BLOCKCHAIN

Casa de leilões Sotheby’s vende o código original da internet por 5,4 milhões de dólares

Tradicional negociadora dedica-se à venda de criptoativos e leiloa também uma obra de Picasso vinculada a um NFT que verifica sua autenticidade

Trecho do código original da world wide web.
Trecho do código original da world wide web.

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Tim Berners-Lee, pai da World Wide Web, os três W que permitem navegar na internet, vendeu o código-fonte original de uma das grandes criações da história da humanidade por 5,4 milhões de dólares (cerca de 26,84 milhões de reais). A casa de leilões Sotheby’s foi a responsável por realizar a venda do token não fungível (NFT na sigla em inglês), ou seja, como um arquivo digital único, que concede a propriedade das 9.555 linhas de código escritas entre 3 de outubro de 1990 e 24 de agosto de 1991 com implementações das três linguagens e protocolos inventados por Berners-Lee: HTML (linguagem de marcação de hipertexto), HTTP (protocolo de transferência de hipertexto) e as URLs (endereço que identifica cada página na internet). O NFT também inclui documentos HTML originais que instruíam os primeiros usuários da web sobre como usar o aplicativo. O primeiro lance do leilão foi dado em 23 de maio, no valor de 1.000 dólares e, no transcurso do processo, teve um total de 51 lances.

“O processo de colocar este NFT em leilão me deu a oportunidade de olhar para trás no tempo, para o momento em que me sentei pela primeira vez para escrever este código há 30 anos, e refletir sobre o quanto a web avançou desde então, e até onde poderia ir nas próximas décadas”, disse Berners-Lee em um comunicado de imprensa. “Estou muito feliz que as iniciativas que Rosemary [sua esposa desde 2014] e eu apoiamos estejam se beneficiando da venda deste NFT.”

Este leilão é o mais recente exemplo do interesse que vem despertando a compra e a venda de ativos digitais, reunidos nos chamados NFT. Estes bens digitais únicos operam na chamada blockchain e podem ser usados para comercializar todo tipo de produtos virtuais. São encontrados principalmente em seis setores: compra e venda de arte, especialmente nativa digital; colecionáveis (selos como os de sempre, mas em formato digital); ativos relacionados com videogames, como intercâmbios ou armas para uso em determinados títulos; metaversos, ou seja, compras em mundos digitais no estilo da extinta página do Second Life; esportes, especialmente futebol, NBA e Fórmula 1; e utilities, uma espécie de colcha de retalhos que inclui nomes de domínio ou entradas com valor agregado para determinados eventos.

A Sotheby’s é uma das casas de leilão mais ativas neste negócio incipiente. “Ainda estamos nas primeiras etapas da nossa entrada no mercado de NFT”, afirma Matthew Floris, porta-voz da empresa, ao EL PAÍS, “mas já podemos perceber que está ganhando impulso. O mercado de arte digital está florescendo e nos comprometemos a expandir nossa oferta NFT no futuro para mais categorias, tanto de belas-artes quanto de luxo. As possibilidades são enormes”.

A Sotheby’s, de fato, fez alguns leilões interessantes recentemente. O mais recente é o do quadro Le peintre et son modèle, de Pablo Picasso, de 1964, vendido no dia 29 de junho por 2,25 milhões de libras esterlinas. O curioso deste caso é que a casa de leilões vendeu junto com a obra uma gêmea digital que garante sua rastreabilidade e autenticidade. Para tanto, fez uma parceria com uma empresa que usa um microscópio e um programa de inteligência artificial para escanear cada mícron da superfície do quadro e criar uma assinatura criptografada exclusiva. No final desse processo, a máquina cria um NFT que registra a procedência de uma obra de arte e serve como referência para o scanner reconfirmar a identidade da obra de arte física a qualquer momento no futuro.

‘Le peintre et son modèle’, de Pablo Picasso (1964).
‘Le peintre et son modèle’, de Pablo Picasso (1964).

“O maravilhoso sobre nossas vendas de NFT”, diz Floris, “é que, em muitos casos, nos dão a oportunidade de trabalhar diretamente com os artistas para colocar suas obras em leilão, uma abordagem que também usamos em nossa primeira venda de NFT com Pak e, mais recentemente, na venda da Natively Digital. Em abril, a empresa vendeu por 14,9 milhões de dólares a coleção The Fungible, do designer nativo digital Pak, em um leilão que teve 3.000 participantes, segundo o portal ArtDaily. Em 10 de junho, a Sotheby’s leiloou o NFT de uma obra de arte digital chamada CryptoPunk por 11,8 milhões de dólares. A obra é composta por 10.000 personagens de pixel art criados pelo estúdio Larva Labs em 2017.

Exposição da obra de arte digital chamada CryptoPunk, da Natively Art.
Exposição da obra de arte digital chamada CryptoPunk, da Natively Art.

“Trata-se de uma mudança”, continua Floris, “na forma como tradicionalmente nos relacionamos com as galerias e os vendedores independentes. Para os artistas é muito vantajoso poder vender suas obras diretamente para colecionadores que estão disponíveis através das novas mídias”.

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