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Um tiro no pé

Quatro anos atrás, os eleitores norte-americanos cometeram um erro flagrante ao dar a vitória a Trump. Tomara que Biden triunfe nestas eleições e mude a política contraditória e nefasta que hoje domina a Casa Branca

FERNANDO VICENTE

Não basta haver eleições livres e genuínas num país; também é preciso que os eleitores votem bem. Porque às vezes eles se equivocam. Os eleitores norte-americanos se equivocaram de maneira garrafal há quatro anos votando em Donald Trump. Quem diz isto não é um “socialista furioso” ―como o presidente dos Estados Unidos geralmente acusa todos os seus adversários―, mas alguém que se sente mais próximo dos republicanos que dos democratas, sobretudo em política econômica, e que considera Ronald Reagan um dos melhores mandatários da história norte-americana.

Empresário bilionário, mas sem a menor preparação política nem cultural, Donald Trump, como informou o The New York Times, pagou impostos em apenas sete dos últimos 18 anos e gastou cerca de 70.000 dólares [404.000 reais] em cabeleireiro. Sua filha mimada, Ivanka Trump, embora seja funcionária da Organização Trump, recebia estupendos “honorários de consultoria”. O senador McCain, republicano e herói nacional, que sempre foi anti-Trump, teria morrido de novo se soubesse de tudo isso.

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Trump, durante un discurso electoral en Jacksonville (Florida) el 24 de septiembre.
Retrato de um presidente desatado
Una ilustración del candidato demócrata a la presidencia, Joe Biden.
Biden, o bombeiro da América
President Donald Trump gestures to supporters after speaking at a campaign rally at Oakland County International Airport, Friday, Oct. 30, 2020, in Waterford Township, Mich. (AP Photo/Jose Juarez)
Era Trump, o balanço político de quatro anos frenéticos

Desde sua chegada à Casa Branca, o presidente começou a despedir colaboradores, a tal ponto que jamais existiu na história dos EUA um mandatário que tenha mudado a equipe tantas vezes. Muito mais grave, no entanto, foi ele ter insultado os tradicionais aliados de seu próprio país, que fizeram a Segunda Guerra Mundial com os EUA, pressionando-os para que “aumentem seus gastos de defesa” com o argumento de que a OTAN não podia viver apenas da contribuição norte-americana. Ao mesmo tempo, declarou que o chefe de Estado que mais admirava era Vladimir Putin. Tudo isso abalou as relações dos EUA com a Europa Ocidental de uma forma sem precedentes. Washington certamente já não dirige a política internacional do Ocidente. Ninguém a dirige, o que explica sua atual situação.

Talvez ainda pior tenha sido a dureza de seus ataques às migrações para os EUA, um país cuja grandeza foi forjada principalmente pelos imigrantes vindos do mundo inteiro. Muitos, claro, da América Latina e especialmente do México. Na memória de quase todo o planeta permanecem as palavras do presidente Trump sobre os mexicanos: “Não nos enviam suas melhores pessoas, e sim ladrões, traficantes, bandidos e estupradores.” E sua obsessão por construir um muro eletrificado na fronteira entre os dois países, pelo qual os próprios mexicanos deveriam pagar, uma irrealidade sobre a qual ainda insiste, apesar dos argumentos ―incluindo os de alguns republicanos, além de democratas― de que o custo seria estratosférico e que não é realista sequer concebê-lo.

Os ataques aos migrantes mexicanos e do resto do mundo são apenas um aspecto de sua campanha racista, que inflamou as tensões entre brancos, negros e mestiços de todas as partes nos EUA, onde fazia muitos anos que não apareciam cartazes como “Somos um país de brancos”, difundidos pela velha Ku Klux Klan, que reapareceram e violentaram, com mortos e feridos, os conflitos raciais e sociais nos EUA de uma forma extrema que dificilmente poderia ser imaginada.

Por isso, o país que deveria guiar o mundo livre está neste momento mais isolado e solitário que em toda a sua história. Ninguém o apoia em suas disputas com a China. Ao contrário, recebeu críticas gravíssimas pelo projeto de paz com os palestinos, encomendado ao genro de Trump pelo próprio presidente, e que não apenas foi considerado inaceitável pelos próprios palestinos como também rejeitado por boa parte das organizações mundiais, como as Nações Unidas, e por numerosas democracias do mundo.

Embora incentive em seus discursos a oposição na Venezuela ―a pior ditadura latino-americana é a chavista, juntamente com a cubana―, Trump o faz por puro oportunismo, pois na verdade não tomou nenhuma medida para dar apoio efetivo a esse povo que luta contra um regime tirânico, que destruiu a economia de um dos países potencialmente mais ricos do planeta e abriu as fronteiras da América Latina aos iranianos, além dos russos, que agora compram empresas por todo o continente graças à mediação de Caracas.

A atitude de Trump frente à praga do coronavírus não poderia ter sido mais contraditória e nefasta. Os EUA têm mais de 250.000 mortos por obra da covid-19, é o país mais afetado pela pandemia e, no entanto, seu presidente rechaçou como demagógicos e “esquerdistas” os chamados de alerta dos médicos e especialistas para combater os contágios de maneira eficaz, por meio de restrições, utilizando argumentos como o econômico. Isto é, a sociedade não pode ser paralisada com o fechamento de empresas porque então haveria mais mortos por falta de trabalho do que pela epidemia. O ideal: um cemitério.

Trump se orgulha de que, com sua política econômica, os EUA gozam de uma grande prosperidade e pleno emprego. Em primeiro lugar, isto não é correto. Em segundo, se a vida econômica do país foi menos atingida pelo avanço da praga que a de outras nações desenvolvidas, é por sua notável agilidade, que vem de longe, na qual os proprietários podem demitir os trabalhadores e estes podem lhes exigir melhores salários ou ameaçar mudar de empresa se não o conseguirem ―o que dá às suas indústrias uma notável capacidade de se renovar e mudar de orientação, de acordo com a oferta e a demanda internacional. Isto vem de longa data e, em grande medida, é responsável pelo vigor e pela fortaleza da sociedade norte-americana. Com apoios governamentais, Trump ressuscitou indústrias obsoletas, como a do carvão, e reduziu impostos e outras obrigações das grandes empresas, o que parecia positivo. A certa altura, deu a impressão de fortalecer uma economia que foi duramente atingida e pode vir a sofrer nos próximos anos uma série de retrocessos devido aos efeitos do coronavírus.

É verdade que seu adversário nestas eleições, Joe Biden, que foi vice-presidente de Obama, não é uma figura muito atrativa. Carece de dinamismo. É bastante idoso e passa a impressão de um homem que merece descansar após uma carreira política que, sem nunca se destacar, foi sempre acertada e decorosa. Neste momento, contudo, Biden é a única pessoa que pode tirar os EUA da dramática situação local e internacional, em que a política grotesca e repleta de contradições delirantes de Trump levou o país a viver uma das piores crises da sua história. Estando no poder ―e, sobretudo, com o apoio que lhe oferecerá sua vice, Kamala Harris, que tem uma excelente trajetória política e judicial na Califórnia ―, Biden devolverá à nação muitas das coisas que Trump virou pelo avesso, e que outrora permitiram os grandes progressos dos EUA: a pujança de suas instituições, o império da lei, a abertura de suas fronteiras, a inteligência com a qual seus governos foram reduzindo velhos defeitos, como o racismo, e que levaram o país aos grandes níveis nos quais ainda se encontra e que, apesar das péssimas políticas de Trump nesses quatro anos, ainda mantêm os EUA no pelotão de vanguarda dos países do mundo.

Tomara que Joe Biden triunfe nestas eleições e salve os EUA da catástrofe que foi, há quatro anos, a decisão dos eleitores norte-americanos de dar a vitória a Donald Trump.

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