhor cheio de malas precisava chegar ao metrô, mas não queriam deixá-lo passar. Imploramos até que um carro da CET [Companhia de Engenharia de Tráfego] o levou”, conta Washinton Gleydson, 31, o líder comunitário.

Os que tentavam chegar em suas casas no bairro a partir da estação Itaquera também enfrentaram dificuldades para passar. “Que beleza essa Copa, hein?”, ironizava, irritado, Rafael Silva, 29, ao ouvir de um policial militar que teria que dar a volta pelas margens do bairro para chegar em sua casa, na avenida Itaquera. No caminho, entretanto, ele decidiu pegar um atalho, por uma espécie de trilha no meio do mato. “Vou ter que passar no meio de uma cracolândia”, dizia ele, um pouco antes. Alguns, que souberam no meio do caminho que chegar em casa seria difícil, planejavam outros percursos antes mesmo de descer na estação. Dentro de um dos vagões, uma senhora conversava com outra sobre o ônibus que pretendia pegar.

Símbolo do descaso

Os bloqueios não afetavam apenas quem seguia o caminho a pé. O trânsito também estava fechado para os carros em muitas ruas da região. Quem tentava chegar em casa, localizada dentro desse bolsão de isolamento, precisava de um crachá dado pela prefeitura semanas antes para atestar que o veículo pertencia a um morador.

Esse bloqueio viário teve uma vantagem: fechada, a avenida Miguel Inácio Curi, uma das principais do bairro, virou palco de uma festa com televisores pregados a muros e carrocinhas que vendiam cachorro-quente e bebida, organizada pelos moradores da favela da Paz, uma comunidade a 900 metros do estádio que viveu uma tormenta desde o anúncio da construção da arena no segundo semestre de 2010. Nestes quatro anos, eles souberam que seriam despejados da área onde estavam; brigaram com a prefeitura e disseram que só sairiam se recebessem outra casa em troca; ouviram a promessa de que a nova casa chegaria antes da Copa para os moradores que vivem em uma área em risco de desabamento; e, finalmente, foram avisados, poucos dias antes do início do Mundial, de que os imóveis não ficaram prontos a tempo e que agora só sairão dali em 2015.

“A nossa casa não ficou pronta porque gastaram tudo com o estádio”, brincava uma das moradoras. No entanto, a comunidade, um dos maiores símbolos do descaso do poder público com a população pobre, decidiu fazer as pazes ao menos nesta quinta-feira com a Copa. As vielas da favela, enfeitadas com centenas de bandeiras e fitas verde-amarelas, viraram uma extensão da casa dos moradores, que colocaram na rua seus televisores, organizaram churrascos para a família e os vizinhos e dançaram, xingaram e gritaram pela performance da seleção.

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