Pandemia de coronavírus

Mortes semanais por covid-19 na Espanha caem 90% desde o início da vacinação

Efeito da imunização e a queda nos contágios por causa das restrições aceleram a redução no número de óbitos, que vai a uma média de 52 por dia

Idosos de dois asilos de Madri, que foram vacinados contra a covid-19, fazem o primeiro passeio em grupo em um zoológico após 15 meses isolados por causa da pandemia.
Idosos de dois asilos de Madri, que foram vacinados contra a covid-19, fazem o primeiro passeio em grupo em um zoológico após 15 meses isolados por causa da pandemia.Luca Piergiovanni / EFE

Aviso aos leitores: o EL PAÍS mantém abertas as informações essenciais sobre o coronavírus durante a crise. Se você quer apoiar nosso jornalismo, clique aqui para assinar.

A vida começa a ganhar terreno do coronavírus na Espanha. Os contágios continuam em níveis muito altos (173 casos por 100.000 habitantes), mas o avanço da vacinação e as restrições para frear a circulação do vírus amorteceram os efeitos da covid-19 no pior parâmetro da pandemia: a cifra de mortes. Desde que a vacinação começou a fazer efeito, no começo deste ano ―coincidindo na prática com o pico da terceira onda―, os óbitos causados pelo vírus caíram drasticamente. O efeito da vacinação, que protege de formas graves da doença e da morte, junto com a queda na transmissão devido às limitações sociais impostas pelas autoridades, acelerou a redução do número de falecidos. Desde o final de janeiro, as mortes semanais por covid-19 caíram 90%.

Mais informações

A Espanha atravessava a terceira onda da epidemia quando chegaram as primeiras vacinas, em 27 de dezembro de 2020. O primeiro lote era quase simbólico, apenas 10.000 doses que foram administradas em residências geriátricas, os locais mais castigados pelo vírus e os primeiros na lista de coletivos prioritários a serem protegidos. Aquelas vacinas exigiam duas doses, e a primeira delas só começaria a fazer efeito 15 dias depois de injetada, de modo que foi um janeiro entre a cruz e a espada, superando o desafio da nova onda, mas vacinando a conta-gotas com as escassas doses que iam chegando. No final daquele mês, quando a terceira onda epidêmica alcançava seu auge ―900 casos por 100.000 habitantes em 27 de janeiro―, as primeiras injeções começaram a fazer efeito, e as mortes, sobretudo em asilos geriátricos, passaram a cair.

Segundo os dados do Instituto de Idosos e Serviços Sociais (Imserso, na sigla em espanhol), na última semana de janeiro morreram 778 idosos nas residências geriátricas devido à covid-19. Mas nos últimos meses, e com os asilos já completamente protegidos, a cifra de mortes nesses locais desabou: apenas 6 mortes por covid-19 entre 26 de abril e 2 de maio, a última semana com dados consolidados. “Os casos que a terceira onda tinham gerado foram vistos em janeiro e fevereiro, e isso não havia mais como parar, porque esses contágios já haviam ocorrido. Só quando começamos a vacinar e passa o tempo para gerar imunidade que os contágios e os casos caem fortemente”, observa Daniel López-Acuña, ex-diretor de Emergências da Organização Mundial da Saúde.

A vacinação na população geral é mais lenta, mas os efeitos da proteção nas faixas etárias mais vulneráveis ―89% dos maiores de 60 anos receberam pelo menos uma dose― já se refletem na curva global. Além dos internos em asilos, os maiores de 80 anos já completaram a pauta vacinal, e a cobertura com duas doses na faixa dos 70 a 79 beira 50%. Tudo isso, somado à queda da transmissão pelas restrições sociais impostas ―menos contágios acontecem―impactou na redução do número global de mortes por covid-19 na Espanha: de 3.722 na última semana de janeiro para 366 entre 26 de abril e 2 de maio, segundo os dados consolidados da Rede Nacional de Vigilância Epidemiológica.

“Na população geral não temos cobertura vacinal suficiente para interromper a transmissão, mas, como a mortalidade global estava muito vinculada à idade, quando cobrimos as faixas etárias mais vulneráveis o impacto vai se consolidando”, diz Amós García, presidente da Associação Espanhola de Vacinologia. Até agora, o país europeu administrou 20,6 milhões de doses; 30% da população recebeu ao menos uma injeção, e 13,7% (6,5 milhões de pessoas) completaram a pauta.

Os especialistas consultados afirmam que a campanha de imunização está sendo crucial para reduzir a mortalidade, mas não é o único fator a contribuir para esta queda. “Além da vacinação, influem as restrições, que fazem os casos caírem e, portanto, as hospitalizações e as mortes”, avalia Salvador Peiró, epidemiologista da Fundação para o Fomento da Pesquisa Sanitária e Biomédica (Fisabio) da Comunidade Valenciana (leste). Depois do abrandamento das medidas durante o Natal, os governos regionais da Espanha voltaram a adotar medidas de controle rigorosas, como os limites às reuniões sociais, horários reduzidos nos bares e restaurantes e confinamentos regionais, entre outras. “Nas residências geriátricas, a partir de fevereiro o que vemos claramente é o efeito das vacinas. No resto da população é mais lento e vemos os dois fatores misturados: restrições e vacinas. Mas, à medida que a vacinação avança, há cada vez menos gente idosa que sofre a doença grave. Nesta pandemia, 95% dos mortos têm mais de 60 anos. Se os protegermos e nos liberarmos disto, o cenário muda completamente”, afirma Peiró.

Essa combinação de vacinação e medidas restritivas para diminuir a incidência também provocou uma queda de 77% nas internações hospitalares, embora nas UTIs o ritmo seja diferente. “Nas internações de UTI o efeito não é o mesmo, porque existiu um deslocamento para idades mais jovens e estadias mais prolongadas”, alerta López-Acuña. Com a vacinação, a idade de contagiados e hospitalizados baixou: de 42 para 40 anos entre os infectados em geral, e de 63 para 60 no caso dos pacientes das UTIs, segundo o Ministério da Saúde. “Talvez esteja ligado a que os jovens costumam recorrer mais tarde aos serviços sanitários e chegam mais debilitados. E a agressividade das variantes também é um elemento que se deve vigiar”, aponta García. Peiró concorda: “Temos certa percepção de que os casos que chegam à UTI agora estão mais graves do que antes, e discutimos se pode ser pela variante britânica, mas não se estudou ainda”.

Quanto menor é a idade dos pacientes, menor o risco de necessitar de UTI, mas as estadias dos grupos mais jovens, observam os intensivistas, estão sendo mais longas ―às vezes superiores a cem dias. E será difícil esvaziar as UTIs, acrescentam. “Eles passam mais tempo porque são candidatos a tudo: são muito jovens e é preciso lutar por eles até o final. As estadias mais longas são um efeito colateral de a mortalidade ter diminuído”, apontava há alguns dias ao EL PAÍS o chefe da UTI do Hospital Vall d’Hebron, em Barcelona, Ricard Ferrer.

Contador zerado

Segundo o relatório de dados do Ministério da Saúde, nos últimos sete dias 261 pessoas morreram de covid-19 na Espanha. Isto representa uma média de 37 por dia, mas estas cifras, embora mais imediatas, não são definitivas, porque pode haver atrasos de notificação que desvirtuem o cômputo real. Na verdade, apenas os dados reunidos pelo Instituto de Saúde Carlos III através da Rede Nacional de Vigilância Epidemiológica, com um ligeiro atraso na atualização, incluem informações mais consolidadas e confiáveis. Segundo seu último boletim, entre 26 de abril e 2 de maio ocorreram 366 mortes, ou 52 por dia. A tendência, em todo caso, é descendente, mas falta bastante para chegar a zero. “Ainda não temos os maiores de 60 anos totalmente cobertos, e a vacina não funciona 100%. Reduz o risco, mas não o elimina”, justifica López-Acuña. Exemplo disso foi o caso de uma idosa de 84 anos, vacinada em janeiro no lar geriátrico San Prudencio, em Vitória, que morreu de covid-19, conforme informou na segunda-feira a prefeitura dessa cidade do País Basco (norte). Um estudo do Ministério da Saúde revelou que a eficácia da vacinação nos asilos se situa entre 81% e 88%: as injeções evitaram 71% das internações e 82% das mortes.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Zerar o contador de mortos, apontam os especialistas, é por enquanto uma empreitada impossível, principalmente com a atual transmissão de casos. “Os mortos que aparecem agora são pessoas que morreram faz tempo e são notificadas agora, ou casos que vêm se arrastando há um ou dois meses nas UTIs. Se os olharmos por data de contágio, a curva certamente muda”, aponta Peiró. De fato, as novas mortes que o Ministério da Saúde notifica ―108 nesta quarta, por exemplo―não costumam ser óbitos ocorridos nas 24 horas anteriores, e sim dias ou semanas antes, e que os governos regionais demoram para reportar.

“Não podemos aceitar 80 ou 50 mortes diárias. Transformamos a cifra em um parâmetro e não vemos as pessoas que há por trás. Estamos anestesiados. Na medida em que tivermos a incidência alta, teremos um grau de mortalidade: precisamos ver a incidência cair abaixo de 25 casos por 100.000 habitantes para que as mortes se reduzam mais”, alerta López-Acuña. Desde o início da crise sanitária, o Ministério da Saúde contabilizou mais de 79.000 mortos com um diagnóstico confirmado de covid-19. Mas a cifra supostamente será maior, já que, no início da pandemia, o acesso aos exames de detecção era muito limitado, muita gente morria sem receber o diagnóstico.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50