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O que está em jogo na eleição americana é a democracia no mundo

Entre Trump e Biden, há um jogo de alternância de poder que afeta a saúde do planeta. A democracia só será salva de uma aberração como Trump e seus imitadores se ela for plena

Figura de papel marché em parada de Berlim faz crítica a Trump.
Figura de papel marché em parada de Berlim faz crítica a Trump.Ralph Orlowski / Reuters

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Não votaremos nas eleições nos Estados Unidos. Tampouco votarão os húngaros, franceses, sul-africanos, indianos e tantos outros. Mas que não reste nenhuma dúvida: ela tem o potencial de ser um divisor de águas no Brasil e uma das eleições mais importantes em décadas no mundo. Em 2020, há muito mais em jogo que a alternância de poder na maior democracia do mundo. Há muito mais em jogo que a disputa entre duas elites que se enfrentam para controlar o poder na maior economia do mundo.

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Naquelas urnas no interior do Alabama ou nas ruas de Boston estará em jogo a democracia. Não apenas nos EUA. Mas para muito além das fronteiras do país. Em cada voto, uma decisão sobre a tolerância. Em cada escolha, um voto sobre a civilização, sobre o papel da ciência, sobre os limites da mentira, sobre com quem podemos andar de mãos dadas, sobre o futuro de nossas filhas.

Em locais distantes do planeta, uma vitória de Donald Trump aprofundará as divisões e medos, ampliará o som da serra elétrica na floresta, dará confiança a governos com fortes tendências autoritárias, colocará uma mordaça em jornalistas e acadêmicos e deixará ainda mais abandonados parcelas já marginalizadas da sociedade.

Foi fundamental Trump ter superado sua infecção pela novo coronavírus. Como ser humano, desejar a morte de alguém é simplesmente imoral. Tal desejo, inclusive, ainda nos colocaria no mesmo campo daqueles que pensam que os inimigos na política precisam ser aniquilados.

Na democracia, não existe inimigo. Mas sim oposição. Não há morte, mas sim um jogo eleitoral em que o vencedor recebe o mandato para proteger a liberdade, os direitos e a vida daqueles que não votaram por ele e foram derrotados.

Trump não poderia ser derrotado pelo vírus. Terá de ser derrotado pelas urnas. Pela democracia.

Por isso mesmo, a vitória de Joe Biden não representa uma solução por si só. No fundo, ela é apenas o início. O vencedor terá de ouvir e enviar seus emissários ao interior da sociedade para entender o que os levou a votar por uma pessoa sem compromisso com os direitos mais básicos.

Se alguns podem justificar que Trump tornou visível e deu poderes a uma ala xenófoba e racista, só isso não explica sua vitória. Parte de seu eleitorado, como em outros países, se sentiu traído por aqueles que prometeram soluções e os esqueceram. Uma classe média que não pode mais dar garantias a seus filhos, uma sociedade que se confronta com a violência de uma globalização avassaladora. Uma desigualdade que impede jovens de sonhar e idosos de pagar as contas dos remédios do final de suas vidas. Uma parcela deles acabou acreditando em um charlatão, em atalhos populistas com fortes doses de ilusão.

Mas sua saída do poder não coloca um ponto final nos desafios e nem representa a superação dos problemas. Como me disse Rubens Ricupero, ex-ministro de Relações Exteriores: a derrota de Trump seria o fim do pesadelo. Mas nem por isso passaríamos ao paraíso.

Não será suficiente apontar para os riscos que Trump representa para a democracia para salvá-la de um novo Trump. Para blindá-la do ódio. Ela apenas será resgatada quando os marginalizados obtiverem o direito a ter direitos.

Em sua alma, a democracia não é nada mais a promessa a cada cidadão de que ele terá o controle de seu destino em suas mãos. Mas quando não há sequer água com sabão para lavar essas mãos, de que destino estamos falando?

A democracia só será salva de uma aberração como Trump e seus imitadores pelo mundo quando ela for plena. Caso contrário, eles voltarão. E sempre voltarão, incrementando a tensão e alimentando uma ruptura que pode ganhar contornos dramáticos.

Trump é um dos sintomas. Talvez um dos piores deles. Não apenas a causa do mal-estar. O vírus atende pelo nome de desigualdade. Mas também é conhecido por denominações genéricas como cortes na educação, fim da proteção social a milhões de pessoas, suspensão de planos de saúde, restrição às mulheres, asfixia de minorias e um insistente adiamento do futuro para aqueles que o espelho não reconhece como iguais.

A vacina? Dose diárias de democracia na forma de água encanada em cada bairro, na forma de tolerância em cada oração, na forma de educação em cada olho arregalado de um garoto diante de um livro. Democracia em cada família na escolha do formato do autorretrato na parede, em cada menina na conquista de seu corpo e de todas as cores que o arco-íris permitir. A democracia na forma da garantia de que sonhos ousados ―como a liberdade― possam ser transformados em realidade.

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